Turista acidental

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Retorno de meu exílio forçado de uma semana, no que posso chamar de turismo acidental. Embora as informações obtidas durante a ausência fossem tranquilizantes, encontro um desolador cenário de ruas sujas e outdoor destruídos, os farrapos dançando ao vento feito velas de navio fantasma. As mais afetadas são as árvores, coitadas, tombadas por toda parte, guerreiras derrotadas. Nas calçadas e estacionamentos, pilhas de troncos e galhos ressecados esperam seu destino final – serem tritutados e virar munch de jardim.

 

Quando um furacão enfurecido é detectado, os residentes em sua rota provável têm que fazer a difícil escolha – fugir ou enfrentar? A não ser que haja uma ordem de retirada, claro. Mesmo tendo, há os que teimam e ficam. Com o Irma a ordem foi de alerta, mas quem ficou teve que se fechar em casa: se saísse a polícia levava para os abrigos comunitários. Na esteira do furacão faltou água, luz e gasolina, poucos estabelecimentos abriram, e apenas durante o dia. Quase uma cidade sitiada.

 

Meu pequeno núcleo familiar decidiu pela retirada, e partimos para Navarre Beach, no Golfo do México, uma pontinha estreita no extremo noroeste da Flórida, que promete ser a praia mais sossegada do mundo. Quer dizer, sem badalação, com lojas e restaurantes fechando às 9, e tão distante que muda o fuso horário – são 10 a 11 horas em belas estradas muito bem cuidadas. No entanto, em nossa viagem pré-furacão, gastamos de 20 a 22 horas para chegar, tal o engarrafamento. Isso com postos de gasolina fechados e hotéis sem vagas.

 

Navarre e Navarre Beach, cidades irmãs, estão perto de Pensacola, a última cidade ao oeste na geografia do estado. Na história, porém, reclama o título de primeira cidade americana, fundada pelo espanhol Tristán de Luna em 1559. Mas teve vida curta, e Santo Agostinho, fundada em 1565 no leste da Flórida levou a fama, sendo considerada o primeiro núcleo permanente dos States. Os sacolenses acham uma injustiça.

 

Se a longa retirada foi uma via-crucis, o retorno foi mais rápido e mais tranquilo, mas ainda com muito movimento nas estradas e hotéis lotados. Entre a ida e a vinda, as férias forçadas foram um maravilhoso descanso num local paradisíaco e cheio de charme. Mas não devo me regozijar com nossa boa sorte, com tantos afetados pela fúria do tenebroso Irma.

 

A região do extremo sul, onde fica Key West, foi a mais atingida, com 25% dos imóveis destruídos. As estradas de acesso ainda estão fechadas e sem data de reabertura. Quem saiu não pode voltar tão cedo, mas quem teimou e ficou está em situação ainda pior, amargando falta de tudo. A pitoresca cidadezinha de Hemingway vai ter que renascer das cinzas, como aconteceu com Nova Orleans.

 

 

A foto que ilustra esse relato é de Navarre Beach, com um belo pier adentrando o golfo.  Na entrada tem um aviso: ‘$1,00 para caminhar; $7,00 para pescar. Pague na volta’. Fui com meu marido, que disse ter os dois dólares no bolso (estávamos caminhando na praia, que não tem vendedor de nada). Na volta, depois de intensa pesquisa para descobrir a quem pagar, Michel percebe que tem no bolso 2 reais. A cobradora aceitou o pagamento e pôs a nota sob o vidro do balcão – porque achou bonita e porque não existe nota de 2 dólares.

A visitante indesejada

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Mais um furacão ronda o Caribe e ameaça visitar nosso pacato reduto. A Flórida está em estado de guerra, com filas quilométricas para tudo que se precise e onde quer que se vá, e com os postos de gasolina com filas intermináveis a noite toda. O monstro é caprichoso, tanto pode vir aqui ou passar ao largo, diminuir de intensidade e virar ventinho ou inchar ainda mais. Se a quantidade de água que inundou Houston cair em Miami, tudo vai ficar em baixo dágua.

 

Embora tenha pago US 100 para colocar as placas de proteção nas minhas janelas (depois mais 100 para retirar), outro perigo nos espreita entre trovoadas e ventos enlouquecidos: os saques nos condomínios vazios. Até a polícia se manda, portanto, os corajosos agem livremente, como aconteceu na dramática passagem do Katrina em Nova Orleans. E se quase todo mundo vai pegar a estrada, imagine-se o tempo nas highways engarrafadas. Que na quarta já estão um horror.

