Voto em branco

IMG_3338

Numa pesquisa recente para saber quem o vulgo considera a classe mais mentirosa do mundo, o primeiro lugar foi para os políticos, seguidos de perto pelos advogados. Não sei porque os políticos levam a culpa de tudo, mas a pergunta deveria vir acompanhada de uma certa advertência: Quem dentre vós não mente, que jogue o primeiro voto. E já sabemos que não haveria voto nem pesquisa – na vida como na arte, quem não mente?

 

O diretor da revista Vida Saudável conquista um anúncio de página inteira, contrato de um ano, mostrando as qualidades do novo leite em pó Vaquinha Risonha, com o slogan, ‘O que é bom pode ser barato’. Não tendo sido informada do vantajoso contrato, Eduarda, repórter da revista, escreve um artigo provando que o referido leite, além de não ter as qualidades que anuncia, também dá dor de barriga. Qual o diretor vai descartar?

 

Mas não chore as dores da Eduarda, que demitindo-se do emprego adere à economia informal vendendo saudáveis bolos caseiros cuja receita está na família há várias gerações. Slogan: ‘Feito com carinho com os melhores ingredientes’. Vendem feito celulares, e Eduarda está faturando mais do que ganhava na Vida Saudável. Segredos bem guardados: a receita foi tirada da Internet, e na compra dos ingredientes, adivinha qual leite em pó ficou mais em conta?

 

Os meios justificam o fim ou o fim justifica os meios? Nas sextas-feiras, quando Eduarda vai suar na academia, o marido aproveita para fazer serão até tarde. Segredo mal guardado: ele vai se encontrar com a amante Bilu, que por sua vez jura que ele é o único, e o pressiona para deixar a Eduarda e ficar com ela. O que ambos não sabem é que a Eduarda sabe, mas pra quê fazer escândalo? Divórcios custam caro e a mulher sempre leva a pior.

 

O que os amantes não sabem é que a Bilu pressiona os dois a abandonar as traídas, e faz apostas com as amigas sobre qual vai jogar a toalha primeiro. Não tem preferência, os dois estão no mesmo piso salarial. A família da Eduarda tem outros segredos bem guardados: a mãe usa peruca; a filha diz ter um ótimo emprego mas vive às custas do ficante, outro bem casado; o filho compra artigos usados e em bom estado e vende como novos em um blog muito popular.

 

Alda, irmã da Eduarda, diz que o marido trabalha em casa, o que não deixa de ser verdade; dá trabalho mudar de posição na poltrona e o canal da televisão o dia inteiro. Tem um filho na faculdade, mas não diz qual nem onde. Cadê o  menino? No tempo em que as ruas eram calçadas com paralelepípedos, diriam que ele era contador da prefeitura – o dia todo pra lá e pra cá contando os paralelepípedos. Agora que as ruas estão asfaltadas, acusam o rapaz de estar metido com drogas.

 

Existem mentiras de todo tipo e calibre, e na calada da noite todos os gatos são pardos. Os pais mentem para os filhos que se não comerem verduras não vão crescer; os filhos mentem para os pais dizendo que terminaram o dever de casa. Maria mente para José que o feijão é de hoje; José mente para Maria que o aumento não saiu. Fazer o quê? Quem tem seu estoque de mentirinhas na manga que vote em branco.

Nós, fantoches

Image result for Internet

Uma chuvinha incessante atrapalha a programação do fim de semana e nos deixa sem Internet. Isso no sábado, quando os netos passam o dia, às vezes também a noite, com pizza obrigatória. E para comprovar nossa total e absoluta dependência da alta tecnologia, ficamos num barco sem remo e sem rumo – sem televisão, telefones celulares e fixo, joguinhos eletrônicos, e-mails, Netflix, HBO; e tudo mais que se conecta nas ondas virtuais. A turminha parece formiga que perdeu o caminho do formigueiro, se é que isso pode acontecer.

 

Ofereço meus dons criativos para contar uma história – aos netos, não à formiga. Era uma vez um tempo em que eles adoravam, desde que fossem os protagonistas principais. Mas neste sábado com cachoeiras escorrendo pelos vidros das janelas, a resposta é Não obrigado. Então vamos ler um livro, Não obrigado, já lemos os livros do mês na escola. E aí fico pensando se o tiro não está saindo pela culatra, e ao invés de estimular o hábito da leitura, as escolas estão tornando-o uma obrigação. Portanto, Não obrigado. Mas o mundo já girava antes da explosão virtual e sempre há o que fazer sem estar conectado a algum fio.

