Admirável mundo novo

 

 

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Há muitos e muitos anos um jatinho caiu na Amazônia e os cinco ocupantes supostamente morreram. Supostamente indica que não houve total comprovação do fato,  pois apenas quatro corpos foram encontrados. Maria Eneida desapareceu sem deixar vestígios, e após longas buscas, a polícia decretou oficialmente sua morte. Piranhas e anacondas abundam na área, bem se sabe, e o pouco que sobra de seus banquetes somem no fundo dos muitos afluentes e confluentes do grande rio. Fora igapós e igarapés e tantos mais.

 

O tempo passou e um belo dia Maria Eneida aparece, vivinha e vendendo saúde. Foi salva da morte por uma tribo inculta e nao registrada nos arquivos oficias – os patatis, e com eles viveu por muitos anos. Foi muito bem tratada, aprendeu coisas do mundo primitivo e ensinou outras do mundo moderno, sem porém poder voltar ao convívio das pessoas civilizadas. Um dia a tribo foi descoberta, devidamente educada e catequizada nos princípios da modernidade,  e a antes jovem e agora senhoril pessoa volta para casa. Imaginemos  o choque, pois nosso rotundo globo mudou mais nesses últimos 50 anos que em toda sua trajetória anterior. Ou  melhor dizer, rotatória anterior.

 

A casa não tem telefone? Preciso voltar ao meu antigo emprego. Decepcionada, Maria Eneida descobre que ninguém mais trabalha como telefonista. Como assim? Quem faz as ligações? Ninguém usa telefone, mãe. Objeto obsoleto e fora de moda. Onde tem lenha pro fogão? Quem encera o piso de madeira? Não tem tanque pra lavar a roupa? Os três filhos que deixou ainda jovens, tão unidos, não se falam mais, e só se comunicam por pequenos aparelhos que carregam para toda parte, até  mesmo no banheiro. O que houve, por que brigaram? Ninguém brigou, mãe, é assim que as pessoas se comunicam hoje em dia. O marido, por quem morria de ciúme por causa das colegas do escritório, considerando-se viúvo casou de novo. Com um colega do escritório.

 

Nos tempos que viveu como imigrante ilegal em Miami, Maria Eneida acompanhou  na imprensa o caso de um milionário que a esposa pegou em flagrante delito de traição explícita com uma certa atrizinha chamada Marla não sei das quantas. As consequências foram drásticas – divórcio, escândalo, execração pública. A carreira do executivo acabou, faliu. Esse nunca mais se refaz. Qual não é o espanto quando Maria Eneida vê o sujeito cheio de pompa e circunstância, a mesma pose e o mesmo topete, aos berros na televisão. Quem? O novo presidente da república?

 

Maria Eneida descobre um novo mundo dominado pelas ondas virtuais, todo mundo antenado na tal nuvem que envolve o planeta. Isso é espionagem, não existe privacidade, todo mundo sabe da vida de todo mundo! Grita, mas ninguém se importa. Dinheiro, que era bom, sumiu – todos pedem o cartão de crédito… ou não leva a mercadoria.  Os russos não são mais a grande ameaça do planeta e todo produto que compra vem da China. Os patatis viviam de forma primitiva e até praticavam o canibalismo, mas só comiam os inimigos. Maria Eneida já comprou a passagem de volta – vivia muito mais tranquila entre eles.

Amor no Reveillon

 

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Nada melhor para adentrar um novo ano que um novo amor. Ou nada melhor que achar um novo amor no Ano Novo. Dependendo dos parâmetros, naturalmente. Se Bia ama o Dino mas no reveillon de Copacabana esbarra no Tito e se  apaixonam, não será um bom início de ano para o que virou passado. Tudo porque o Dino perdeu o bonde  e não chegou na praia. Também insatisfeita ficou a Lurdinha, que amava o Tito e esperava uma declaração de reciprocidade no pipocar dos fogos dessa noite festiva.

