Vitória (ES), edição de fim de semana
 
'Eles estavam tirando tudo o que nós estávamos preservando'
Agora já dá para deitar a cabeça
no travesseiro e dormir em paz





Cristina Moura



Foto: Syã Fonseca
  
- Como foi essa interlocução com o governo?

- Todo esse problema foi a ameaça de sairmos do nosso reduto, do nosso ambiente. Houve um momento importante também. Um dos motivos de eu casar de preto, na época, foi por isso, como forma de protesto. Há uma tradição na nossa cultura, desde a Idade Média, de casar de preto como uma manifestação de passagem pelo senhor feudal. Como o senhor feudal não existe mais, casar de preto foi uma forma de protesto por essa questão do parque, que ia acabar com a nossa comunidade. Como o assunto ganhou as páginas dos jornais, da internet... ganhou repercussão nacional. Por meio de Rogério Medeiros, a comunidade conseguiu que Fernando Gabeira fosse até a região. Foi muito importante para nós. Esteve lá, visitou, conversou com as pessoas.

- Qual a sua avaliação da presença dele lá?

- Foi muito importante. Como ele é um político ligado à causa ambiental, isso facilitou muito nossa conversa. Facilitou o diálogo. Ele falou que os moradores é que deveriam ficar. Os moradores, para ele, já eram parte do ambiente. Disse: 'Ninguém vai sair daqui.' Defendeu essa questão. Hoje estamos confirmados como comunidade tradicional, dos pomeranos.

- Como é que está a comunidade, atualmente, depois dessa luta?

- Está feliz, mas um pouco apreensiva. Depois que aconteceu isso, a comunidade ficou com medo do que vai acontecer depois com as terras. As pessoas ficaram meio receosas, sem acreditar mesmo no futuro em relação a investimentos. Primeiro, houve o impacto da questão da desapropriação, mas ainda existe o medo. Não existe totalmente a confiança. Depois do decreto sobre o parque, foi quebrada uma cadeia que havia sendo construída. Não é fácil confiar em Ibama, esses órgaõs todos... Foi difícil a gente acreditar em qual apoio poderíamos confiar. Alguns agricultores ficam imaginando como é que vão fazer investimento. Pensam em investir a terra, fazer algum benefício, mas têm preocupação em como vai ser o futuro. Conseguimos que o local seja denominado e tratado como Monumento Natural, outra categoria, que permite a permanência da comunidade no local. A comunidade está lá na expectativa porque o projeto de lei para Monumento Natural, não para o parque, já passou por Ministério do Meio Ambiente, Ibama, Câmara dos Deputados, Senado e está na Casa Civil para ser sancionado pelo presidente Lula. Estamos esperando para o próximo mês, junho. Agora a comunidade está esperando por um reconhecimento, uma valorização do que ela já fez até hoje. Existe também a idéia de melhorar, tanto culturalmente quanto ambientalmente. A comunidade espera que haja benefícios tanto para a comunidade quanto para o meio ambiente. Tudo o que existe lá, preservado, foi a comunidade que fez naturalmente, sem ninguém influenciar, obrigar, forçar a fazer. Ela mesma, por iniciativa própria, chegou, preservou e fez o que tinha que fazer.

Foto: Syã Fonseca
  
- A comunidade também sofreu com a postura de alguns ambientalistas...

- Sim. Muitos ambientalistas não tinham paciência para ouvir a comunidade. Eles não queriam nem saber que a comunidade existia lá. Praticamente, desprezaram a comunidade. Quando eu ia, representando a comunidade nas primeiras reuniões, estavam os grupos de ambientalistas que se posicionavam e falavam sobre o parque dos Pontões, 'que tudo tinha sido feito dentro da legislação'... Eu levantava e gritava: 'Peraí! Não é bem assim... Lá não houve nada disso. A comunidade só ficou sabendo depois. Vocês lutaram tanto pela legislação e vocês mesmos não seguem isso...' O processo foi equivocado. A gente preservava a mata e teve que passar por isso. Às vezes, chegavam pessoas lá para visitar o parque... Como assim?

- Mas vocês, atualmente, estão abertos à visitação, para as pessoas que queiram conhecer a cultura pomerana e as belezas do lugar?

- Olha... Sempre recebíamos as pessoas muito bem, mas, depois que aconteceu isso, ficamos com medo. Não sabemos, na verdade, quem está indo e o que vai fazer. Se o pessoal da comunidade visse alguém diferente no caminho, queria saber o que estava fazendo ali... É uma forma de se defender. Queriam criar um parque para preservar o meio ambiente. Hoje em dia, todos querem preservar. Ninguém é contra. Mas, na hora que a gente vê esse tipo de pressão... não sabe nem como reagir. Pouca gente sabe o que aconteceu, o que a comunidade sofreu e o que estava sendo articulado por trás dessa história do parque. Esperamos que, depois que for assinado o documento, que possa ser mantida uma boa relação da comunidade com quem for lá visitar. Durante todo esse processo, nem a comunidade se beneficiou nem o meio ambiente. Foi um período meio estagnado. As pessoas tinham medo de reformar a casa porque não sabiam se no ano seguinte iriam estar lá. A comunidade não produziu o suficiente. Muitos agricultores não conseguiram mais Pronaf nem outros programas de investimento.

- Valeu a pena tudo isso?

- Valeu. Quando você faz uma coisa em que acredita, sabendo de um retorno, sabendo que muitas pessoas vão se beneficiar com isso... Dá para deitar a cabeça no travesseiro tranqüila (risos). Fiz a minha parte. Independente do que eu passei, vale a pena sim. Isso não é para mim, mas para toda a comunidade e para todas as gerações. Não há nada que pague isso. Graças a Deus, pude fazer. Meu marido me ajudou muito, compreendeu a situação. Eu entrei em depressão nesse tempo todo. Até entrei no curso de Biologia, estou para concluir. Entrei para tentar entender, buscar entender como existe tamanha maldade e desvalorização, até preconceito tão grande com uma comunidade. Não consegui ainda entender isso. Imagine a cabeça de outras pessoas... Do meu pai, por exemplo. Até hoje, acho que ele está amargurado por causa disso. Não dava para eu ficar quieta, de braços cruzados, assistindo a tudo sem fazer nada, com pessoas que convivi desde criança, sem me posicionar. Alguém tinha que fazer alguma coisa, juntar todo mundo, tentar informação, se mobilizar. Foi uma luta muito grande, mas valeu.