(“A única e elevada missão do médico é a de restabelecer a saúde do enfermo, que é o que se chama curar”. Samuel Hahnemann)
Século Diário abriu um ciclo de entrevistas sobre os diversos usos da homeopatia com a intenção de levar ao leitor mais informação e conhecimento sobre um tema que desperta muita curiosidade na sociedade, mas que ainda está encoberto por muitos mitos e tabus. O jornal iniciou a série com o engenheiro agrônomo Pedro Faé, que falou sobre as vantagens da homeopatia na agricultura e evidenciou os males causados pelo uso indiscriminado de agrotóxicos e fertilizantes químicos que contaminam os alimentos que consumimos.
O segundo entrevistado foi o médico veterinário Fábio Bitti Loureiro, que apontou os diversos usos da homeopatia na veterinária, que vem obtendo bons resultados com a diminuição do estresse dos animais e se confirmando como uma excelente alternativa aos antibióticos e hormônios, que também ameaçam à saúde humana causando diversas doenças ao homem.
Finalmente, nesta edição, fechamos o ciclo de entrevistas com a médica Ana Rita Vieira Novaes, uma das maiores especialistas em homeopatia do Estado e a primeira profissional da área médica do Espírito Santo a fazer uma tese de mestrado sobre o tema.
Ana Rita concluiu o mestrado (‘A medicina homeopata: avaliação de serviços’) inédito na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) no ano passado. Por esse dado é possível perceber que a produção científica em homeopatia no Estado e também no Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer. Na opinião da médica, há um avanço considerável na área de pesquisas homeopatas nos últimos anos. Ela aponta que há grupos isolados desenvolvendo estudos importantes principalmente no eixo Rio-São Paulo, mas que o volume de produção ainda é bastante modesto.
Para quem tem mania de utilizar o termo homeopatia para fazer analogia com tudo aquilo que acontece de maneira extremamente lenta, como se costuma dizer no jargão popular “em doses homeopáticas”, a médica faz questão de quebrar um primeiro mito: “A homeopatia não é um tratamento lento, ao contrário, muitas vezes a homeopatia obtém resultados mais imediatos que as terapias convencionais”.
Nesta entrevista a médica, que é também coordenadora do Centro de Referência em Homeopatia e Acupuntura (CRHA) da Secretaria de Estado da Saúde, explica como as chamadas práticas integrativas têm evoluído no Brasil e no mundo. Ela afirma que em alguns países os investimentos na área já são bastante representativos e começa a incomodar a indústria farmacêutica que, obviamente, não tem nenhum interesse que a homeopatia, ao lado de outras práticas integrativas, ganhe espaço, uma vez que ele é muito mais barata e eficaz. “Se apresentarmos uma proposta de solução para amenizar 80% das doenças usando uma medicina barata e eficaz, isso pode se tornar uma ameaça para os grandes laboratórios farmacêuticos”.
Século Diário: - Quando a senhora iniciou o curso de medicina já tinha a intenção de se enveredar pelo caminho da homeopatia ou essa decisão foi surgindo aos poucos na sua vida?
Foto: Ricardo Medeiros
|
|
|
|
Ana Rita Vieira de Novaes: - Foi um processo, as coisas foram acontecendo aos poucos. Primeiro porque não há nenhuma disciplina que aborde a homeopatia na universidade, então você simplesmente não ouve ninguém falar nada sobre o assunto durante o curso. Entretanto, em 1980, quando iniciei a faculdade, tive a sorte de fazer parte de um grupo de alunos que vinha embalado na efervescência do movimento estudantil, que era bastante participativo e questionador. Discutíamos, por exemplo, a situação da saúde e estávamos sempre atrás de soluções e alternativas que pudessem melhorar a pratica na medicina. Foi quando conheci, num primeiro momento, a fitoterapia. Eu queria conhecer outros recursos alternativos à medicina tradicional. Nessas incursões em busca de outros conhecimentos, fui a um congresso sobre homeopatia em Minas Gerais e conheci outros estudantes e professores que se dedicavam ao tema. Motivados a buscar mais conhecimento, criamos, aqui na Ufes, um grupo independente que passou a estudar o assunto. Dois professores homeopatas, percebendo nosso interesse, passaram a nos dar, gratuitamente, aulas na Emescam semanalmente. Esse grupo, ao longo da faculdade, foi fazendo um estudo paralelo. Só que, como você sabe, os paradigmas da medicina homeopata são bem diferentes dos princípios defendidos pela medicina tradicional. Isso nos deixava bastante confusos. Chegava a ser pirante para nós estudantes.