 

O trânsito engarrafado fez Lurdinha perder os fogos e o namorado – quando chegou ambos já tinham desaparecido.  Tito passaria a noite triste e solitário, mas já sabemos que houve um esbarro, e a vida de quatro pessoas mudou de rumo. Os descuidos do acaso atrapalharam ou os astros favoreceram? Talvez os desprezados não representassem o amor puro e verdadeiro cantado pelos poetas e com o qual todos sonham. Ou quem sabe os caprichos do coração tenham regras próprias e não se curvam diante das manifestações do acaso… Por certo o esbarro foi programado nas estrelas.

 

Nada melhor para aquecer o inusitado frio que assola a terra de eterno verão do que ver o amor surgir de situações inesperadas.  Adriana e Marcos se encontraram no reveillon de Miami Beach apenas porque coincidentemente usavam camisas iguais – a mesma cor verde, a mesma marca e o mesmo Happy New Year em letras douradas. Quer dizer, se não existissem roupas unissex, eles passariam um pelo outro e seguiriam seus rumos na vida. Tal e qual linhas paralelas,  jamais se encontrariam. Marcos nem gostou da camisa, mas a namorada deu de presente e ficava chato passar adiante. Marcos e Adriana estão casados há 20 anos,  mas a ex-namorada continua sozinha, até hoje lamentando o presente dado, ‘Devia ter comprado a de cor azul’.

 

Melhor ainda quando o amor de reveillon derruba impedimentos e ressentimentos arraigados, mesmo que absurdos. Os donos do Supermercado Estrela eram inimigos figadais dos donos do Supermercado Romano, acintosamente  instalado na esquina oposta, embora os Romanos garantam que chegaram primeiro. Tal proximidade provocou um feudo entre as duas  famílias que perdurou por três gerações. Ferrenha rivalidade, porém, não impediu Romeu Estrela de se apaixonar por Julieta Romano no reveillon de Camburi. Iemanjá estava de bom humor e a paixão foi correspondida, mesmo que proibida.

 

As forças ocultas que manipulam os mesquinhos interesses humanos tudo fizeram para impedir o romance, condenado a um final infeliz e trágico. Mas a decisão é minha – morrem os dois de paixão no final dessa história e eu fico famosa, ou deixo o amor vencer e continuo na obscuridade? Melhor deixar os dois pombinhos serem felizes para sempre, envelhecendo cercados de filhos e netos. E como o amor é cego mas não é burro, os supermercados também se uniram, mudando o nome para Estrela Romana.

 

 

 

 

Entre Tonga e Samoa

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Mais um ano se esgota no calendário do tempo, chora o pessimista; mais um ano que chega, regozija-se o otimista. Com sorte, suor e um bom gene ganhamos mais 365 dias para vencer os obstáculos de  2018 e chegar a 2019 – 12 meses, 51 semanas, 8640 horas, que se esgotarão com a rapidez do piscar das luzinhas do extinto natal. O presente que ganhamos a cada novo ano é esquecer as pedras do caminho, renovando as mesmas esperanças para a próxima jornada.

A entrada de um novo ano é comemorada em quase todo o mundo há mais de 4 mil anos, mas se nosso esférico habitat tem horários tão diversos, onde 2018 vai chegar primeiro? A pequena ilha de Tonga, no Pacífico,  vai receber o Ano Novo quando o Big Ben em Londres bater as 10 da matina. Já os últimos suspiros de 2017 soarão nas pequenas ilhas americanas Baker e Howland ao meio dia de primeiro de janeiro. Mas não pegue um avião para terminar o ano por último, pois não vai ter festa: essas ilhas não são habitadas. Mas você pode comemorar em Samoa, o último lugar com gente para festejar o evento. A ironia dos nossos fusos horários é que  Samoa fica a uns mil quilômetros de Tonga, onde a festa já acabou há muito tempo.  