 

Com os festejos do Halloween ainda recentes e o excesso de balas ainda entulhando potes e cestos, sugiro escreverem uma história de fantasmas em homenagem ao Dia de los Muertos dos mexicanos. Não foi assim que Mary Shelley bolou o Dr. Frankestein? Ficaram famosos, e nem existia o Kindle. Mesmo feio de cara e péssimo de caráter, desenvolvendo hábitos assustadores, no próximo ano nosso monstro favorito completa  200 aninhos.

 

Espalho sobre a mesa pincéis e tintas, lápis de todas as cores e crayons ídem, uma pilha de papel branco como sorvete de coco, e nada funciona além das frequentes visitas à geladeira. Até que finalmente faz-se a luz, ou melhor, a rede ressuscita. E se tudo está de algum modo conectado nas nuvens como fios invisíveis movendo fantoches, fico imaginando um futuro distópico, talvez não muito distante, em que tudo estará subordinado a essa nova força motriz que nos controla – Dona Internet.

 

Para dor de cabeça ou  mal de amor, para veias entupidas onde outrora o sangue fluía, para o Parkinson e a calvície, chegará o tempo em que a Internet que nos mantém catatônicos na frente de telinhas e telonas vai curar todos os males e resolver todos os problemas. O carro não precisa de gasolina, o fogão dispensa o gás, a comida não tem calorias. Dela virá a energia que faz motores, elevadores e computadores funcionarem, que clareia a escuridão e controla os sinais de trânsito. Hospitais sem médicos, tudo robotizado, da consulta à cirurgia.

 

Exagero? Uma pesquisa recente entre adolescentes apurou que 63% dos jovens consultados disse que não viveriam sem seus celulares; 30% disse que o mundo tornaria o caos; e a minoria restante disse que a vida perderia a graça. E falando em caos, um recente estudo apurou que a maioria dos jovens viciados em drogas vêm de famílias com bom poder aquisitivo e com as melhores notas nas faculdades. Também são os que continuam no vício depois dos 26 anos. O estudo foi feito nos Estados Unidos e na Inglaterra.

Olha no mapa

 

escola

Uma amiga tenta me explicar os estragos que o furacão Ilma fez no jardim da sua casa, e como não deu para entender, sugiro que me mostre no Google Maps. Como assim? foi a pergunta espantada. Meu espanto foi ainda maior: como uma pessoa que trabalha em um ambiente cercado de tecnologia só usa os mapas virtuais para localizar um especifico endereço ou baixar instruções alternativas de chegar lá desviando-se dos engarrafamentos?

 

Pois já não há onde se esconder – nosso humble adobe está exposto a um ou dois toques no teclado,  para todo mundo ver. E não exagero, qualquer um, em qualquer lugar beneficiado com a parafernália tecnológica pode ver e localizar qualquer lugar no mapa mundi, como o consultório do médico antes de ir para a consulta, a casa do amigo que ficou rico,  o prédio onde mora o novo namorado da filha – pelo menos no instante em que as câmeras bisbilhoteiras passaram por lá. A renovação ocorre a cada dois anos.

 

Quando bate aquela saudade de um lugar que ficou na memória, a vontade de estar onde já estivemos, seja a casa da infância ou o sítio do tio, o mapa virtual praticamente nos põe lá. E quem não sofre um ataque de saudosismo de vez em quando? Bem, talvez não as pessoas normais, mas o imigrante é, por natureza, um ser dividido, querendo sempre estar em pelo menos dois lugares ao mesmo tempo.

 

Indo muito além de simples curiosidade ou saudosismo, com muita sorte dá até para ver uma pessoa conhecida que por acaso estava na varanda ou na janela na hora que a van passou tirando a foto, e que talvez nem saiba que ficou lá, registrada e sacramentada como documento em cartório, parte integrante da história da cidade e daquele endereco, até que a foto seja atualizada. Mais uma vez não exagero, já soube de muitos casos.

 

Minha mãe falava sempre em um lugar onde morou na infância e não sabia se era Minas Gerais ou Espírito Santo, onde nunca mais voltou e nem sequer conheceu alguém que conhecesse, ou que estradas levavam e traziam de lá. Muitos anos depois, num dia de chuva e papo furado, lembra disso, lembra daquilo, os filhos reunidos em torno de uma canjiquinha com linguiça, alguém lembrou do fato e corremos para o mapa milagroso, Vamos ver se existe ou era um truque da memória.

