Vitória (ES), edição de fim de semana
 
'Eles estavam tirando tudo o que nós estávamos preservando'
Agora já dá para deitar a cabeça
no travesseiro e dormir em paz





Cristina Moura



"Fique calado quando não tiver nada a dizer; quando a paixão genuína te mover, diga o que tens a dizer, e o diga com calor." (D. H. Lawrence)

O antigo Parque Nacional de Pontões está prestes a virar Monumento Natural - uma vitória da comunidade pomerana da região, que esteve seriamente ameaçada de perder sua identidade cultural e suas terras em um processo desumano que acabou derrubado no Congresso por iniciativa do deputado federal fluminense Fernando Gabeira (PV). Do Espírito Santo mesmo nenhum parlamentar moveu uma palha para apoiar a luta dos pomemoranos.

Foi a convite do jornalista Rogério Medeiros que Gabeira viajou até Pontões para ver de perto o drama da comunidade em sua luta para impedir a transformação de uma das belas e preservadas áreas do Espírito Santo - fartamente elogiada pelo paisagista Burle Marx - em parque nacional, o que resultaria numa das mais dolorosas tragédias humanas de que se tem notícia no Espírito Santo. No decorrer da luta por sua nova formatação, a comunidade pomerana que vive no entorno do parque, ao longo de 17.496 hectares, enfrentou uma série de dificuldades. Quando recorda tais fatos, nossa entrevistadae, alguns momentos não contém as lágrimas.

O parque se divide entre os municípios de Pancas e Águia Branca, no noroeste do Estado. O problema é que o processo anterior de criação do parque assustou e ameaçou os moradores, descendentes de pomeranos, também preocupados com a preservação da área. Só depois de uma série de discussões e desgastes físicos e emocionais para a comunidade é que a idéia de um novo formato para a área saiu vitoriosa, de modo a tranqüilizar as famílias envolvidas na luta.

Foto: Syã Fonseca
  
A nossa entrevistada deste final de semana é a farmacêutica e futura bióloga Patrícia Sthur, nascida justamente na região que compreende o parque. Em 2004, Sthur resolveu se casar com o odontólogo Geraldo Oliveira vestida de preto, não somente como forma de relembrar um traço cultural daquela etnia, mas para registrar o desgaste sofrido por um fato que ela chama de "desrespeito à comunidade". Vamos conferir os detalhes dessa história e o seu desfecho com um final feliz.


Século Diário: - Qual é a sua avaliação sobre a história de luta da comunidade, em relação à formatação definitiva do que era inicialmente o Parque Nacional dos Pontões?

Patrícia Sthur: - Nossa comunidade é tranqüila, vive tranqüilamente, de uma forma bem pacata. A comunidade se reúne na igreja, nos encontros, festas, casamentos, festas da colheita, festas das igrejas... A rotina da comunidade era assim: 568 famílias, em média, se colocarmos cinco pessoas por família, quase três mil pessoas. A comunidade vive sua vida tranqüila, na igreja, no trabalho, na roça, na família. É ligada, basicamente, à igreja, à terra e à família. Essas três coisas sempre estiveram presentes na comunidade pomerana. Com a questão do parque essa questão mudou bastante. A comunidade teve que se adequar a uma realidade que não conhecia. Até saber que existia essa possibilidade, realmente, a comunidade não conhecia. Imagine. A pessoa tem a escritura da terra, paga os impostos em dia... Nunca iria achar que seria tomada de surpresa com a notícia de que a terra poderia ser desapropriada de uma determinada forma, para o governo preservar. Coisa que a comunidade já fazia automaticamente.

- Como foi que isso começou a influenciar a comunidade?

- A partir do momento que ela ficou sabendo. Todo o processo foi desenvolvido sem que a comunidade tomasse o mínimo de conhecimento. Foi realizado sem que a comunidade ficasse sabendo mesmo, em nenhum momento.

- Como foi esse impacto?