Procurando no Google os melhores lugares do mundo para comemorar a chegada de 2018, deparo com a Praia de Copacabana nos primeiros lugares das listas. “Embora o Rio seja mais conhecido por seu carnaval, a comemoração de Ano Novo chega perto no segundo lugar. A famosa Praia de Copacabana tem a maior e mais selvagem festa de Ano Novo do planeta, quando mais de 2 milhões de pessoas se apertam em seus 4 quilômetros de areia”. Devo esclarecer que minha pesquisa tem  razões informativas, apenas – não planejo viajar em busca da melhor festa de Ano Novo do planeta. Mas bem que gostaria.

A chegada de mais um ano provoca nos inquietos seres pensantes uma avalanche de boas intenções e interações, que Oscar Wilde definiu muito bem: “As boas resoluções de fim de ano são simplesmente cheques que passamos de um banco onde não temos conta”. Quem não tem pelo menos uma já morreu e não foi informado. Além do esforço para emagrecer e fazer exercícios, campeões de todos os anos, tem até quem prometa beijar os filhos, pelo menos na noite do próximo natal. Ou lavar o cabelo uma vez por mês em 2018.

Ouvidas ao acaso nos corredores dos shoppings ou nas caminhadas matinais: Economizar água reusando os pratos sem lavar;  Gastar tempo real com a esposa em vez de só se comunicar com ela no WhatsApp; Gastar menos do que ganha, se conseguir um bom aumento; Trocar a senha 00000000 por outra mais criativa. Mas até que não é má ideia – quem vai raquear meu computador tentando essa senha? Meus ardentes votos de boas entradas para meus pacientes leitores se inspiram em Joey Adams, “Que seus problemas em 2018 durem tanto quanto suas resoluções de Ano Novo”.

Natal no céu

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Se na terra o natal é tão  bonito, imagina como deve ser o Natal no céu… Por certo sem árvores cheias de bolas coloridas, mas com muitos flocos de nuvens para imitar as árvores da terra. Embora azuis. Os anjos responsáveis pelos eventos sociais do paraíso não deixaram nada para a última hora e  tudo foi bem organizado para o ser o melhor aniversário, tanto na terra como no céu.  Afinal, das três pessoas da Santíssima Trindade, só o Filho tem um aniversário para comemorar. Portanto, Faça-se a luz!

 

Como acontece todos os anos, os convidados de honra são os pais terrenos, Maria e José, os apóstolos, Paulo e João Batista. Mas naturalmente toda a coorte celeste estará presente – Todos os santos e mártires, anjos e arcanjos e querubins, serafins e potestades, e para não dizer que esqueceram de alguém, todas as almas boas. Pode parecer muita gente, mas é o céu, e quanto mais gente, melhor. Aliás, esse é o melhor presente para o aniversariante – que todos nós alcancemos o paraíso.

 

Nessa festa ninguém falta, porque no céu não há desculpas para não comparecer –  tudo corre sempre muito bem com todos. Nem mesmo São Nicolau, vulgarmente chamado Papai Noel, pode dizer que hoje sinto muito mas não vai dar, esse é o único dia em que trabalho no ano todo e as crianças do mundo esperam por meus presentes. Isso porque não existe tempo no paraíso e tudo pode acontecer simultâneamente.

 

O céu tem muitas outras vantagens – é sempre feriado e ninguém trabalha; ninguém fica doente; o clima é sempre ameno; todos os vizinhos são pessoas de bem. Interessante é que, apesar de tantas benesses, ninguém está preocupado em garantir a entrada, mesmo sendo gratuita e sem fila. Ironicamente, quando anunciam um show da Lady Gaga, na mesma hora os ingressos se esgotam. Para um privilégio que dura apenas duas horas.

 

As estrelas do firmamento foram convocadas para exibir seus brilhos mais intensos e todos os astros se alinharão em perfeita harmonia, para que essa seja a mais bonita de todas as noites. O coro celeste tocará as novas canções natalinas criadas especialmente para o grande dia – músicas que, no ano seguinte, estarão sendo cantadas na terra, porque os compositores humanos são ‘inspirados’ a recriá-las. Mesmo porque toda música é de inspiração divina. Hmm, será que a dos rappers também?!