 

Minha troupe pretende sair amanhã, com reservas em hotéis distantes da área de risco. No entanto, ninguém sabe ao certo quais são as áreas de risco, pois estamos sujeitos às variações que os furacões sofrem em suas jornadas terra a dentro. Pode ser que a gente esteja deixando uma área ameaçada e fugindo para onde Irma resolva atacar. Sua fúria já fez estragos nas Ilhas do Caribe, com ventos mais fortes que os provocados por um furacão de categoria cinco.

 

Enquanto isso, outro furacão, bem menos ameaçador, atacou Portugal – Madona mudou-se de mala e cestas para nossa Pátria Mãe. Alguns amigos estavam planejando fazer o mesmo, mas desistiram ao saber da novidade – antes era moda, agora está virando invasão. Esperemos que essa minúscula pontinha da Europa, por enquanto livre de terrorismo e das levas de imigrantes sofrendo com políticas mais violentas que os piores furacões, continue a doce terra dos fados. E talvez  Madona cante a velha Lisboa, cheia de encanto e beleza, em seu novo filme.

 

Se as previsões da foto acima se realizarem, Irma passará em Miami com a força destruidora da Categoria 4. Avança na minha direção, e as escolas já fechadas na quarta-feira, bancos e repartições públicas fechando na quinta e sexta, Espero estar bem longe, rezando para que tudo corra bem para todos, principalmente para os muitos que preferem enfrentar a fera a sair de casa. Se essa coluna for publicada, quer dizer que estou bem, obrigada.

O avesso do avesso

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Nelson não acredita na sorte porque a vida só lhe reservou o avesso, o que demonstra um temperamento pessimista. De acordo com a genética, ter nascido já foi muita sorte, ganhando essa primeira maratona contra milhões de adversários. E de acordo com os budistas, as chances de nascer como ser humano são ainda mais difíceis. Daí em diante entramos num jogo de sorte e azar em que cada minuto é uma vitória. Basta olhar em volta, ler jornal e ouvir o noticiário.

 
Nelson dos Anjos porém cansou de tudo – os amores deram errado, não gosta do emprego e com a família nunca se entendeu. Em 28 anos de amarga vida nunca deparou com o que as outras pessoas consideram uma boa comida, um bom fim de noite ou fim de semana, um bom programa na televisão ou no cinema, ou um bom livro: a vida só lhe reservou maus momentos.

 

 

Bom ou boa, aliás, são adjetivos que Nelson já eliminou de seu dicionário pessoal. Que dirá os derivados. Por isso desistiu de tudo e foi pras montanhas, fugiu do mundo. Mas não se hospedou em uma  pousada aconchegante servindo broa de milho no café da manhã e licor de jenipapo no jantar. Vou pro mato, me isolar do mundo e das interações sociais, levando apenas a mochila e o celular. Só volto quando a bateria acabar.

 

 

Então vai demorar, porque não chama nem é chamado. Morando no mesmo andar do mesmo edifício, Zilá sempre evita encontrar o vizinho, como todos os demais moradores. Mas um probleminha técnico no apartamento do indivíduo exige imediata atenção – o rádio ficou ligado a todo volume e ninguém consegue dormir. Embora tenham cortado a energia do apartamento, o rádio continua berrando, portanto funciona com bateria, que provavelmente não morre tão cedo.

 

 

Sendo a moradora mais próxima, Zilá é a que mais sofre, e tanto procura que encontra o número do celular do sujeito – o condomínio exige que todos os moradores preencham uma ficha ao se mudarem. Enquanto isso, uma enquete é feita no prédio para saber a opinião dos residentes sobre o problema: o indivíduo realmente esqueceu o rádio ligado ou foi de propósito? Cem por cento dos votos para ‘de propósito’.

 

 

Ruminando amarguras existenciais nas montanhas, Nelson dos Anjos leva um susto quando o telefone toca. Por que toca se nunca dei o número a ninguém? Nem no sigilo telefônico se pode confiar? Atendo ou ignoro? Ignorou, claro, mas como continuou tocando, atende. Uma voz de anjo denuncia a ocorrência, mas a resposta nada tem de suave, Quando voltar desligo. E quando volta? indaga a voz angelical, mas Nelson desliga.