- A senhora diz que era pirante porque as contradições eram muito acentuadas?
- Enquanto na medicina homeopata você aprende a ter uma visão de totalidade do ser humano, na medicina hegemônica a visão é compartimentada em órgãos, em estruturas. O foco da medicina hegemônica é a especialidade. Por exemplo, hoje em dia você tem um especialista para glaucoma, outro para catarata, outro só para a retina, ou seja, até o olho está dividido em diversas partes. Eu não quero dizer que isso seja negativo, os avanços tecnológicos permitiram que inclusive várias doenças fossem curadas a partir desses estudos detalhados. Entretanto, a medicina homeopata vai na contramão desse princípio, porque ela integra o homem com o meio ambiente, com sua vida afetiva etc. Nós entendemos que não é possível estabelecer uma visão desarticulada do homem, sem levar em conta o seu ritmo de vida, alimentação, lazer, o emocional. Nesse aspecto fica complicado para você pensar em medicina dentro de um modelo biomédico que compartimenta, que separa, que intervém em mão única. Outro ponto que me chama bastante atenção medicina hegemônica é na relação com o paciente. A medicina hegemônica não se preocupa com o bem-estar da pessoa, ela está mais focada na comodidade. Na medicina homeopata isso ocorre de maneira inversa, existe um cuidado muito grande em entender o que se passa com o paciente, se estabelece uma relação com o paciente, um compromisso.
- Algumas décadas atrás, o médico exercia a medicina a partir dessa visão mais integral do paciente, tanto é que, o mesmo médico, muitas vezes, era cardiologista, ginecologista e pediatra, por exemplo. Essa mudança tem a ver com o avanço da medicina que passou a defender essa necessidade de segmentação como um imperativo dessa evolução e também com a realidade do serviço público de saúde que, frente a esse colapso geral, atende um paciente a cada quinze minutos para dar conta da demanda ou existem médicos e médicos, independentemente de serem homeopatas ou não?
- Acho que realmente há médicos e médicos. Isso depende muito do sentido que se dá ao que se faz. Por exemplo, há vários ginecologistas que fazem uma abordagem integral. Agora essa massificação do atendimento, essa relação que se estabeleceu com esse modelo capitalista, com o tempo, com essa aceleração que nos consome na vida cotidiana - e os profissionais de saúde também fazem parte desse processo -, vêm degringolando as relações humanas. E isso na medicina não poderia ser diferente. Entretanto, os homeopatas, por terem sua visão de saúde mais abrangente, tratam essas questões de uma forma diferente. Embora existam homeopatas que também têm uma visão reducionista, mas isso é uma exceção.
- Depois de vinte anos de experiência nesta área, qual a sua avaliação sobre a homeopatia?
