Nascido em Cachoeiro de Itapemirim, a 12 de janeiro de 1913, sendo um dos 13 filhos de Rachel Coelho e Francisco de Carvalho Braga — primeiro prefeito da cidade —, foi o maior cronista brasileiro. Desde cedo, demonstrava vocação para a arte de escrever, quando fundou, com o irmão Armando, o jornal “Correio do Sul”. Nele, publicou seus primeiros textos, antes de ir para o Rio de Janeiro fazer sucesso na imprensa local como repórter, redator, cronista e editorialista, até ser apelidado de “O sabiá da crônica”.
Trabalhou nos principais veículos de comunicação do País. Atuou como correspondente de guerra, publicou 26 livros e foi dono de editora. Casou-se com Zora Seljan — com quem teve o único filho, Roberto Braga — e posteriormente se desquitou. Foi militante político de esquerda, esteve preso algumas vezes, ajudou a muitos companheiros no embate contra o regime militar e, apesar de seu aspecto carrancudo, teve muitos amigos. Ao contrário de muitos nascidos no Espírito Santo, devotou ao seu Estado natal uma grande generosidade.
Todos nós, aprendizes de cronista, quando vamos iniciar um texto, deparamos com a imagem gigantesca de Rubem Braga, que nos salta à imaginação a dizer “Não se atreva!”. E como neste espaço escrevo sobre as gentes capixabas — sempre abordando inomináveis conflitos com o nosso Estado, na tentativa de contribuir para entendermos melhor a nós mesmos —, vou fugir à regra para contar algumas coisas que sei do mestre, em função de uma amizade devotada no longo dos anos. E farei isso usando a arte que ele nos ensinou: a crônica.
A bela e o sabiá
Esta história é absolutamente verdadeira, mas poderia ser contada como uma fábula. Primeiro, pela inverossimilhança que pode suscitar aos olhos do leitor. Ou pelo enternecedor sabiá em solfejos de ciúmes aos inimagináveis ouvidos. Ela pode também, ser entendida como uma louvação a duas pessoas que se amaram em segredo. E se entregaram em emoções e sentimentos que somente são percebidos quando a eternidade faz um deles beijar a sua face e o outro fica com um enorme sentimento de perda.
Depois de viver na cidade grande, sentei-me às barrancas do Cricaré, onde o Espírito Santo vira Bahia, a matutar o que fazer nesta província perdida no anonimato do País. Como num passe de mágica, veio-me a idéia de transformar um sobradão num teatro e dar-lhe o nome de Anchieta. Começava reverenciando a quem havia andado por essas bandas — afamado por virtudes peregrinas de santo. Inauguramos o teatro com Dina Sfat, em sua última apresentação nos palcos com a peça “Irresistível aventura”. Depois, por seu intermédio, vieram Tônia Carrero e Cecil Thiré, em “A divina Sarah”, também com grande sucesso.
Quando Rubem Braga soube, na TV Globo, no Rio de Janeiro, que Tônia viria a São Mateus, foi ao telefone para saber o que estava acontecendo. Tranqüilizei-o dizendo ser eu o responsável: “A Dina Sfat está fazendo propaganda e todo mundo quer ir aí”. Desde que Tônia Carrero colocou os pés na terra dos botocudo, até chegar sã e salva de volta à Cidade Maravilhosa, o introspectivo Rubem Braga me perturbou com incontáveis telefonemas, e não adiantava dizer que estava tudo ok!
— O que ela comeu? E o automóvel para levá-la a Conceição da Barra?
— Fique tranqüilo, dizia eu.
— Como? Com ela aí em São Mateus. São canibais!
— Mas, Rubem! Não tem mais índios por aqui, não se preocupe. Garanto que a sua bela não será “comida” — brincava.
Era em vão. Após a estréia:
— Como foi?
— Casa cheia. E ela recebeu um buquê oferecido pelo prefeito.
Nessa hora Rubem deu um rugido de urso velho:
— Rummmm...
— Que é isso Rubem? Foi no palco, diante de centenas de pessoas, entregue pela primeira dama. Foi uma noite memorável.
Mas Rubem continuava rugindo de ciúmes. E Tônia nem sabia que o camarim estava repleto de flores. Ordem expressa do “Sabiá da crônica” que, da “fazenda” na cobertura da Rua Barão da Torre, em Ipanema, cantava apaixonado e zeloso. Depois de inúmeras perguntas, entremeadas de inquietações e arroubos, me fez uma ameaça direta, franca e objetiva. Se não o conhecesse há muito, ia mesmo acreditar que estava falando a verdade. Então, fingi que não vivíamos uma fraterna e recíproca consideração.
— Só tem uma condição para manter a nossa amizade.
— Qual é a condição, Rubem?
— Que ela não fique sabendo de nada.
— Como assim?
— Não quero que saiba que mandei encher o camarim de flores.
— São flores vermelhas, Rubem!
— Sei disso...
— É coisa de gente apaixonada.
— Não quero saber.
— E se ela perguntar por você?
— Diga que nem sabe se sou capixaba.
— Está bem, Rubem...
— E se você não cumprir, sou capaz de ir a São Mateus.
Tudo foi feito com o rigor determinado pelo mestre. Tônia, ao chegar no camarim, foi logo falando: — Ah, que lindo! Diga a ele que fiquei muito feliz! Depois, me olhou com aqueles encantadores olhos de jade. Nunca dei o seu recado. Passaram-se alguns anos até que, em 17 de setembro de 1990 soube, pela TV, que ele havia beijado a face da eternidade. Nosso compromisso acabou. Hoje, posso escrever que um dia guardei o segredo de zelar da bela e ouvir o mavioso sabiá.
(continua na próxima crônica)
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