 

 

Os moradores do prédio fazem um esquema de revezamento, ligando dia e noite para o sujeito – ou ele desliga o celular ou também não dorme. Nelson não desligou; não carregava um celular para falar com ninguém, mas além de ranzinza era também hipocondríaco e temia não ser socorrido caso adoecesse de repente. Portanto atende, e é outra vez a voz de anjo, informando que entrou no apartamento e desligou o rádio. Volte quando quiser ou melhor ainda, não volte.

 

 

Nelson, erroneamente chamado dos Anjos, leva um susto. Tem neura de assaltos e a porta do apartamento tem oito cadeados. Como entraram? Zilá explica que o chaveiro da esquina resolveu o problema num minuto. Nelson fica em estado de choque, vendo sua vida invadida e exposta  – não há mais segurança no mundo dito civilizado? Avisa que vai processá-la por invasão de domicílio, e volta correndo.

 

 

Nelson entra no prédio sob vaias dos moradores, e encontra Zilá esperando na porta do apartamento, com uma nova chave mas sem cadeados. O ar das montanhas lhe fez bem, ele emagreceu e ganhou um bronzeado, ficou quase bonito. Nelson se sente desarmado, talvez por perceber a fragilidade de suas técnicas de segurança, ou talvez pelo sorriso da vizinha… Como não reparou nela antes? A voz de anjo pergunta se não sentiu falta de uma comidinha caseira, Fiz um caldo verde, quer experimentar? O aroma vindo da cozinha é convidativo…

Imagem: Cadeados do amor expostos na Pont des Arts, Paris (Google, TV+)

Apagou

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“E no entanto, ela se move,”  Galileu Galilei

Houve um tempo que se acreditava que o sol girava em torno da terra, que ficava parada, a soberana no centro do mundo. Galileu tentou provar o contrário e se deu mal. Aparentemente desistiu, mas elaborou a frase acima, que entrou para a história. E no entanto, dizem que ele não disse, mas por que não acreditar? Quando essa verdade elementar foi finalmente aceita, muito do orgulho humano caiu por terra, mas nos restou ainda o consolo de um satélite girando submisso ao nosso redor. Nossa dama da noite, a lua, tem sido desde sempre alvo de nossas ilusões e fantasias.

Embora sem brilho próprio, a lua é uma guerreira que soube tirar proveito da luminosidade do sol para se destacar, no que não deve ser censurada, porque essa subtração em nada afeta a exuberância do nosso astro-rei, que continua nos mantendo vivos com sua luz e calor. Outra improbidade dos humanos, chamar de astro-rei o sol que nos aquece, que não é rei de nada – o incógnito infinito está cheio de astros muito maiores.

De vez em quando a lua sai de sua passividade e nos surpreende, como aconteceu agora com o eclipse solar. Uma festa aqui no hemisfério norte, embora em Miami não tenha sido tão exibido como em outras cidades do norte. Houve grande expectativa, e muitos pararam para ver, embora poucos tenham visto. Não fui assistir ao show, mas alguns dos departamentos da universidade onde trabalho ofereceram óculos especiais para que estudantes, professores e funcionários pudessem ver.

Esse foi um eclipse raro e não deveria mesmo ser desperdiçado. Na minha infância alegrense ocorreu um eclipse lunar total e lembro da população local acorrendo em massa para prestigiar o evento. Claro, nesse tempo não tínhamos óculos especiais para proteger os olhos, mas usava-se o truque de passar a fumaça de uma vela sob um vidro, tornando-o fosco. E toda a cidade estava nas ruas, de vidro no rosto, olhando para o céu. Dizem que radiografias fazem o mesmo efeito, mas não vi ninguém olhando para o sol com a foto do pulmão ou de uma perna quebrada.

O próximo só vai ocorrer daqui a 70 anos, portanto, não estarei aqui para escrever outra coluna. Quem viver verá. Como estou apostando que essa nova geração vai chegar aos cem anos com saúde e vigor, espero que meus netos o vejam. E provavelmente vão contar aos colegas que os pais deles viram o último eclipse com óculos especiais, e a avó viu o penúltimo através de um vidro enfumaçado.

