Um relatório publicado pela entidade Bank Track, entidade internacional organizada por ambientalistas, reforça as ações contra os empréstimos feitos por bancos públicos às multinacionais que degradam o meio ambiente e provocam o êxodo rural. A entidade aponta que a Aracruz Celulose ignora a pressão política pela reforma agrária e a produção de alimentos, além de ser responsável por destruir a mata atlântica, inclusive em área de preservação.
"Os bancos internacionais deveriam evitar empréstimos para a construção de outra grande usina de processamento de polpa ou de novas plantações da Aracruz, seja na expansão da companhia no Rio Grande do Sul, seja na joint venture Veracel, da Bahia", diz o documento.
Segundo a Bank Track, a Aracruz é a maior produtora mundial de polpa de eucalipto, possui três fábricas, e produz 3 milhões de toneladas de polpa por ano. No total, a transnacional detém uma área de 280 mil hectares de plantações industriais e mais cerca de 90 mil hectares através do fomento florestal.
A empresa é criticada pela forma como utiliza ou conquista as terras onde estão suas extensas plantações de eucalipto, e especialmente pelas relações ruins com os povos indígenas, comunidades rurais e quilombolas. O documento aponta que a Aracruz tem uma história controversa devido aos conflitos por terra com as comunidades impactadas e se envolveu em ataques violentos, sendo responsável por uma campanha agressiva contra povos indígenas.
Apesar disso, lembra a entidade, em agosto de 2007, depois de 30 anos, os Tupinikim e Guarani ganharam sua disputa de terra com a transnacional, quando o ministro da Justiça, Tarso Genro, assinou dois decretos considerando 18.070 hectares de terra no Espírito Santo como pertencentes aos povos indígenas. Mas os outros conflitos de terra permanecem sem solução.
O relatório da Bank Trank afirma ainda que há anos a Aracruz expandiu as suas operações além do Espírito Santo. "Em 2000 a Aracruz entrou numa joint venture com a Stora Enso para fazer plantio de eucaliptos e construir uma fábrica na Bahia. A fábrica de Veracel, a maior do mundo, com produção de 900 mil toneladas por ano, começou a funcionar em junho de 2005. A Veracel derrubou florestas e mais de 800 pessoas tiveram que deixar suas casas. Muitos outros deixaram a área por falta de empregos no plantio ou na fábrica".
Também ressalta que os eucaliptos de rápido crescimento (experiências genéticas) da empresa já causaram sério impacto ambiental na água, no solo e na biodiversidade. A água foi poluída, córregos e solo secaram como resultado das plantações em larga escala. Através do uso de enormes quantidades de fertilizantes químicos, de pesticidas e de agrotóxicos no eucalipto, uma planta não nativa, a Aracruz é responsável pela poluição do solo e da água e por afetar a saúde de comunidades locais que dependem de fontes d'água para consumo.
"A companhia construiu diques e desviou água do Rio Doce para suas usinas, causando impacto nos rios da região. A pesca desapareceu. A água permanece poluída por herbicidas e pesticidas usados nas plantações", afirmam os ambientalistas da entidade.
Para eles, ao concederem os financiamentos, os bancos passam a contribuir com as ações impactantes da empresa. São citados os bancos Itaú, Safra, Votorantim, Citigroup, JPMorgan Chase, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Banco Europeu de Investimento, International Finance Corporation (IFC) e Banco Nórdico de Investimento.
A Bank Track lembra que em 1999 a Aracruz pediu o certificado do Forest Stewardship Council (FSC), que poderia ser o primeiro indício de que os plantios da empresa eram "bem gerenciados." Mas o certificado nunca foi concedido, um claro indício de que o gerenciamento da Aracruz não garante plantio socialmente e ambientalmente responsável. "Em 2003 a Aracruz comprou as operações da Klabin no Rio Grande do Sul, que incluíam 40 mil hectares de florestas com certificação FSC. Três anos depois a Aracruz decidiu voluntariamente desistir do certificado, aumentando a controvérsia que cerca os conflitos de terra em que a companhia está envolvida".
No documento é informado que até final de 2007 a Aracruz tinha expandido suas operações em 1,3 milhão de toneladas desde 2000 e tem novos planos de expansão. A companhia recentemente submeteu um plano de impacto ambiental às autoridades do Rio Grande do Sul para produzir mais 1,3 milhão de toneladas de polpa em Guaíba. A Veracel, joint venture da Aracruz-Stora Enso, também planeja dobrar a capacidade de sua fábrica de polpa que produz 900 mil toneladas por ano na Bahia. Isso vai exigir uma nova área para plantio de eucaliptos.
As novas usinas aumentariam os problemas ambientais e sociais existentes, e o direito de uso da terra serão exacerbados em um momento em que as disputas com comunidades quilombola do Espírito Santo e da Bahia ainda não estão resolvidos. A Aracruz não dá sinais de que está preparada para reconhecer esses direitos, como destaca o documento.
Mesmo diante de todo o passivo ambiental da empresa, o BNDES possui 12,5% das ações da transnacional e o grupo Safra 28%. Também são acionistas o grupo norueguês Lorentzen e o grupo brasileiro Votarantim.
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(reportagem publicada em 27/03/2008)
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