 

E de repente aparece na tela de um moderno computador, como obra de feitiçaria ou milagre da tecnologia, uma cidadezinha mineira com jardim florido, coreto e chafariz. Bateu uma tristeza imaginar a felicidade que ela teria ao ver surgir diante de seus olhos o lugar que guardou no coração por toda a vida. Ou talvez não, porque com tanto tempo passado, obviamente a cidade que ficou registrada em sua memória seria muito diferente da cidade registrada pelo Google.

 

Para mostrar aos netos a escola onde estudei em Alegre, apelei para o Google. O Grupo Escolar Professor Lellis foi construído em 1931 no estilo neocolonial, com o frontispício em azulejos portugueses. E faz parte da nossa história: na Revolução de 30 que pôs Getúlio Vargas no poder, a cidade foi invadida pelo chefe da força revolucionária, Comandante Barata, que usou o prédio como quartel das tropas rebeldes. A rua onde o prédio se instala se chamava Comandante Barata quando lá morei, depois mudado para Rodrigues Alves e atualmente Dr. Olívio Pedrosa.

Algo de novo no ar

Resultado de imagem para southwest airlines boarding

Um voo entre a cidade do sol e a cidade dos ventos, ou seja, Miami-Chicago não é muito longo, mas sugiro levar um livro ou o kindle, pois nada acontece de interessante. A não ser que algo inusitado aconteça. Atenção Senhorita Anise Brooklin, por favor apresente-se na cabine de comando; tivemos um pequeno problema com sua bagagem. A garota chamada Anise, de 21 anos, se levanta da poltrona 57, quer dizer, no final da aeronave, e caminha apressada e preocupada até a cabine na entrada.

 

 

Em lá chegando é recebida pelas assistentes de bordo, outrora chamadas aeromoças. Acho que mudaram o nome porque, com a entrada dos homens no páreo, ficava chato falar aeromoços. Ditas assistentes, com seus melhores sorrisos, põem na cabeça da garota uma coroa feita com  legumes (alfaces, brócolis, espinafres), desfraldam a tradicional faixa Happy Birthday Anise, e cantam o infalível Parabéns pra você, acompanhadas entusiasticamente por passageiros  e passageiras.

 

 

Com certeza uma brincadeira de amigos, amor, família. O problema é que a aniversariante não recebeu bem a inusitada homenagem, e ficou lá na frente emburrada, sem sorrir e sem agradecer a gentileza do gesto. Devia ser tímida, acho.  Para piorar seu estado de ânimo, voltou para a poltrona sob aplausos e vivas dos outros passageiros. Parece que ninguém percebeu que a garota não gostou do mico, mesmo se lhe foi servida uma refeição especial.

 

Nessa época em que as empresas aéreas cada vez mais diminuem o que chamam de privilégios do usuário, esse evento foi uma exceção, provavelmente paga. Ou estão adicionando o Parabéns nas regalias de bordo? Na verdade não, porque uma senhora sentada nas primeiras filas se levantou, Eu também faço anos hoje. Perguntaram quantos e ela disse estar completando 88 anos, e todos cantaram outra vez a musiquinha. E a reação dela foi oposta: cantou junto, dançou e saiu pelo corredor recebendo cumprimentos.

 

 

Eu não estava no voo mas repasso o que me contaram, a fonte é fidedigna. A empresa em questão é a Southwest, que inova com serviços melhores e preços mais baratos. Consequentemente,  voos sempre lotados e + lucros. Não estão me pagando para fazer propaganda da empresa, na qual nunca voei, mas o Google informa que ela tem sido inspiração para outras linhas aéreas de pequeno porte, e seu modelo de negócios é copiado no mundo todo.

 

 

O melhor exemplo é não cobrar as alterações de voo, como as outras fazem. Outra novidade que atrai os viajantes é  o inovador sistema de embarque, como define o site da empresa: Temos um processo de embarque rápido, fácil e eficiente. Procure em seu cartão de embarque qual é seu grupo (A, B, C) e sua posição (1-60). Quando seu grupo for chamado, vá para a coluna que tem seu número e espere sua vez de entrar.   

 

 

Há muitos motivos para se viajar, e a maioria deles é ao mesmo tempo estimulante e relaxante. Não preciso listar as vantagens e benefícios de uma viagem, seja para Guarapari ou Guadalupe, Paris ou Parati, uma vez que todo mundo já viajou e sabe bem. Mas as empresas aéreas, as maiores beneficiadas com nossos deslocamentos, fazem tudo para complicar o trajeto. Eu não gostaria que a atendente anunciasse meu aniversário em um avião lotado, mas uma vez que a passagem está paga, por que não posso repassá-la para outra pessoa se não posso viajar?

