Vitória (ES), edição de 11 de março de 2008
 
Rede Alerta repudia expansão
de monoculturas no ES

Flávia Bernardes


Depois de se reunir por três dias com camponeses, indígenas, quilombolas e técnicos profissionais do Estado, da Bahia e do Rio de Janeiro, a Rede Alerta Contra o Deserto Verde declarou repúdio à expansão das monoculturas de eucalipto e cana de açúcar no Estado. Este modelo está se expandindo sobre a agricultura camponesa, ameaçando a produção de alimentos, como aponta.

“Depois de devastar os territórios indígenas Tupinikim e Guarani e quilombolas, o insustentável modelo agrícola e agrário busca se expandir sobre a agricultura camponesa, disputando as áreas que deveriam ser destinadas à reforma agrária, ameaçando a produção de alimentos, os recursos hídricos, na mata atlântica, cerrado, campos sulinos, caatinga e Amazônia”, diz o documento, intitulado a Carta de São Mateus, assinada pela Rede Alerta.

Além dos prejuízos às comunidades tradicionais, a carta ressalta que essa expansão envolve ainda a disputa de recursos públicos que deveriam ser destinados à reforma agrária e aos projetos de produção de alimento.

A intenção é alertar a sociedade para que enfrentem a expansão do que chamam de deserto verde, não só sobre os danos ambientais e sociais, mas também os prejuízos tecnológicos. Denunciam que esse setor vem se expandindo tecnologicamente – através de agrotóxicos de última geração, árvores geneticamente modificadas e mercado de carbono – e controlando os centros tecnológicos, disputando os recursos públicos de pesquisa e de universidades.

“Na contracultura do eucalipto, vamos somar forças na defesa da autonomia e segurança alimentar, da agroecologia e da sócio-biodiversidade democrática, como os valores e práticas de um outro mundo já em construção”, diz o manifesto.

No Estado, a Rede Alerta Contra o Deserto Verde luta contra a monocultura desde 1998, por uma reação à Assembléia Legislativa, que queria aprovar um projeto que permitiria a expansão do eucalipto sem nenhum controle. Na época, denunciaram que a Aracruz Celulose nunca pagou pela água que consumia em suas duas fábricas (consome o equivalente a uma cidade de dois milhões de habitantes).

Durante todos estes anos, ressaltaram ainda o prejuízo que esta atividade gerou nas comunidades indígenas, quilombolas e camponesas, como na comunidade de Vila do Riacho, que cercada pelo eucalipto, não tem mais carvão para cozinhar e nem água para sua sobrevivência.

Eles alertam, inclusive, para a importância de reconversão dos eucaliptos para a mata atlântica, para a produção de alimentos saudáveis e preservação da natureza.


   
Monocultura afeta comunidades tradicionais

Nas regiões mais atingidas pelo monocultivo, segundo os artigos publicados pela Rede Alerta, é crescente o número de casos de
alergias e doenças de pele, devido ao intenso uso de agrotóxico pelas empresas. Nestas localidades, há ainda o agravamento da pobreza e do desemprego, o crescimento da violência e do êxodo rural.

A expansão dos monocultivos de eucalipto e de cana gera destruição ambiental. O eucalipto, em especial, tem levado populações indígenas, quilombolas e camponesas a conviverem com mudanças drásticas no seu ambiente e a experimentarem perdas materiais e simbólicas das mais diversas.

Essa situação agrava-se ainda mais, quando populações locais dependem dos ecossistemas para a sua subsistência e têm que disputa-los com o agronegócio. Além de perder seus territórios, são obrigados a conviver com perdas culturais.

Hoje, o Espírito Santo tem cerca de 200 mil hectares de eucalipto. No Brasil, esse número sobe para 5,3 milhões de hectares de plantios homogêneos de árvores, 21,6 milhões de hectares de plantio de soja e 5,8 milhões de hectares de cana-de-açúcar.

Segundo a Rede Alerta, no caso dos plantios homogêneos, o governo brasileiro, buscando aumentar a exportação de celulose e madeira, projetou para o ano de 2010, a meta de mais 5 milhões de hectares. O Espírito Santo entrará com uma cota de 600 mil hectares.

   


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