Renata Oliveira, nossa mascote, é uma doce criatura: fala baixo, pausadamente, é atenciosa e carinhosa com seus colegas, disciplinada e assídua em seu trabalho. E muito, muito respeitosa com suas fontes. Decidida e corajosa, não se deixa desanimar quando alguém lhe nega informações. Insiste, argumenta, pondera - e acaba conseguindo fechar sua pauta.
No início da semana o Rogério lhe passou a incumbência de acompanhar a polêmica criada com o anúncio do governo de que iria encampar a Rodosol. Nada mais lhe disse além do elementar "cuida aí desse caso, Renatinha!"
"Deixa comigo, chefe!" - falou ela naquele tom de voz pouco audível para cidadãos com idade acima dos 70. Quando passou a pauta, Rogério já estava de saída e não ouviu a resposta dela. Nem precisava. Com a Renata é assim: você fala do assunto que pretende abordar e ela cuida do resto. Só volta a falar da pauta, antes de redigir a matéria, se lhe surgir alguma dúvida em termos de abordagem. Uma profissional perfeita e acabada.
Foi assim quando ela resolveu produzir a primeira matéria da série sobre a Rodosol, aquela mostrando, de maneira irrefutável, que o governo não iria encampar coisa nenhuma do jeito que o auditor-geral do Estado havia vendido para "A Gazeta" e que rendeu manchete de capa.
"Cebê, você quer apostar comigo como essa notícia da encampação não passa de balela?" - provocou-me. "É mesmo, Renatinha? Sei não. Mas, embora não tenha elementos para julgar, jamais apostaria um tostão nessa manchete. Sinto cheiro de armação nisso tudo."
"E é mesmo uma armação, Cebê. Vou entrar fundo nesse caso". Como era hora de almoço, desejei-lhe boa sorte, parti para o Pelourinho, aqui perto do jornal, e encarei uma rabada com agrião no Recanto da Enseada. Na volta, vi Renatinha de olho vidrado na tela do seu computador e o celular da Redação colado ao ouvido. Ela falava ao telefone, teclava, ouvia e fazia anotações no bloquinho ao lado de sua máquina. O peso da rabada e toda aquela movimentação da repórter me derrubaram e eu desabei no sofá da sala do Rogério para o cochilo do início da tarde.
Fui despertado uma hora depois pela própria Renata: "Acorda, Cebê! Acho que tenho a manchete do dia. Não vai ter porra de encampação nenhuma.
Falei com um monte de gente e descobri detalhes do contrato do governo com a Rodosol que inviabilizam a encampação".
Dei um longo bocejo, sorri pra ela, coloquei pasta na minha escova de dentes e, antes de me dirigir ao banheiro, desafiei-a: "Pago pra ver, Renatinha. Se seu texto for mesmo nessa linha, amanhã eu te pago o almoço. Esses caras do governo estão me tirando do sério com essa história. E essa manchete da Gazeta tá me parecendo coisa de foca."
"Espera e verás" - ela vaticinou. O que me fez repetir-lhe os dizeres da bandeira capixaba para despachá-la de volta ao trabalho: "Trabalha e confia, garota!"
A manchete dela foi simplesmente arrasadora. Foi nessa matéria que pela primeira vez falou-se na imprensa da tal Taxa de Retorno Interno (TRI), que fora reduzida pelo aditivo contratual do governo em cerca de 3 por cento. Fazendo uma prosaica conta de multiplicar, Renata concluiu que a concessionária perdera, nos quatro anos de vigência desse aditivo, de 12 a 13 por cento de seus lucros com o pedágio. Lembrou também que faltavam 15 anos para o vencimento do contrato.
Ou seja, se o governo partisse para o tudo ou nada, encampando a Rodosol, teria de enfrentar uma dura batalha judicial. Só pelos 15 anos de contrato ainda a cumprir iria desembolsar algo em torno de R$ 250 milhões. "Se tentar o calote, Cebê, o governo vai se fuder na Justiça" - ela previu.
Como ver esse governo se fuder virou meu maior sonho de consumo, instiguei-a: "Bate nessa tecla, Renatinha. Porque já antevejo o verbo se concretizando, com o Max filho aplicando uma surra de votos nos candidatos do Hartung a prefeito de Vila Velha e, dois anos depois, o Ricardo Ferraço apanhando dele na eleição de governador".
"Vou bater, Cebê" - ela prometeu, não sem antes ponderar que aguardaria uma reação do governo às informações de sua matéria. No dia seguinte, silêncio no governo. E Rogério faz outra recomendação à repórter: "Eles fecharam o bico, Renatinha. Você fez PH decretar a lei do silêncio. Faz uma matéria reafirmando que toda essa história não passou de jogo de cena, ouve o Max Filho, consulta suas fontes novamente e vamos em frente".
Dito e feito. A matéria mexeu nos brios do governo e despertou o pessoal da "Gazeta" para uma realidade que o jornal insistia em ignorar, mas que teve de admitir, ao ecoar a segunda matéria da Renata, aquela do silêncio. Eles disseram praticamente a mesma coisa, foi plágio, mas tudo bem - todos aqui no jornal rimos muito disso.
Mas o melhor estava por vir. Na quarta passada (26), depois da publicação da nota da Rodosol redigida em cima de nossas matérias, o próprio Paulo Hartung se encheu de coragem e fez o que jamais fizera em seus cinco anos de poder: entrou na briga. Só que, por forçar uma atitude que não é de sua natureza, saiu-se muito mal. Tão mal quanto seus terceirizados, o vice-governador Ricardo Ferraço e o auditor-geral do Estado.
Ao mesmo tempo, víamos "A Gazeta" tentar se redimir do papelão que teve na história, abrindo espaço para as besteiras do pessoal do governo. A matéria que o jornal publicou na sexta-feira (28) já não tinha o ranço governista das anteriores. Parecia até um trabalho da nossa Renatinha.
À nossa mascote, então, só restou correr para o abraço de seus companheiros.
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