 

P.S. Nenhum animal foi sacrificado para escrever e publicar essa coluna, a não ser o frango do almoço.

Halloween diet

fca4ce85-0b3b-4b59-b288-0ab3d781338a-1024x789Quando desconfiam que alguma mercadoria vai faltar, todos correm para armazenar para o futuro imediato. Basta um boato de um banco quebrar e todos correm para retirar seu dinheiro; quando avisam que o preço da gasolina ou do álcool vai subir, correm todos para encher o tanque, embora nem dê tanta diferença assim. E isso vale para tudo, como nas ameaças de furacão. Mesmo assim, causou espanto a notícia de que houve um grande aumento nas vendas de armas de fogo depois dos trágicos eventos em Las Vegas. Querem estocar antes que proibibam as vendas, a) para vendê-las depois com o preço triplicado; b) para usá-las num próximo ataque?

 

 

A mania americana de comprar armas combina bem com a principal atração de outubro – o Halloween, que é festa de horrores e pesadelos. O mês mal começou e os apressadinhos já nos divertem decorando as portas com caveiras e esqueletos, bruxas, fantasmas e tumbas com o tradicional R.I.P., que quer dizer descanse em paz. A televisão nos bombardeia com filmes apropriados para a data, ou seja, de terror.

 

 

Mas ao invés de assustar, o Halloween faz a alegria das crianças e dos fabricantes de balas, mesmo nesses tempos de excesso de peso, guerra ao açúcar e refrigerantes diet, que como dizem os entendidos, só os gordos tomam. Minha filha reclama da quantidade de balas que vai ter que comprar antes que os estoques se esgotem, e pergunto por que não dar algo mais saudável e diminuir a epidemia de obesidade que aflige a nação, Que tal lançar a moda do Halloween-diet?

 

 

Ela me olha como se eu tivesse acabado de desembarcar de um foguete espacial, Porque fica muito mais caro. Então é isso, balas em profusão porque com tantas crianças – e adultos – batendo na porta, as balas deixaram de ser uma tradição e se tornaram a opção mais barata. Agora imagina se o governo, preocupado com a saúde da população, proibisse a distribuição de balas no Halloween. Compraríamos nossos estoques com meses de antecedência ou cairíamos nas mãos dos contrabandistas de balas, que as venderiam a preços exorbitantes?

 

 

A recente correria para a compra de armas e munições é por temerem a proibição, que tal como aconteceu com a lei seca no passado, desencadearia a ação dos contrabandistas. Como a chamariam, lei da bala? Tudo porque, quando chacinas como essa acontecem – e com que frequência estão acontecendo – a pressão dos grupos pró-desarmamento ganha força. Mas dificilmente conseguiriam vencer com Mr. Trump no governo. Pró-violência.

 

 

Falando em balas não podemos esquecer da nossa especialidade, as balas perdidas, que como diziam no tempo em que um fio de barba valia como documento, quando vejo a barba do vizinho arder ponho a minha de molho. Justamente agora, quando as barbas voltaram à moda. Quem diria. Resta torcer para que retorne também a seriedade daqueles idos, quando a palavra empenhada era lei – Não fechou a transação ainda? Cancela e pago o dobro. Não posso, já empenhei minha palavra e sacramentei com um fio da barba.

 

 

Nem terminei a coluna lembrando à humanidade que o Halloween está no ar, abro a porta e vejo que a vizinha em frente já esparramou as luzinhas de natal no jardim. Aposto que é a primeira do país. E olha que nem retiramos ainda os protetores de furacão, e para sondar o que vai pela vizinhança tenho que abrir a porta: as janelas estão lacradas. O que é estranho – lá fora brilha o sol mas em casa reina a penunbra da noite.

 

 

E tudo parece combinar bem – Halloween e furacões ainda no ar, balas e balas em noites de terror. No entanto, a origem do Halloween era exatamente espalhar figuras de monstros e caveiras para afastar as bruxas. O que era amedrontador virou festa, e as festas estão virando pesadelos. Ao invés de evoluírmos estamos involuindo, e as bruxas, por mais que a gente reze, continuam soltas.

A mulher que engolia fogo

Antes de tudo existiam os circos, e nada a ver com a sofisticação do canadense Circo de Soleil. Eram os mambembes, sem pausa e sem pouso, rondando de um vilarejo a outro, e a data da partida era determinada pelo movimento da bilheteria. Ou quando algum participante se metia em encrenca, mor das vezes por um rabo de saia, como alardeava o palhaço. Por onde o circo passava vez em quando alguém ia junto, iludido pelo falso brilho das lantejoulas.