 

Os Beatles ainda não puderam se apresentar nessa festa, porque ainda falta um. Mas Sir George Martin, o desditoso quinto Beatle, cantará algumas músicas que criou para o grupo e nunca foram tocadas. George entrou no céu sem os testes preliminares exigidos para a maioria dos novatos – ele já pagou todos os pecados na terra por ter deixado o grupo musical mais famoso do mundo. Como não poderia faltar, Prince vai cantar Purple Rain, e como efeito especial, cairá uma chuva de luz púrpura sobre os convidados.

 

Entre as iguarias servidas terão ambrosias e todos os pratos que só-minha-mãe-sabia-fazer, quer dizer, o prato preferido na terra de cada um dos convidados. Uma vez que ali não falta nada, é impossível dar presentes, mas as crianças podem pular nuvens até mais tarde. À meia-noite Jesus divide o pão e transforma a água em vinho, distribuindo-os igualmente entre os convidados, e a festa se encerra com o tradicional Parabéns para Ele.

 

Que esse ano sua festa de Natal seja parecida com esta – com todos que você ama e com tudo que você mais gosta, e vai se sentir no paraíso.

 

Dois milagres de Natal

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1 – Natal não é sinônimo de milagre

Baltazar odeia o Natal e não acredita em Papai Noel. A mãe morreu cedo e o pai nunca se deu ao trabalho de lhe dar amor, muito menos um presente, seja no natal ou em qualquer outra época do ano. O pouco que ganhava gastava em bebida, e desde muito cedo Baltazar aprendeu a fazer biscastes pela vizinhança em troca de um prato de comida. O tempo passou, o mundo deu voltas, mas uma vida estável não mudou o menino infeliz que ainda se revolta dentro dele.

 

Baltazar nunca teve a quem dar ou de quem receber um presente, e continua odiando os muitos natais que passam por sua vida. Nas festinhas de Amigo Oculto no trabalho sempre se omite, não vê motivos para participar de um troca-troca de coisas inúteis com valor estipulado, e não se insere na falsa alegria dos brindes e votos de boas festas. Esse ano, porém, Natal pode ser sinônimo de milagre.

 

Maria surgiu do nada, justo o nome da mãe de Jesus, e não falta nada para ser mais santa, até um filho ela sustenta sozinha. Está sempre sorrindo, apesar da vida difícil e do dinheiro esticado para cobrir as despesas até o fim do mês. Não mais que de repente, ela o convida para a ceia na casa dos pais, quer que conheça o filho e a familia. Pela primeira vez Baltazar entra numa loja para comprar presentes, e talvez até ganhe também seu primeiro presente de natal.

 

2 – Natal pode ser sinônimo de milagre.

 

 

Maria trabalha no Walmart e sustenta sozinha um filho de 7 anos em Pompano Beach, o reduto de brasileiros na Florida. Apesar da vida dificil, Maria é alegre e sempre gentil com os colegas e paciente com a freguesia. Ver gente com dinheiro fazendo compras é até divertido – no âmbito do restrito orçamento de Maria, qualquer um que chega no caixa com o carrinho cheio é rico. Em dezembro o ritmo acelera, mas as horas extras permitem comemorar o Natal do jeito que deve ser – com uma boa ceia e presentes para todos.

 

Maria divide o pagamento extra com a precisão de um cientista partindo um átomo – o presente do filho, os presentes dos pais,  um sapato para si mesma. Mas esse ano o natal será um pouco diferente. Baltazar apareceu do nada, justo o nome de um dos reis magos, e só falta o camelo para ser mais mágico. Maria teve que mudar sua lista para incluir um presente para ele, que aceitou, ou melhor, insinuou um convite para passar o natal com ela.

