Vida de Imigrante - Iguais, mas nem tanto




Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA




Depois de muita humilhação e sofrimento, as leis racistas americanas começaram a mudar. Levou anos para chegarem no “separados mas iguais”, com escolas separadas de brancos e negros, supostamente com o mesmo nível de ensino. Até que Oliver Brown entrou na justiça, exigindo o direito de sua filha se matricular numa escola de brancos.

Um dos motivos alegados era que a escola dos brancos era perto de sua casa, a dos negros era muito longe. Brown não trabalhou sozinho. O apelo na verdade englobou vários outros casos, e ele levou a fama. O caso rolou na justiça até chegar na Suprema Corte. Ali ganhou por unanimidade, causou uma revolução social e entrou para a história. As escolas separadas passaram a ser ilegais. Iguais e juntos.

Pelo menos no papel, acabou a discriminação. Os brancos não a aceitaram facilmente e houve inúmeros conflitos. Em muitos lugares as escolas ficaram fechadas durante quatro anos. Quem tinha condições (leia-se brancos) mandava os filhos para as escolas particulares; quem não tinha (leia-se pretos), azar o deles.

Como está a igualdade hoje? Na escola primária, crianças de todas as raças e credos vivem em harmonia. Iguais e unidos. Brincam e estudam juntas, fazem amizades, até frequentam as casas umas das outras. Quando chegam ao segundo grau esses mesmos estudantes se dividem em três grupos distintos – pretos, brancos, latinos. Ah, os adolescentes! Iguais mas distantes.

Quando chegam na faculdade, tudo muda outra vez. Não existe formação de grupos étnicos, todos se entendem. Há amizade, camaradagem, e às vezes até romance entre brancos e pretos, embora não sejam comuns. Iguais, mas os brancos são brancos, os outros são afro-americanos e hispanos.

Quando adentram o mercado de trabalho a situação está estável, todos se dão bem. Iguais, mas tem uns mais iguais que os outros. Como disse Gilberto Gil, onde preto não entra, branco pobre também não. Quer dizer, o divisor de águas é mais econômico que racial. Lá como cá, se o preto é Gilberto Gil, entra em qualquer lugar.

Os tempos são diferentes, mas os homens continuam iguais. Ainda existe muito racismo, dizem até que ainda existe a Klu-Klux-Kredo! Mas a maioria dos negros tem uma boa situação econômica; muitos são ricos, muitos ocupam posições importantes. Talvez um negro venha a ser o próximo presidente da República, outro marco nessa história desigual. E nós, que somos tão iguais, quando teremos um negro na presidência?