 

 

Zoira, recém-casada, foi das muitas que fugiram na calada da noite atraída pelos olhos negros de Althey, o atirador de facas. Por isso o marido não foi atrás. No mesmo lugarejo ficou Zilza, a mulher barbada, apaixonada pelo barbeiro. O mundo sob a lona não era exigente e sempre cabia mais um… ou duas, desde que soubesse fazer alguma coisa. Zoira fazia uma irresistível galinha ao molho pardo, mas galinhas eram escassas naqueles idos.

 

 

Sendo no entanto formosa e dona de um belo par de pernas, bastou-lhe um maiô prateado e um penacho emplumado para conquistar o distinto público. E porque era a professora do lugarejo deixado para trás, para sempre, criou o papel da paciente professorinha da roça, ensinando o be-a-bá e um-mais-um-dois no picadeiro ao aluno burrinho, ninguém menos que Authey vestido de Pinóquio.

 
A bela nem precisava inventar – repetia para a honrada assistência as mesmas aulas que dava para as crianças do Fundo do Poço, e o público ainda ajudava, repetindo com ela as lições que o aluno-Pinóquio-palhaço não conseguia aprender. Ainda hoje corre pelo interior desses brasís maltratados o boato de que foi assistindo a uma das aulas da Zoira que Chico Anísio criou sua famosa Escolinha do Professor Raimundo. Não posso provar, apenas repito o que ouvi por aí.

 
Nem duvide que existe um lugarejo chamado Fundo do Poço, lá pelo interior de Bumiranga. Nunca estive lá, mas hoje em dia não exijo provas de nada que me contam. Na minha infância ouvia muitas referências a  outro lugar mágico chamado Onde Judas perdeu as botas, muito lembrado quando se perguntava onde está ou onde fica, e o perguntado não queria ou não sabia dar a direção correta, ou queria  indicar que era muito longe. Onde mora aquela Excelência que recusou a propina? Lá Onde Judas perdeu as botas.

 
Ficava eu intrigada com esse local misterioso mas sempre citado… teria Judas andado pelo mundo e veio perder as botas no Brasil? Outra indicação que me encantava era a famosa e nunca bem definida cor-de-burro-quando-foge. Quem nunca a ouviu, pelo menos uma vez por semana? Qualquer coisa que sumia ou que não se conseguia explicar, era definida como tendo a famosa cor de burro quando foge. Minha avó dizia que burro tem mesmo uma cor dúbia, nem preto nem branco, nem marron nem castanho, nem cinzento nem aguento.

 

 

Os mistérios que plantam na alma infantil… Tenho certeza que muitas crianças brasileiras sofriam como eu o maior enígma da nossa história – como D.Pedro II podia ser filho do D. Pedro I, se nos livros escolares o pai era jovem e bonito e o filho era um velho barbudo? O primeiro Pedro tinha fama de mulherengo e o segundo de sizudo, o que talvez explique a barba, para não ser confundido com o  pai mulherengo. Mesmo assim, dizem que o de barba caiu de amores por Anarê, trigueira índia guarani, quando veio ele em visita ao Espírito Santo.

 

 
Fosse Anarê americana, teria  muitos filmes baseados em sua vida, e se vivesse nos dias de hoje estaria casada com um dos Ronaldos e seria madrinha de bateria. Cada terra com seu uso. Naquele tempo, porém,  a glória era ser artista de circo, e Anarê seguiu um circo mambembe, apaixonada pelo dono,futuro fundador da Império Serrano. Com ele aprendeu o ofício de engolidora de fogo, e dela o brasileiro herdou essa capacidade de engolir tudo calado.

Turista acidental

tn_Navarre-Beach-Fl-02

Retorno de meu exílio forçado de uma semana, no que posso chamar de turismo acidental. Embora as informações obtidas durante a ausência fossem tranquilizantes, encontro um desolador cenário de ruas sujas e outdoor destruídos, os farrapos dançando ao vento feito velas de navio fantasma. As mais afetadas são as árvores, coitadas, tombadas por toda parte, guerreiras derrotadas. Nas calçadas e estacionamentos, pilhas de troncos e galhos ressecados esperam seu destino final – serem tritutados e virar munch de jardim.

