A essência da exposição




Wilson Márcio Depes


Diante do convite do Rogério, para deleitar-me com sua exposição fotográfica, por razões ainda não decifradas, tomou conta de mim a grande obra "Fausto", de Goethe, que, além de ser uma obra dificílima, foi escrita durante mais ou menos 60 anos. Anos esses, por sinal, vividos intensamente. Evidentemente que entraram em seu trabalho todos os sentimentos, angústias, ideais, projetos, experiências. Os acontecimentos que norteiam Fausto revelam dualidades na vida do ser humano, tais como o bem e o mal, a exaltação e o equilíbrio, o paraíso e o inferno, o diabólico e o celestial, a sombra e a luz. Goethe dá vida nova ao lendário Fausto, tornando-o, enfim, imortal. E as fotos de Rogério são imortais, pois contam, com sutileza, a vida dos capixabas em toda a sua extensão e nuanças poéticas e cruéis. As fotos de Rogério, sim, valem por mil palavras e pensamentos. E nelas estão captados todos os ingredientes da vida humana.

Não fui ainda - por motivos profissionais inadiáveis - à exposição. Contento-me, por enquanto, com as fotos que ilustram, humanizam e politizam o meu escritório. Nas fotos de Rogério - que necessariamente não são as da exposição - não vislumbro - seria melhor dizer sinto - só um momento, mas muitos anos de luta, de sensibilidade, de denúncias, de estudos, de dor e, também e sobretudo, um profundo amor pelo nosso estado, por nossa gente em todo o seu espectro.

Conheci Rogério na década de 70 e de lá para cá nos tornamos amigos, uma espécie de irmãos. Não fossem meus cabelos já esbranquiçados, segundo ele, bem que poderia ser meu pai. É o amigo que nunca faltou nos bons e maus momentos. É o amigo das horas certas, embora nas horas incertas sempre procure acertar. Franco e leal, consegue, paradoxalmente, manter íntegra uma sensibilidade incrível, mesmo vivendo apocalíptico mundo político, que é e sempre será sua paixão.

Olho, neste momento, para sua foto sobre "Os Retirantes", de Itaúnas. Enredo cruel: um casal, três filhos e um pequeno saco com algumas roupas. Viver uma vida toda para, ao final, fugir da morte com tudo o que possui. E mais nada (Ou tudo?).

Rogério me remete, necessariamente, para a Praça Jerônimo Monteiro, palco de tantos acontecimentos políticos. No centro da praça há um busto de Newton Braga, irmão de Rubem, com a seguinte frase a ilustrá-lo: "Essa antena delicadíssima /a captar dores de todo mundo/ que me fará morrer de dores/ que não são minhas". Veja que coisa curiosa: a obra de Rogério perpassa pelo romântico e puro Newton chegando às páginas do Fausto.

Peço desculpas aos caros leitores por invocar o velho poema de Newton, porém, nesse período, nós, cachoeirenses, já estamos imbuídos de um espírito festivo, festa que o próprio Newton criou para reaproximar os amigos que iam procurar horizontes mais promissores que os de Cachoeiro. Newton, a bem da verdade, se não foi o pai do bairrismo cachoeirense, pelo menos o manteve intacto, tamanho o carinho que sempre devotou a Cachoeiro. Assim como Rogério sempre dedicou a seu estado. Do carinho Rogério criou inquietações.

Certa feita Rogério recebeu um convite para trabalhar no jornal Estado de São Paulo. Cláudio Bueno Rocha, seu grande amigo - outro dia lembrado com carinho por Fausto Wolff, no JB - me confessava que temia não pelo sucesso do grande repórter - o maior de todos os tempos no estado -, mas porque achava que Rogério gostava muito do ES e que ia sentir falta daqui. Afinal, ia morar numa terra onde "sequer se vê o céu". A ironia do CBR foi premonitória. Daí uns tempos, Rogério estava de volta. É possível morar fora de Vitória sem ouvir as frases inimitáveis de Vicente Silveira sobre política e político?

Rogério representa grande parte da história de nosso estado. Seja com sua máquina em punho ou com seu texto emocionante e emocionado. Sua exposição, por certo, mostra a realidade de nosso estado, mas com um ar de esperança, de fraternidade, de denúncia, de compaixão e de muito amor. Por certo a exposição é feita dessa essência.