 

O pai ia ganhar uma camisa mas vai ganhar um par de meias; a mãe sonhava com algo pessoal, mas já ganhou uns pratos decentes para a ceia. Em vez do iPad o filho vai ganhar uma calça jeans, e o sapato foi eliminado do esquema. Baltazar chega distribuindo sorrisos e embrulhos – uma camisa para o pai, um perfume para a mãe,  o iPad para o menino, e um sapato com bolsa combinando para Maria. A noite não poderia ter sido mais feliz.

Quem quer dinheiro?

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Não sei a razão ou o motivo, mas hoje resolvi escrever sobre dinheiro. O alheio, claro, que o meu não daria para escrever duas linhas. Mas não sei por qual razão ou motivo, com a matéria já escrita e revisada, decidi não dissecar as banalidades do vil metal. Vil, no caso, é uma clssificação injusta, uma vez que o dinheiro propriamente dito nunca fez mal a ninguém. Seria o mesmo que ofender a bala, que não mata por vontade própria.

 

Não sei porque temos essa atração pela vida e obra, mais precisamente pelos detalhes pessoais ou escabrosos dos ricos e famosos. Vejo no jornal duas notícias estampadas lado a lado na primeira página : 1 – Bill Gates tropeça no meio fio e cai quando visita o Rockefeller Center; 2 –  Funcionária do Walmart escorrega numa casca de banana e cai dos 102 andares do Empire State Building. Qual das duas notícias você vai ler primeiro?

 

Mesmo reconhecendo que a segunda notícia é mais instigante – Caiu como, tinha seguro, morreu, sobreviveu? Escorregou ou alguém empurrou? – vamos dar uma olhadinha primeiro na primeira notícia, porque o Walmart tem mais de um milhão de funcionários, enquanto os bilionários do mundo são apenas 1.500. A maioria deles, ou seja, 563 , são americanos, mas o grupo da Ásia ameaça superá-los em apenas quatro anos. Vamos aguardar.

 

Se as pessoas que mais nos interessam são as mais ricas, então tem mais gente interessante nas notícias citadas acima, e o mais rico não é o Bill. John D. Rockefeller, que construiu o Rockefeller Center, sobe ao pódio como o americano mais rico de todos os tempos. Outro bilionário participando nessa história, embora indiretamente, é o dono do Walmart, Sam Walton. Mas não se apresse em concluir que o americano mais rico de todos os tempos é também o homem mais rico do mundo.

 

Deu na Forbes: Mansa Musa I, de Mali, um rei africano do Século XIV, é o homem mais rico de todos os tempos. Com o ajuste da moeda para os valores de hoje, o africano acumulou 400 bilhões. O segundo lugar na lista ficou pobre. Mas sempre se fica com a pulga atrás da orelha, como se dizia no tempo dos mercados das pulgas, quando os mais ricos são cabeças coroadas, ou filhos/filhas deles. Questão de privilégios ou desvios, ou as duas coisas juntas. Somos especialistas no assunto.

 

Vamos dar uma olhada na queda do Walmart, ou melhor, da funcionária que deu azar em dobro: primeiro, por cair, segundo, cair na mesma hora do Gates. Pobre não tem vez mesmo. Joana Mirenes, porto-riquenha, três filhos pequenos, marido também funcionário do Walmart, quer dizer, também mal pago. Com sorte caiu sobre o toldo na entrada do prédio, tal como acontece nos filmes de ação, quebrou duas costelas e passa bem. O Sam lhe mandou uma cesta de frutas, sem bananas.

 

O que nos intriga nessa notícia não é o Bill Gates ir assistir ao acender das luzes da famosa árvore de natal do Rockefeller Center, bem no meio do povão, mas a Joana estar visitando o Empire State, com a entrada custando 36 dólares. A notícia não esclarece, mas se Joana levou os três filhos, imaginem quanto gastou para subir num elevador e ver a vista. Se não quiser enfrentar uma longa fila, paga dobrado.

 

Quanto ao agora famoso Mansa, não o julguemos por desvios de verbas apenas porque era rei. Segundo consta, o africano era bonzinho, tendo construído muitos centros educacionais e mesquitas em toda a África. Outra boazinha e também frequentadora das listas de bilionários da Forbes, a apresentadora Oprah Winfrey diz numa entrevista que a fortuna não mudou seu modo de ser, “Mantenho os pés no chão, mas o sapato é mais caro”.