 

Quando um furacão enfurecido é detectado, os residentes em sua rota provável têm que fazer a difícil escolha – fugir ou enfrentar? A não ser que haja uma ordem de retirada, claro. Mesmo tendo, há os que teimam e ficam. Com o Irma a ordem foi de alerta, mas quem ficou teve que se fechar em casa: se saísse a polícia levava para os abrigos comunitários. Na esteira do furacão faltou água, luz e gasolina, poucos estabelecimentos abriram, e apenas durante o dia. Quase uma cidade sitiada.

 

Meu pequeno núcleo familiar decidiu pela retirada, e partimos para Navarre Beach, no Golfo do México, uma pontinha estreita no extremo noroeste da Flórida, que promete ser a praia mais sossegada do mundo. Quer dizer, sem badalação, com lojas e restaurantes fechando às 9, e tão distante que muda o fuso horário – são 10 a 11 horas em belas estradas muito bem cuidadas. No entanto, em nossa viagem pré-furacão, gastamos de 20 a 22 horas para chegar, tal o engarrafamento. Isso com postos de gasolina fechados e hotéis sem vagas.

 

Navarre e Navarre Beach, cidades irmãs, estão perto de Pensacola, a última cidade ao oeste na geografia do estado. Na história, porém, reclama o título de primeira cidade americana, fundada pelo espanhol Tristán de Luna em 1559. Mas teve vida curta, e Santo Agostinho, fundada em 1565 no leste da Flórida levou a fama, sendo considerada o primeiro núcleo permanente dos States. Os sacolenses acham uma injustiça.

 

Se a longa retirada foi uma via-crucis, o retorno foi mais rápido e mais tranquilo, mas ainda com muito movimento nas estradas e hotéis lotados. Entre a ida e a vinda, as férias forçadas foram um maravilhoso descanso num local paradisíaco e cheio de charme. Mas não devo me regozijar com nossa boa sorte, com tantos afetados pela fúria do tenebroso Irma.

 

A região do extremo sul, onde fica Key West, foi a mais atingida, com 25% dos imóveis destruídos. As estradas de acesso ainda estão fechadas e sem data de reabertura. Quem saiu não pode voltar tão cedo, mas quem teimou e ficou está em situação ainda pior, amargando falta de tudo. A pitoresca cidadezinha de Hemingway vai ter que renascer das cinzas, como aconteceu com Nova Orleans.

 

 

A foto que ilustra esse relato é de Navarre Beach, com um belo pier adentrando o golfo.  Na entrada tem um aviso: ‘$1,00 para caminhar; $7,00 para pescar. Pague na volta’. Fui com meu marido, que disse ter os dois dólares no bolso (estávamos caminhando na praia, que não tem vendedor de nada). Na volta, depois de intensa pesquisa para descobrir a quem pagar, Michel percebe que tem no bolso 2 reais. A cobradora aceitou o pagamento e pôs a nota sob o vidro do balcão – porque achou bonita e porque não existe nota de 2 dólares.

A visitante indesejada

170906110327-hurricane-irma-forecast-track-1048-a-m-et-wednesday-exlarge-169

 

Mais um furacão ronda o Caribe e ameaça visitar nosso pacato reduto. A Flórida está em estado de guerra, com filas quilométricas para tudo que se precise e onde quer que se vá, e com os postos de gasolina com filas intermináveis a noite toda. O monstro é caprichoso, tanto pode vir aqui ou passar ao largo, diminuir de intensidade e virar ventinho ou inchar ainda mais. Se a quantidade de água que inundou Houston cair em Miami, tudo vai ficar em baixo dágua.

 

Embora tenha pago US 100 para colocar as placas de proteção nas minhas janelas (depois mais 100 para retirar), outro perigo nos espreita entre trovoadas e ventos enlouquecidos: os saques nos condomínios vazios. Até a polícia se manda, portanto, os corajosos agem livremente, como aconteceu na dramática passagem do Katrina em Nova Orleans. E se quase todo mundo vai pegar a estrada, imagine-se o tempo nas highways engarrafadas. Que na quarta já estão um horror.

 

Minha troupe pretende sair amanhã, com reservas em hotéis distantes da área de risco. No entanto, ninguém sabe ao certo quais são as áreas de risco, pois estamos sujeitos às variações que os furacões sofrem em suas jornadas terra a dentro. Pode ser que a gente esteja deixando uma área ameaçada e fugindo para onde Irma resolva atacar. Sua fúria já fez estragos nas Ilhas do Caribe, com ventos mais fortes que os provocados por um furacão de categoria cinco.