- Acho que nesses quase vinte anos de experiência, entrou muito a minha visão de mundo nessa minha história com a homeopatia. Durante o meu mestrado (‘A medicina homeopata: avaliação de serviços’) na Ufes, entrevistei muitos profissionais, gestores e usuários da homeopatia e uma das coisas que me chamou muita atenção é que a homeopatia é para mim e para essas pessoas como um verdadeiro tesouro. Ela é muito rica, muito valiosa, por isso você se sente na obrigação de não deixá-la morrer. Embora ela seja ainda pouco difundida e utilizada; os médicos que se formam têm resistência em escolher a homeopatia porque ela é trabalhosa, exige muita dedicação. Eu diria que a homeopatia é praticamente uma forma artesanal de se fazer medicina. Quando escolhi a homeopatia segui muito meu instinto, meu desejo. Com certeza, poderia ter escolhido uma outra especialidade que me desse mais dinheiro, mas eu nunca fui tão racional a esse ponto. Eu acredito que as pessoas que escolhem a homeopatia se apaixonam pela abordagem, pelos resultados, pelos desafios que se têm pela frente. Quem entra na homeopatia tem que ter essa afinidade muito forte com esses princípios, porque é uma área muito árdua, muito difícil.
- Geralmente o paciente não procura a medicina homeopata como primeira alternativa de tratamento. Após sofrer desilusões seguidas na medicina tradicional, desesperado, ele passa a recorrer a outras práticas da medicina integrativa, como a homeopatia ou a acupuntura, por exemplo. Ao mesmo tempo, há aqueles que já estão em um processo de reflexão mais profundo do mundo e buscam a medicina integrativa como mais um elemento desse novo modo de vida mais qualitativo. São esses os dois perfis de pacientes que procuram a homeopatia?
Foto: Ricardo Medeiros
|
|
|
|
- São as duas coisas. Cerca de 20% da demanda vêm encaminhadas por outros profissionais. Por que os pacientes nos procuram? Porque estão cansados de tomar medicamentos por longos períodos sem resultado, estão esgotados de se submeterem a diagnósticos seguidos que redundam em terapias paliativas. As pessoas buscam na homeopatia algo mais suave, que agrida menos seu organismo. Outras pessoas, que muitas vezes apresentam quadros bastante subjetivos, buscam a homeopatia na esperança de encontrar uma solução para o seu problema que não foi identificado pela medicina hegemônica. Por exemplo, eu tive uma paciente que se queixava de um aperto no peito, uma espécie de angústia. Ela já havia recorrido à medicina tradicional, feito uma série de exames e o médico lhe disse que não havia nada físico. Um caso como esse, para a homeopatia, é interpretado de uma outra forma e nós conseguimos buscar um recurso medicamentoso para essa situação. Entretanto, para prescrevermos esse medicamento é necessário ter um substrato material, um diagnóstico. E, para chegarmos a essa conclusão, fazemos uma investigação bastante profunda e criteriosa na vida dessa pessoa. Já na medicina hegemônica, a solução seria receitar um ansiolítico ou antidepressivo. Esse modelo acaba medicalizando todo mundo que não está bem, por algum motivo, de uma maneira padronizada. Agora, essa pessoa que está nesse processo de reflexão, em busca de mais qualidade de vida - que ainda representa uma parcela bastante restrita da população - é que vai se identificar mais facilmente com a homeopatia. Acho que a grande contribuição que a homeopatia, ou a medicina integrativa de maneira geral, pode dar à população é de assumir esse papel para esclarecer que saúde não se faz só com medicamentos, é uma coisa muito mais ampla que extrapola isso tudo. Saúde é você ter um modo de vida mais saudável, que depende muito das suas escolhas e não só do médico que vai te atender ou dos medicamentos que você vai tomar.
- E como os profissionais de medicina tradicional se posicionam frente a esses valores da homeopatia?
- Acho que cada vez mais os preconceitos com relação às práticas integrativas estão sendo quebrados. Para você ter uma idéia como as coisas estão mudando, quase todos os dias eu atendo no meu consultório um médico ou filho de médico. Hoje eu falo dentro da sala de aula (Emescam) de práticas integrativas, trago meus alunos para conhecer o trabalho que desenvolvemos aqui no Centro de Referência em Homeopatia e Acupuntura (CRHA). Acho que as coisas estão avançando.