Parece que foi ontem

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O tempo passa devagar, quase parando, e os dias se empurram uns aos outros sem pressa de virar passado. E de repente, numa esquina qualquer, deparamos com os primeiros sinais de que esse ano no qual vivemos perigosamente acaba ali no fim do mês. Perigo, aliás, está na ordem do dia – para todo lado que se olha depara-se com uma possibilidade de desastre, seja uma bala perdida ou um maluco bem armado, um novo escândalo no Brasil ou um novo trumpismo nos States… Equilíbrio precário.

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Chegamos em dezembro? Mas parece que ontem mesmo falamos tudo isso sobre 2016! Os adornos natalinos já brilham nas portas e janelas, aos poucos sendo superados pelos bonecos de plástico cada vez maiores e mais iluminados, cada vez mais cafonas, se é que tal expressão já não morreu também, extirpada do vernáculo por ser de péssimo gosto. Chegou o novo iPhone da Apple e a próxima princesa da família real britânica entra na história por entrar na linha de sucessão, mesmo se vier outro irmão depois dela.

 

Há cem anos era 1917, e o cinema ainda não tinha criado a festa do Oscar para incrementar as bilheterias. Nem precisava, porque a televisão ainda não havia invadido os lares e a distração era mesmo ir ao cinema. O sucesso de então era Charles Chaplin, e mesmo tendo passado 36.500 dias, ainda não inventaram um comediante melhor. Ler era a palavra de ordem  e o Prêmio Nobel de Literatura já existia. Em 1917, o vencedor foi Henrik Pontoppidan, da Dinamarca. Já leu alguma coisa dele?

 

Não sei se foi lembrado no Brasil como deveria, mas esse ano Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro completou cem aninhos, sendo ainda  cantado por gente famosa e admirado pela plebe. Pergunto, houve fogos de artifício e badalar de sinos para comemorar? Um especial de TV com artistas famosos cantando juntos e doando o apurado para a preservação e glória da música popular brasileira? Cem anos? Mas parece que foi ontem…

 

E porque andei meio distraída, passou despercebido pela colunista o primeiro aniversário deste blog. Um ano? Mas  ainda nem sei lidar direito com a coisa. Para comemorar vou ao shopping, ou melhor, ao mall mais próximo da residência, e na loja âncora da direita deparo com a vizinha que teve um bebê recentemente, e a menina já está noiva. Como assim? Parece que foi ontem! A mãe ri, Na casa dos outros as crianças  crescem depressa.

 


Na loja âncora da esquerda encontro a Leda abraçada com um desconhecido, pelo menos para mim. Ela apresenta o bonitão como o atual ficante, e levo um susto, Outro? Você acabou de casar com o Ledo! Ela ri, Que nada, amiga, isso foi em 2016, e em menos de seis meses vimos que não ia dar certo. Insisto, Mas parece que foi ontem! e desta vez ela não ri, Pra você, porque pra mim pareceu uma eternidade. Tal e qual, ontem mesmo comemoramos a chegada de 2017, e lá vem Papai Noel outra vez.

Versos misteriosos

 

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O verso apareceu na limpeza anual dos arquivos do irmão, em letras cursivas que, tal como as máquinas de datilografia, estão caindo em desuso: “Voltarei, tu me falaste; Respondi, Não esperarei. Mentiste, nunca voltaste, Menti, sempre esperei”. Foi preservado em um  amarelado caderno de poesias da irmã metida a escritora e chegou à era tecnológica. Compartilhado com o grupo familiar no WhatsApp, ganhou muitos elogios e foi repassado para amigos de outros grupos na usual reação em cadeia da Internete.

