Vitória (ES), edição de fim de semana
 
De Parque Nacional a Monumento
Natural: a luta vitoriosa de um povo

Agora já se respira liberdade nos Pontões




Cristina Moura




Foto: Apoena
  
Houve quem pensasse em suicídio. Também a idéia de destruir o local, com a ajuda de um trator. Houve quem entrasse em desespero, em depressão. Típico clima de revolta. A comunidade pomerana que envolve a região de Pontões, entre os municípios de Pancas e Águia Branca, viveu um roteiro que parecia cinematográfico.

Um belo dia, um estranho helicóptero sobrevoou o local. Voou tão próximo ao solo que muitos agricultores acreditavam que pousaria ali mesmo. Não era somente uma visita simples, de cunho turístico. O objetivo era fotografar a área, que seria transformada no Parque Nacional dos Pontões Capixabas.

Mas, como manter a comunidade satisfeita com essa idéia, se a mesma comunidade teria que deixar a propriedade? A área de 17.496 hectares, situada no noroeste do Estado, criada como Parque Nacional no final do governo Fernando Henrique Cardoso, era vista por ambientalistas como um oásis, que precisaria manter-se preservado. A comunidade, no entanto, não entendeu essa questão. Ora, por que sair, se era ela mesma quem mais lutava pela preservação, mesmo sem obrigatoriedade alguma?

A comunidade de Pontões, basicamente descendente da Pomerânia, chegou em 1922. Faz parte da terceira geração de pomeranos que chegaram ao Estado. Atualmente, somam-se mais de duas mil pessoas. A antiga Pomerânia era uma faixa de terras junto ao mar Báltico, onde atualmente está situada a fronteira entre Alemanha e Polônia.

Beleza singular

Com a possibilidade de viver num mundo novo, numa terra nova, no Brasil, mais especificamente no Espírito Santo, numa região montanhosa, a comunidade encontrou uma terra fértil, de baixa temperatura e de beleza admirável. O ambientalista, paisagista e pesquisador Burle Marx, que freqüentou o local nos anos 40 e 50, chegou a dizer que havia conhecido a região mais bela do planeta.

Depois de discussões, lutas, enganos e indefinições, a comunidade vive uma expectativa diferente, que poderá se definir na primeira semana do mês de junho. É que a idéia do Parque Nacional será modificada legalmente, com o aval federal, ou seja, o consentimento de vários órgãos, incluindo Ministério do Meio Ambiente e Ibama, para denominar-se Monumento Natural.

Foto: Apoena
  
Na entrevista deste final de semana, nossa personagem é Patrícia Sthur, nascida e criada nas terras que haviam sido ameaçadas de desligamento da comunidade. Foi ela quem resolveu se mexer e liderar o movimento, iniciado em 2003. No ano seguinte, usou o vestido preto no seu casamento com o dentista Geraldo Oliveira, que teve que usar do seu desprendimento para aceitar a mudança na vida da esposa, recém-casada.

Farmacêutica, Patrícia deixou a rotina em Vitória para praticamente se mudar para a zona rural. Em consonância com os seus princípios, a pomerana passou por momentos dramáticos, mas se transformou na maior liderança da região, tendo como bandeira a luta pela permanência da comunidade no local.

O vestido preto não simbolizava somente uma tradição cultural pomerana, relembrando a primeira noite com o senhor feudal, durante o domínio daquele povo ao Sacro Império Romano-germânico e incorporado ao Pommerhochtied, casamento à moda pomerana. A cor era também um protesto diante do desrespeito. A comunidade sequer foi consultada ou ao menos comunicada sobre a oficialização do parque, após a ida do misterioso helicóptero.

Associativismo e resistência

O processo de criação do Monumento Natural envolve a manutenção da comunidade, bem como a biodiversidade vegetal e animal da região. Outra proposta que está anexada é a criação de várias unidades de conservação em toda a região dos Pontões, que compreende 110 mil hectares distribuídos em oito municípios, de Pancas a Ecoporanga.

Ao longo desse processo, uma entidade precisaria ser criada, no sentido de oficializar também a participação dos moradores. Foi criada, então, a Associação dos Moradores e Amigos dos Proprietários dos Pontões de Pancas e Águia Branca (AMAPPPAB).

A associação ganhou força para buscar informações sobre a criação do parque até culminar no que está acontecendo atualmente, com a espera pela oficialização do lugar como Monumento. Aí, sim, será a redenção de uma luta de quase cinco anos, permeada por tantas lágrimas e sofrimento.

Como explicar a agricultores, que pouquíssimo entendiam a língua portuguesa, pois se comunicavam em pomerano, que eles e suas famílias teriam que abandonar suas terras, seus plantios, suas colheitas, suas perspectivas de investimento nas propriedades? Este foi um dos desafios da AMAPPPAB. E, principalmente, explicar que a comunidade poderia se mobilizar para provar que sua intenção era, justamente, a de preservar a natureza.

Foto: Apoena
  

A inconformidade dos pomeranos nascidos na região de Pontões era compreensível, mas não para todos os ambientalistas. Alguns queriam até lutar em sentido contrário: pela construção do parque e expulsão da comunidade.

Mas, para onde iriam pessoas habituadas com ar puro, preservação da biodiversidade, cenário exuberante? Ao pensarem na poluição da zona urbana, no desconforto de pequenos apartamentos e no caos da Segurança Pública, entraram em desespero. Para onde ir?

A associação exerceu um trabalho praticamente doutrinário com os seus filiados, verdadeiros zeladores de um habitat com nichos ainda selvagens. Os pomeranos herdaram dos seus antepassados não muito distantes a cultura da conservação, o cuidado com o meio ambiente e a preocupação em viver em sintonia com os seres que ali habitam.

Os agricultores, imaginando uma possível efetivação do parque, imaginavam também a desapropriação das suas terras nesse cenário, tido por eles como um paraíso. Eles mesmos praticaram o ambientalismo sem ter que sair do lugar, fazer propaganda. De forma didática, foram ensinando aos seus filhos que podem viver num ambiente saudável, desde que rigorosamente preservado.

Para os visitantes, como lembrou Patrícia Sthur, o tratamento já não é mais o mesmo. Depois do episódio parecido com invasão ou cerceamento, os moradores estão bem mais criteriosos. Querem saber se o visitante quer mesmo conhecer os costumes de um povo original, inclusive com hábitos diferenciados e dialeto próprio. Querem saber se podem contar sua história, de maneira despreocupada, apenas sob a vigilância dos inúmeros pássaros que habitam a região.


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