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Foto: Divulgação
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E se um dia me perguntarem o que significa “flâneur”, a resposta será rápida: aquele que não perde tempo parado numa fila de banco. Sabemos que não vivemos numa Paris benjaminiana ou qualquer coisa parecida, mas em certos dias ensolarados e com agenda livre é interessante perambular pelas ruas da cidade. Devagar, mas não lento. Atento a tudo, mas relaxado. Sentindo o sol, mas sem suor. Ok, chega de idealizações do cotidiano! Se em seu itinerário incluir um banco como destino, saiba que tudo que vem depois pode não vir.
Sempre tentei ao máximo obter o título de andarilho hype, mas volta e meia me vejo obrigado a passar horas e mais horas esperando um atendimento de menos de dez minutos. Os demais mortais - como eu - até conseguem evitar por um tempo - internet e caixas eletrônicos ajudam - mas, faltamente terão que se plantar em pé em alguma agência bancária da vida. Tenho ciência que cada uma das minhas palavras não representa nenhuma novidade a ninguém, é assim mesmo, a gente acha tudo “déja vu antes mesmo de ver”. Assim, quando precisei ir ao banco numa segunda-feira à tarde, já tinha noção do que me aguardava.
Quando a gente precisa dos bancos, temos que ter sempre na mente que eles vivem em um tempo diferente do nosso. E não tem ruptura ou uma brecha. Ou a gente se adapta, ou pagamos juros e mora. Nessa lógica, nada de conversinhas de rua ou confraternizações, sem me desligar do relógio, saí a passos larguíssimos. Paisagem bonitinha, pracinha bem arrumada, pessoas na rua e não tenho nada com isso. Semáforos verdes, para mim, vermelhos. Inverte. Quebra de protocolo e pedido de informação numa banca. “Você tem a edição nacional de fevereiro daquela revista americana com nome de banda inglesa?”. Negativo. Keep walking!
Se vamos a um banco jamais podemos esquecer que nem sempre entrar é fácil. Com mochila então. Cheio de coisinhas que possam apitar, então. Agenda apita? Mas, está em branco. Na dúvida, a gente enche a caixinha. “Por que trouxe esse guarda-chuva se nem nuvem no céu há?”. Travou. Cara de não-tenho-mais-nada-para-tirar! O recarregador do celular! Como fui esquecer. Travou, de novo. Cara de definitivamente-não-tenho-mais-nada-para-tirar-que-tal-ficar-com-a-mochila-toda? “E você ai atrás não fiquem me olhando com seu tivesse culpa!”. Finalmente, podemos entrar.
Tantos caixas (máquina) com telas piscando. Lindas mesas com rapazes bem apessoados com um sorriso falso no rosto para te atender. Cadeiras estofadas e ar condicionando no ponto. Mas, a masmorra te esperar. Poucas caixas (funcionário) de olhos bem abertos. Balcões sem vida e pessoas feinhas sem um sorriso no rosto para te atender. E mesmo assim, você terá que esperar cada uma das 60 pessoas a sua frente saírem uma a uma para você ficar mais perto dessa visão. Ah, sim. Tem que esperar em pé!
Durante os próximos 80 minutos você terá que conviver com gente de todo tipo. Seria a fila de banco um bom lugar para arranjar o amor da sua vida? Levando em conta que a maioria está ali para pagar contas e contas, a riqueza deve ser um item riscado da sua lista de essencial - e sem essa de que quem paga é porque antes comprou e quem comprar é porque tem dinheiro para pagar. Puro joguinho de palavras que no máximo vai ter graça quando você tiver 65 anos ou uma criança de colo sugando seu peito. “Quem é o último?”
Levar uma mochila para um banco tem suas vantagens, dá para colocar coisas interessantes dentro e que serviram para ajudar o tempo passar. Na minha próxima ida vou levar uma bolsa de palha com lanches. Vamos tentar uma musiqueta. Muita gente já faz isso e hoje as filas se tornam cada vez mais silenciosas. Cadê a interação, as fofocas do fim de semana ou comentários do Flamengo versus Botafogo? Ler um livro? Nunca consegui avançar muitos capítulos nessa situação. Não é por menos que quase ninguém opta por essa distração. “Nessas horas sinto falta daquela revista com nome de estado nordestino e que lembra onomatopéia parcial do barulho do trem. Por que fui cancelar minha assinatura?”. O jeito é contar quantas pessoas você pegaria nessa fila. Quatro!
Olha, nem vou perder meu tempo descrevendo os tipos que a gente sempre encontra no banco. Vovós simpáticas? Ok! Office boys? Muitos. Senhor com sessenta cheques e contas para pagar e monopolizar um caixa? Ok, uó! Mulher que entrou na fila errada e só descobriu horas depois? Já foi. Homem/mulher fingindo que o filho de 4 anos é de colo para ir no caixa preferencial? Foi na agência vizinha. Idiota que faz isso uma vez por mês? Moi-même! Nada de socialização entre essas pessoas, afinal amizade de banco não dura além das 16 horas. “O sistema de senhas e cadeiras? Cadê???”.
Voltas e muito tempo depois, faltam apenas cinco pessoas. Não é para desanimar, mas aí a gente se toca que é a última pessoa da fila. Cinco. Deixe-me lembrar se trouxe tudo que preciso. Quatro. Identidade está aqui e tudo corretamente preenchido. Três. Vou aproveitar e fazer um depósito logo. Du... Chega uma senhora com mais de 65 anos. Vou para casa ou vou pagar mais contas? Duas. Melhor engatar e partir para a próxima... fila. Uma. Será que vou para o caixa 6 ou para o caixa 1? Próximo...
Desculpe, o sistema saiu do ar. Pode aguardar um pouco?
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