 

Lamentavelmente, porém, e embora o caderno e a elaborada letra sejam comprovadamente meus, o verso não é de minha autoria. A família recusou-se a acreditar, alegando que tendo provavelmente se passado um século desde que ali o registrei, devo ter esquecido. Buscando provas para me defender vou ao Google, mas não encontro qualquer referência ao adorável versinho que parece ter sido escrito numa previsão ao Twitter: uma história completa de amor e perda concentrada em apenas 13 palavras. Lindo!

 

Lá pelos meados do século passado, num tempo sem televisão, telefone, Internet e tudo mais que se seguiu, numa cidade muito alegre mas com parcas opções de leitura, era comum as jovens sonhadoras – e qual não era? –  manter os chamados ‘cadernos de poesias’, onde registravam não apenas suas modestas incursões literárias mas também tudo que achavam  em revistas e livros. Quando gostavam, claro. Usava-se também copiar os ‘achados’ umas das outras. No entanto, ninguém julgava necessário atar o nome do autor ou autora à obra escolhida.

 

O verso mais popular e presença obrigatória em quase todos os cadernos era uma ode ao pessimismo: “Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera.Somente a ingratidão – esta pantera – Foi tua companheira inseparável!”  Demorei a descobrir que eram versos de Augusto dos Anjos, e sua inclusão nos cadernos de adolescentes sonhadoras era um mistério, visto que usualmente gostávamos apenas das obras românticos. Mesmo se trágicos.

 

Nos dias de hoje, porém, vivemos assolados por outros trágicos, tanto na literatura como nas demais expressões artísticas, principalmente o cinema. Nos sites como Netflix e HBO, 9 entre 10 chamadas dos filmes disponíveis mostram uma arma apontando para alguém. E se os joguinhos eletrônicos tão do agrado da nova geração são incentivos à violência, não sei porque se surpreendem quando mais um maluco deixa a toca e sai matando todo mundo.

Quanto ao belo verso da mentirosa no início da coluna, o mistério persiste, e continuo procurando quem foi o autor, embora possa também ser uma autora. Isso de esperar em vão por alguém que não vem parece mais feminino mesmo. Se você sabe quem escreveu ou quem não voltou, por favor me conta. A foto de hoje lembra a Black Friday, que em 2017 teve a maioria das vendas  online. A corrida às lojas depois do jantar de Thanksgiving está virando folclore?

Fuga do Paraíso

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Não pretendo fugir de meu status de imigrante com benefícios de cidadania, nem estou dizendo que a Flórida é o paraíso, embora algumas vezes até mereça. Estamos na era Trump, portanto, não é o caso. Em sã consciência, quem iria fugir de um lugar considerado paraíso? Um título às vezes pode ser enganoso, mas esse tem muito a ver com a Amazon/Kindle, que dispensa apresentações e sobe ao pódio por ter multiplicado o número de leitores no mundo todo. Principalmente a ala jovem, que aderiu incondicionalmente à facilidade e economia das opções online.

 

Portanto, com toda a pompa e circunstância necessárias para antecipar as grandes revelações, informo aos pacientes leitores que me acompanham nesses 17 anos de seculodiario, que já está disponível na  Amazon/Kindle meu romance Fuga do Paraíso, uma história de amor e guerra. Por que demorei tanto a aderir ao modismo? Porque embora leia muita coisa online, ainda sou viciada no livro impresso – sentir o peso e a textura, virar página por página… Até o cheiro influencia a história, se o livro não está velho e mofado.

 

A moderna tecnologia, porém, não pediu minha opinião se convinha mudar os hábitos de leitura do leitor moderno. O livro digital veio para ficar, e se não podemos derrotá-lo, melhor aderir. O nome Kindle significa acender o fogo, uma metáfora bem apropriada para os efeitos da leitura na mente e na alma. Somos seres mutantes e vamos nos adaptando às novidades que invadem nossa rotina com a velocidade da luz. A tecnologia está aí para nos servir, e se não trouxesse vantagens, sucumbiria. Os números da Amazon comprovam.