 

Enquanto isso, outro furacão, bem menos ameaçador, atacou Portugal – Madona mudou-se de mala e cestas para nossa Pátria Mãe. Alguns amigos estavam planejando fazer o mesmo, mas desistiram ao saber da novidade – antes era moda, agora está virando invasão. Esperemos que essa minúscula pontinha da Europa, por enquanto livre de terrorismo e das levas de imigrantes sofrendo com políticas mais violentas que os piores furacões, continue a doce terra dos fados. E talvez  Madona cante a velha Lisboa, cheia de encanto e beleza, em seu novo filme.

 

Se as previsões da foto acima se realizarem, Irma passará em Miami com a força destruidora da Categoria 4. Avança na minha direção, e as escolas já fechadas na quarta-feira, bancos e repartições públicas fechando na quinta e sexta, Espero estar bem longe, rezando para que tudo corra bem para todos, principalmente para os muitos que preferem enfrentar a fera a sair de casa. Se essa coluna for publicada, quer dizer que estou bem, obrigada.

O avesso do avesso

cadeados_paris4

Nelson não acredita na sorte porque a vida só lhe reservou o avesso, o que demonstra um temperamento pessimista. De acordo com a genética, ter nascido já foi muita sorte, ganhando essa primeira maratona contra milhões de adversários. E de acordo com os budistas, as chances de nascer como ser humano são ainda mais difíceis. Daí em diante entramos num jogo de sorte e azar em que cada minuto é uma vitória. Basta olhar em volta, ler jornal e ouvir o noticiário.

 
Nelson dos Anjos porém cansou de tudo – os amores deram errado, não gosta do emprego e com a família nunca se entendeu. Em 28 anos de amarga vida nunca deparou com o que as outras pessoas consideram uma boa comida, um bom fim de noite ou fim de semana, um bom programa na televisão ou no cinema, ou um bom livro: a vida só lhe reservou maus momentos.

 

 

Bom ou boa, aliás, são adjetivos que Nelson já eliminou de seu dicionário pessoal. Que dirá os derivados. Por isso desistiu de tudo e foi pras montanhas, fugiu do mundo. Mas não se hospedou em uma  pousada aconchegante servindo broa de milho no café da manhã e licor de jenipapo no jantar. Vou pro mato, me isolar do mundo e das interações sociais, levando apenas a mochila e o celular. Só volto quando a bateria acabar.

 

 

Então vai demorar, porque não chama nem é chamado. Morando no mesmo andar do mesmo edifício, Zilá sempre evita encontrar o vizinho, como todos os demais moradores. Mas um probleminha técnico no apartamento do indivíduo exige imediata atenção – o rádio ficou ligado a todo volume e ninguém consegue dormir. Embora tenham cortado a energia do apartamento, o rádio continua berrando, portanto funciona com bateria, que provavelmente não morre tão cedo.

 

 

Sendo a moradora mais próxima, Zilá é a que mais sofre, e tanto procura que encontra o número do celular do sujeito – o condomínio exige que todos os moradores preencham uma ficha ao se mudarem. Enquanto isso, uma enquete é feita no prédio para saber a opinião dos residentes sobre o problema: o indivíduo realmente esqueceu o rádio ligado ou foi de propósito? Cem por cento dos votos para ‘de propósito’.

 

 

Ruminando amarguras existenciais nas montanhas, Nelson dos Anjos leva um susto quando o telefone toca. Por que toca se nunca dei o número a ninguém? Nem no sigilo telefônico se pode confiar? Atendo ou ignoro? Ignorou, claro, mas como continuou tocando, atende. Uma voz de anjo denuncia a ocorrência, mas a resposta nada tem de suave, Quando voltar desligo. E quando volta? indaga a voz angelical, mas Nelson desliga.

 

 

Os moradores do prédio fazem um esquema de revezamento, ligando dia e noite para o sujeito – ou ele desliga o celular ou também não dorme. Nelson não desligou; não carregava um celular para falar com ninguém, mas além de ranzinza era também hipocondríaco e temia não ser socorrido caso adoecesse de repente. Portanto atende, e é outra vez a voz de anjo, informando que entrou no apartamento e desligou o rádio. Volte quando quiser ou melhor ainda, não volte.

 

 

Nelson, erroneamente chamado dos Anjos, leva um susto. Tem neura de assaltos e a porta do apartamento tem oito cadeados. Como entraram? Zilá explica que o chaveiro da esquina resolveu o problema num minuto. Nelson fica em estado de choque, vendo sua vida invadida e exposta  – não há mais segurança no mundo dito civilizado? Avisa que vai processá-la por invasão de domicílio, e volta correndo.

