(“A Homeopatia repousa unicamente sobre a experiência. Imitai-me, mas imitai-me bem e vereis a cada passo a confirmação de minha afirmativa”.
Samuel Hahnemann)
Na edição do fim de semana passado (8 e 9), Século Diário entrevistou o engenheiro agrônomo Pedro Faé, especializado no uso da homeopatia na agricultura. Faé revelou que existe muita pressão das grandes empresas de agrotóxicos que não querem que a homeopatia ganhe espaço. “Nós sabemos que essas empresas movimentam bilhões e bilhões com a venda de medicamentos para humanos e animais e, algumas delas, muitas vezes a mesma, com a comercialização de agrotóxicos”. O engenheiro falou também da grande concentração de veneno presente nas frutas, legumes e verduras, e dos riscos que o uso indiscriminado de agrotóxicos causam à saúde e ao meio ambiente.
Na entrevista desta edição, dando prosseguimento ao tema, Século Diário entrevistou o médico veterinário Fábio Bitti Loureiro, que há cerca de dez anos vem utilizando a homeopatia em animais. Fábio apontou os riscos do uso indiscriminado de antibióticos e outros produtos tóxicos nos animais, como os carrapaticidas, que podem causar sérios prejuízos à saúde humana.
Fábio Loureiro, que é de Aracruz, destaca também a preocupação da homeopatia veterinária em garantir um manejo cada vez mais humanizado nos rebanhos, com o objetivo de diminuir o nível de estresse dos animais. Loureiro explica que, quando se reduz o estresse, a saúde melhora, porque esse animal passa a ter uma conversão alimentar mais satisfatória. “Nós sabemos hoje que com uso da homeopatia o animal come menos quantidades e converte os nutrientes com mais eficiência. Tudo isso ocorre porque seu nível de estresse é menor”.
O veterinário lembrou ainda que a pressão exercida pelos grandes laboratórios veterinários para vender cada vez mais medicamentos aos empresários rurais é muito forte. Ele disse que verdadeiros exércitos de veterinários contratados pelos laboratórios assediam os criadores para que eles comprem seus produtos e ganhem uma espécie de consultoria, que na verdade funciona de maneira capenga. Fábio adverte, no entanto, que com esse esquema o empresário acaba não contratando profissionais para fazer um acompanhamento sistemático dos plantéis e se torna refém das empresas de medicamentos veterinários.
Século Diário: - Quando o senhor teve contato com a homeopatia?
Fábio Loureiro: - Em 1989, quando fazia o curso de graduação em Medicina Veterinária na Universidade Federal de Viçosa (MG), fiz amizade com um aluno que trabalhava em um restaurante natural chamado Alfa. Neste restaurante, eles só trabalhavam com orgânicos e aplicavam produtos homeopatas nas hortas e nos animais. Eu passei a comer lá com freqüência e realmente notei uma melhora no meu organismo. Achava tudo muito interessante, mas ainda não pensava em utilizar a homeopatia profissionalmente. Depois de formado, começaram a surgir oportunidades para trabalhar com produtos naturais. Em 1995, trabalhei em uma cooperativa em Mimoso do Sul com essa proposta e, cada vez mais, fui me interessando pelas técnicas alternativas. No ano seguinte, apareceu no mercado uma vacina cubana chamada Gavac – desenvolvida a partir do intestino do próprio carrapato. A partir daí, percebi que nem tudo precisava ser baseado nas terapias convencionais que fazem uso de antibióticos e venenos. O surgimento da Gavac ampliou minha visão. Percebi que era possível controlar os carrapatos nos rebanhos por outros meios. A família Dalla Bernardina, por exemplo, tinha um rebanho de gados holandeses em Colatina – muito suscetíveis a carrapatos – e, durante cinco anos, enquanto a vacina esteve disponível no mercado, conseguiu manter seus gados livres dos carrapatos sem usar veneno.
- Então, a partir daí, o senhor foi se interessando mais pelo tema e ampliando o uso de técnicas alternativas?
- Justamente. Logo depois, fiz uma especialização em homeopatia veterinária aqui em Vitória com mais onze colegas capixabas. Esse curso foi ministrado pelo Instituto Homeopático Jacqueline Peker, de Campinas (SP). Em 1994, fiz uma nova especialização em homeopatia, também em Vitória, com os professores do IBHE (Instituto Brasileiro de Homeopatia de São Paulo). Com o conhecimento desenvolvido nos cursos e com a experiência profissional acumulada, fui, cada vez mais, tendo certeza de que a homeopatia veterinária era uma alternativa eficiente e comercialmente viável, porque o custo do medicamento é baixo em relação aos alopatas. No início, mesmo não tendo uma visão homeopática integral, passei a experimentar a homeopatia em diversas situações práticas e constatei bons resultados. É preciso esclarecer que a transição da alopatia para homeopatia é um processo. Você, no começo, ainda pensa muito pela lógica da alopatia. Se o animal tem febre, você vai procurar um medicamento para controlar esta febre; se o animal tem uma infecção, você vai querer usar rapidamente um antibiótico para cessar esse processo infeccioso, e assim por diante. Então, como eu disse, são processos. Somente em 1997 – depois de adquirir mais conhecimento e experiência –, passei a usar, definitivamente, a homeopatia. Entretanto, não sou radical. Há momentos que é necessário recorrer a medicamentos da medicina alopata, e quando isso ocorre faço uso desses medicamentos sem nenhum problema.