 

Portanto, prezado leitor e amiga leitora, se ainda não aderiram ao massacre virtual da Amazon/Kindle, que  pôs ao alcance de todos livros mais baratos e ecologicamente corretos, convido-os a começar com o romance Fuga do Paraíso, uma história de amor e guerra. E não é propaganda enganosa, em apenas 140 páginas você vai encontrar drama e humor, tensão física e psicológica, sacrifício e fraternidade… como o ser humano pode resistir e não perder a esperança, mesmo quando tudo sai errado.

 

Mas principalmente, como o amor, essa plantinha teimosa, pode vicejar nos terrenos mais áridos e nos momentos mais difíceis. Nenhuma árvore foi derrubada para pôr esse livro nas estantes virtuais. Você pode dar uma força divulgando meu romance nas suas redes sociais. Muito obrigada!

Voto em branco

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Numa pesquisa recente para saber quem o vulgo considera a classe mais mentirosa do mundo, o primeiro lugar foi para os políticos, seguidos de perto pelos advogados. Não sei porque os políticos levam a culpa de tudo, mas a pergunta deveria vir acompanhada de uma certa advertência: Quem dentre vós não mente, que jogue o primeiro voto. E já sabemos que não haveria voto nem pesquisa – na vida como na arte, quem não mente?

 

O diretor da revista Vida Saudável conquista um anúncio de página inteira, contrato de um ano, mostrando as qualidades do novo leite em pó Vaquinha Risonha, com o slogan, ‘O que é bom pode ser barato’. Não tendo sido informada do vantajoso contrato, Eduarda, repórter da revista, escreve um artigo provando que o referido leite, além de não ter as qualidades que anuncia, também dá dor de barriga. Qual o diretor vai descartar?

 

Mas não chore as dores da Eduarda, que demitindo-se do emprego adere à economia informal vendendo saudáveis bolos caseiros cuja receita está na família há várias gerações. Slogan: ‘Feito com carinho com os melhores ingredientes’. Vendem feito celulares, e Eduarda está faturando mais do que ganhava na Vida Saudável. Segredos bem guardados: a receita foi tirada da Internet, e na compra dos ingredientes, adivinha qual leite em pó ficou mais em conta?

 

Os meios justificam o fim ou o fim justifica os meios? Nas sextas-feiras, quando Eduarda vai suar na academia, o marido aproveita para fazer serão até tarde. Segredo mal guardado: ele vai se encontrar com a amante Bilu, que por sua vez jura que ele é o único, e o pressiona para deixar a Eduarda e ficar com ela. O que ambos não sabem é que a Eduarda sabe, mas pra quê fazer escândalo? Divórcios custam caro e a mulher sempre leva a pior.

 

O que os amantes não sabem é que a Bilu pressiona os dois a abandonar as traídas, e faz apostas com as amigas sobre qual vai jogar a toalha primeiro. Não tem preferência, os dois estão no mesmo piso salarial. A família da Eduarda tem outros segredos bem guardados: a mãe usa peruca; a filha diz ter um ótimo emprego mas vive às custas do ficante, outro bem casado; o filho compra artigos usados e em bom estado e vende como novos em um blog muito popular.

 

Alda, irmã da Eduarda, diz que o marido trabalha em casa, o que não deixa de ser verdade; dá trabalho mudar de posição na poltrona e o canal da televisão o dia inteiro. Tem um filho na faculdade, mas não diz qual nem onde. Cadê o  menino? No tempo em que as ruas eram calçadas com paralelepípedos, diriam que ele era contador da prefeitura – o dia todo pra lá e pra cá contando os paralelepípedos. Agora que as ruas estão asfaltadas, acusam o rapaz de estar metido com drogas.

 

Existem mentiras de todo tipo e calibre, e na calada da noite todos os gatos são pardos. Os pais mentem para os filhos que se não comerem verduras não vão crescer; os filhos mentem para os pais dizendo que terminaram o dever de casa. Maria mente para José que o feijão é de hoje; José mente para Maria que o aumento não saiu. Fazer o quê? Quem tem seu estoque de mentirinhas na manga que vote em branco.