- O impacto, inicialmente, foi o de não acreditar. Primeiro, foi quando o helicóptero sobrevoou as terras. Voou tão baixo que, praticamente, parava nos locais, ficava fotografando, sei lá o que eles ficavam fazendo... Tinha gente que dizia que o helicóptero voou tão baixo que parecia que iria pousar. Ninguém sabia por que aquele helicóptero tinha sobrevoado. Alguns achavam que era algum político, sobrevoando a área, mas ninguém sabia o que estava acontecendo. Isso, no início de dezembro de 2002. Quando foi em fevereiro de 2003, ficamos sabendo pelo telejornal. Passou na TV que a área havia virado um Parque Nacional. Falou que ia ser bom para preservar o meio ambiente, mas a comunidade mesmo nem sabia o que era o parque e o que isso acarretava para ela. Aí, algumas pessoas da comunidade foram buscar o decreto que falava sobre isso. Onde estaria o decreto? Tentaram esconder o decreto da comunidade (risos). Quando conseguimos, vimos que tinha lá que as terras seriam desapropriadas!... Começou o pesadelo. Ninguém achava que estava morando lá, numa área de mata verde... De repente, vem um helicóptero, sobrevoa a área e alguém fala: 'Essa área está bonita, preservada, e vamos fazer um parque nacional aqui...' Isso a gente só fica sabendo quando está tudo pronto, com o decreto assinado. Foi aí que começou o pesadelo da comunidade.

Foto: Syã Fonseca
  
- Uma questão de desrespeito...?

- Desrespeito e desvalorização de tudo o que foi feito, principalmente pela questão ambiental. Parecia que aquelas pessoas que mais tinham preservado a região tinham, automaticamente, que ser punidas por preservar. Aqueles que têm suas fazendas totalmente devastadas não estavam dentro desse espaço delimitado para o parque. Pensamos: 'Como assim? Estamos sendo punidos por preservar a natureza?' Era uma contradição. Ninguém sabia o que fazer.

- O que você chama exatamente de pesadelo?

- Eles estavam tirando tudo o que estávamos preservando em relação à cultura, a tudo o que a comunidade vinha preservando. A terra, a propriedade, faz parte da vida daquelas famílias. As matas, a terra, os seres vivos... tudo o que a gente viveu ali teria que ser largado. Começamos a nos preocupar em relação ao que poderia ser feito porque a situação foi ficando mais grave. Pessoas foram adoecendo. Houve gente que até pensou em se suicidar.

- Há todo um valor emocional, simbólico...

- Muitas pessoas questionavam isso, que estavam sendo vítimas de algo que não tinham culpa. Alguns até chegaram ao extremo de dizer que iam contratar um trator para derrubar tudo... Mas é claro que não seria a solução. Foi um momento de desespero. Virou revolta. Cada um queria se defender e não sabia nem o que fazer, nem como se defender. Lógico que pessoas sofreram muito mais do que outras porque cada pessoa da comunidade tem um valor agregado maior ou menor. Isso depende de cada caso, mas, certamente, o fato chocou todo mundo. Imagine uma pessoa que está ali, passando sua vida. Imagine um lugar que sobrevive, de geração em geração. Pessoas que estão ali, cuidando da terra, cuidando do meio ambiente.

Foto: Apoena
  
Casamento pomerano de Patrícia Sthur
- Você nasceu e cresceu ali...

- Nasci e cresci...

- Agora, vem outra geração aí (apontando para a barriga que espera um bebê de oito meses)...

- (risos) Pois é...

- Como é que você vai explicar essa história toda à nova geração...?

- Pois é, um desafio. Preciso explicar não somente para as novas gerações, como para as mais antigas. Há uma dificuldade de entender. Por exemplo, minha avó de 89 anos. Eu nunca falava com ela o que estava acontecendo. Ela não ia entender. Ia ficar preocupada... Só preocupada porque ela mal fala português. Há palavras que ela até desconhece. Um dia ela fez um questionamento porque eu tinha acabado de me casar e ela achava que eu não deveria estar cuidando tanto dos assuntos da comunidade. Ela achava que eu deveria estar cuidando do meu marido em casa. Ela perguntava: 'Por que você está vindo tanto aqui? Você tem que ficar em casa, tomar conta da sua casa, porque você tem outra vida agora...' Aí, sempre, no final, perguntava: 'Você está cuidando daquele negócio das terras, não é? Isso ainda vai dar muita guerra...' A gente sofreu muito. Eu não queria isso. Houve muitas passagens, muitos momentos que não foram fáceis. (emociona-se). Lembrando, assim, agora, é difícil... Uma vez, Rogério Medeiros foi lá e uma senhora da comunidade disse: 'Fala para o Lula que essa velhinha não sai daqui!... Só saio daqui morta!...'

- Esse foi apenas um exemplo desse tipo de reação...

- Sim, houve muitos casos. Muitos deles não estão mais entre nós, já morreram. A maioria pensava assim: 'Se eu não ficar aqui, para onde é que eu vou? O que é que eu vou fazer?' Era uma situação de desespero mesmo. Todo o movimento de pessoas ligadas à causa, simpatizantes à causa, foi interessante. Tão importante que fomos convidados a participar da Política Nacional de Comunidades Tradicionais.

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