 

 

Nelson entra no prédio sob vaias dos moradores, e encontra Zilá esperando na porta do apartamento, com uma nova chave mas sem cadeados. O ar das montanhas lhe fez bem, ele emagreceu e ganhou um bronzeado, ficou quase bonito. Nelson se sente desarmado, talvez por perceber a fragilidade de suas técnicas de segurança, ou talvez pelo sorriso da vizinha… Como não reparou nela antes? A voz de anjo pergunta se não sentiu falta de uma comidinha caseira, Fiz um caldo verde, quer experimentar? O aroma vindo da cozinha é convidativo…

Imagem: Cadeados do amor expostos na Pont des Arts, Paris (Google, TV+)

Apagou

eclipse

“E no entanto, ela se move,”  Galileu Galilei

Houve um tempo que se acreditava que o sol girava em torno da terra, que ficava parada, a soberana no centro do mundo. Galileu tentou provar o contrário e se deu mal. Aparentemente desistiu, mas elaborou a frase acima, que entrou para a história. E no entanto, dizem que ele não disse, mas por que não acreditar? Quando essa verdade elementar foi finalmente aceita, muito do orgulho humano caiu por terra, mas nos restou ainda o consolo de um satélite girando submisso ao nosso redor. Nossa dama da noite, a lua, tem sido desde sempre alvo de nossas ilusões e fantasias.

Embora sem brilho próprio, a lua é uma guerreira que soube tirar proveito da luminosidade do sol para se destacar, no que não deve ser censurada, porque essa subtração em nada afeta a exuberância do nosso astro-rei, que continua nos mantendo vivos com sua luz e calor. Outra improbidade dos humanos, chamar de astro-rei o sol que nos aquece, que não é rei de nada – o incógnito infinito está cheio de astros muito maiores.

De vez em quando a lua sai de sua passividade e nos surpreende, como aconteceu agora com o eclipse solar. Uma festa aqui no hemisfério norte, embora em Miami não tenha sido tão exibido como em outras cidades do norte. Houve grande expectativa, e muitos pararam para ver, embora poucos tenham visto. Não fui assistir ao show, mas alguns dos departamentos da universidade onde trabalho ofereceram óculos especiais para que estudantes, professores e funcionários pudessem ver.

Esse foi um eclipse raro e não deveria mesmo ser desperdiçado. Na minha infância alegrense ocorreu um eclipse lunar total e lembro da população local acorrendo em massa para prestigiar o evento. Claro, nesse tempo não tínhamos óculos especiais para proteger os olhos, mas usava-se o truque de passar a fumaça de uma vela sob um vidro, tornando-o fosco. E toda a cidade estava nas ruas, de vidro no rosto, olhando para o céu. Dizem que radiografias fazem o mesmo efeito, mas não vi ninguém olhando para o sol com a foto do pulmão ou de uma perna quebrada.

O próximo só vai ocorrer daqui a 70 anos, portanto, não estarei aqui para escrever outra coluna. Quem viver verá. Como estou apostando que essa nova geração vai chegar aos cem anos com saúde e vigor, espero que meus netos o vejam. E provavelmente vão contar aos colegas que os pais deles viram o último eclipse com óculos especiais, e a avó viu o penúltimo através de um vidro enfumaçado.

Para nossa decepção, em Miami o dia não escureceu de repente, como muita gente esperava, mas lá no Oregon isso aconteceu, e os grilos começaram a cricrilar, pensando que tinha anoitecido. Suponho que as galinhas puseram mais um ovo, coitadas. Embora tenha sido aventada essa possibilidade, nenhuma catástrofe ambiental ocorreu durante as três horas em que a lua, sempre tão submissa, finalmente se encontra com o senhor da Via Lactea.

Que segredos teriam trocado nesse encontro jamais saberemos, mas por certo eles não iam desperdiçar o auspicioso encontro falando que a terra vai de mal a pior. Aposto que os eclipses são mais que simples ocorrências astrais, e portanto assistimos ao encontro amoroso dos dois astros que nos guiam, e nossa vã filosofia e tola incredulidade não alcança. Somos pequenos demais para tanta beleza.

Ele e ela vagam nos céus sem poder se encontrar, como nos antigos romances de amor, cheios de impedimentos para tornar o romance mais valorizado. Talvez uma terrível maldição celeste esteja separando os sol e a lua, mas permitindo um encontro a cada 70 anos, mais ou menos. E assim nascem as estrelas. P.S. Foto do sol quase encoberto pela lua, tirada por  Julia Marques no celular.