- Quais são os princípios da homeopatia?
- É preciso entender que a homeopatia é baseada em quatro pilares. Primeiro temos a lei dos semelhantes, ou seja, o semelhante cura o semelhante. O mesmo princípio que causa a doença também combate. Por exemplo, os ingleses, quando foram para a Índia, tomavam água tônica o tempo todo porque sabiam que havia uma substância na bebida que é a quina ou quinina - por isso se chama água tônica de quinino (85mg/l de quinina) – que possui uma propriedade preventiva no combate à malária. Esse mesmo quinino, que causa sintomas da malária, em doses homeopáticas trata a malária. O segundo princípio é o uso do medicamento único. Samuel Hahnemann (médico alemão que criou a homeopatia - 1755-1843) usava um medicamento de cada vez para avaliar o resultado da terapia no paciente antes de adotar um outro. Como ele já trabalhava naquela concepção de médico de família, ele conhecia muito bem seus pacientes e conseguia acompanhar a evolução da doença praticamente diariamente. Então ele prescrevia um medicamento, voltava a observar o doente no dia seguinte. Se não houvesse melhora, daí sim ele alterava o medicamento. Se Hahnemann utilizasse, por exemplo, três medicamentos de uma só vez, não poderia saber qual deles estava tendo efeito benéfico sobre o paciente. O terceiro princípio da homeopatia é a patogenesia, que é o estabelecimento dos sintomas a partir da observação em um homem saudável. Em vez de se fazer testes com animais de laboratório, se utiliza uma pessoa saudável para administrar os medicamentos em doses homeopatizadas. Essa pessoa fica encarregada de fazer um registro diário de todos os sintomas que ele sente enquanto está sob o efeito dos medicamentos. Quando você faz isso com um grupo de cem pessoas, vai perceber que vários sintomas começam a se repetir. A partir desse dado, você estabelece a patogenesia. Essa matéria médica gerada vai indicar o sintoma correspondente que você tem para cada um dos medicamentos utilizados. Então, por exemplo, cloro, quinina, arsênico, beladona, mercúrio, ópio, diluídos e dinamizados passam a agir como medicamentos eficientes para curar inúmeras doenças. Inclusive, a diluição e dinamização é exatamente o quarto princípio da homeopatia. Todos os medicamentos têm de passar por esse processo.
- No início, como era a recepção do pecuarista ou granjeiro à homeopatia? Havia muita resistência?
- Na década de 90, a homeopatia era vista pelos criadores, pelo menos os do Espírito Santo, como bruxaria. Havia muita resistência. Com o passar do tempo foram aparecendo medicamentos produzidos por laboratórios homeopatas especializados em veterinária e isso contribuiu bastante para ir quebrando essa rejeição por parte dos criadores. Por outro lado, com os criadores, que mesmo de forma rudimentar já faziam uso de princípios naturais para controle de doenças, o processo foi bem mais tranqüilo. Eles já tinham a experiência prática de que o uso de técnicas alternativas era viável.
- Hoje, o empresário que deseja passar a usar a homeopatia tem acesso facilitado a esses medicamentos?
- Existem duas situações. Quando você vai tratar um animal individualmente, por exemplo, um cavalo, um cachorro ou um peixe de aquário, basta prescrever a receita e mandar o dono do animal manipular o medicamento na mesma farmácia homeopata que produz remédios à medicina humana, porque a quantidade é pequena. Agora, se você vai usar a homeopatia para controlar uma doença em um rebanho, por exemplo, as quantidades são bem diferentes. Nesse caso, é preciso recorrer a um laboratório especializado. Não dá para você mandar manipular 300 litros de um determinado medicamento em uma farmácia.
- E há laboratórios especializados em homeopatia veterinária aqui no Espírito Santo?
- Aqui no Espírito Santo, não. Hoje é preciso comprar os medicamentos de laboratórios de São Paulo (Fauna Flora Arenazes, Presidente Prudente) ou do Mato Grosso do Sul (Real H, Campo Grande). Existe um outro em Goiás, mas não posso dar referência porque não conheço o trabalho deles.
- Pela quantidade de laboratórios disponíveis, dá para deduzir que o uso da homeopatia na veterinária é ainda bastante recente?
- Não podemos dizer que seja recente, a homeopatia veterinária no Brasil, na verdade, ainda é pouco difundida. Para você ter uma idéia, no início da década de 20 o médico Nilo Cairo, que desenvolvia estudos sobre homeopatia humana, já havia escrito, nessa época, um livro sobre o uso da homeopatia na medicina veterinária. Ele era dono de uma propriedade rural e tratava seus animais com a homeopatia nos anos 20. Na década de 50, o médico veterinário Cláudio Martins Real, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, desenvolveu diversas pesquisas científicas sobre homeopatia veterinária. Ele é considerado, dentro da área da medicina veterinária, o pai da homeopatia no Brasil. Entretanto, há 212 anos o próprio Samuel Hahnemann já utilizava a homeopatia para tratar dos seus animais.