Para nossa decepção, em Miami o dia não escureceu de repente, como muita gente esperava, mas lá no Oregon isso aconteceu, e os grilos começaram a cricrilar, pensando que tinha anoitecido. Suponho que as galinhas puseram mais um ovo, coitadas. Embora tenha sido aventada essa possibilidade, nenhuma catástrofe ambiental ocorreu durante as três horas em que a lua, sempre tão submissa, finalmente se encontra com o senhor da Via Lactea.

Que segredos teriam trocado nesse encontro jamais saberemos, mas por certo eles não iam desperdiçar o auspicioso encontro falando que a terra vai de mal a pior. Aposto que os eclipses são mais que simples ocorrências astrais, e portanto assistimos ao encontro amoroso dos dois astros que nos guiam, e nossa vã filosofia e tola incredulidade não alcança. Somos pequenos demais para tanta beleza.

Ele e ela vagam nos céus sem poder se encontrar, como nos antigos romances de amor, cheios de impedimentos para tornar o romance mais valorizado. Talvez uma terrível maldição celeste esteja separando os sol e a lua, mas permitindo um encontro a cada 70 anos, mais ou menos. E assim nascem as estrelas. P.S. Foto do sol quase encoberto pela lua, tirada por  Julia Marques no celular.

Sopa de Letrinhas

Entre o A e o Z se concentram todos os mistėrios da mente humana, no que chamam de síndrome do arroz: nossa mente comprimida entre esses dois extremos, como uma caixinha de comida chinesa. Esse complexo emaranhado de hieroglifos tem a capacidade de se esticar indefinidamente, criando – pasmem, com apenas 26 figuras, uma ode ao gênio humano ou um festival de burrice. Humana, claro, que o burro não sabe escrever. Na pegadinha, Qual a maior palavra do idioma português? a resposta correta é arroz, porque inicia no A e termina no Z.

Alinhadas como formigas a caminho do formigueiro, elas parecem uma despretensiosa sopa de letrinhas. No entanto, unindo-se e atando-se umas às outras, carregam a mastodôntica responsabilidade de preservar a cultura, a história, o conhecimento, as artes, a ciência e, obviamente, as letras. Têm ainda o dom de se embaralhar e trocar de posição e estilo, como ginastas em corrida de revezamentos, adaptando-se a todas à maioria das línguas escritas ou traduzidas no planeta.

Nós, mortais ditos letrados, temos uma relação de amor e dio com as letras, que hora posam de amigas fiéis e companheiras imprescindÌveis, hora são algozes que nos torturam. Pois as mesmas letras, trocando de posição trocam também de sentido, e tanto podem enunciar um prêmio da loteria como a cobrança de uma dívida; o auspicioso nascimento da primeira filha ou a morte de um ente querido.

Um ‘Seja benvindo ‘ ou um ‘Some da minha vista’. Graças a elas nos tornamos civilizados, ilustrados, eruditos. Mas quanto mais evoluÌmos, mais tentamos nos libertar desse jugo. Uma emocionada mensagem amorosa, por exemplo, em tempos remotos era transmitida em uma carta cheia de floreios e subentendidos. E havia as mensagens cifradas, sem letras mas cheias de encanto, com o abano de um leque ou na cor da flor oferecida.

Aí criaram o cartão postal e a mensagem escrita foi encolheu, não apenasa redução do espaço disponivel mas também na essência, pois um cartão não viaja sob a proteção de um envelope. Nesses tempos de alta tecnologia, reduzimos ainda mais o uso das letras na interação social. Uma foto vale mais que mil palavras, disse o fotógrafo. A velha carta hoje se comprime em 14 palavras; ou em uma cifrada mensagem de texto, reduzida em tempos de pressa. Entendemos, comprovando o milagre que, tal como a transformação da água em vinho, transforma 26 letrinhas no incalculável manancial do saber humano.

Com elas escrevo essa coluna, e se o conteúdo difere de tantas outras escritas por tantos outros colunistas, cada uma e cada um tem seu estilo e seus motivos, que serão expressos por essas mesmas figurinhas mágicas, que se tornaram a base de toda interação necessária para nossa sobrevivência na terra e no espaço. Esse poder de transmutação e adaptação afeta os nomes aos quais estamos atados e se tornaram nosso crachá social – Ana ou Zé, Bernardo ou Yara. Para facilitar ou complicar, criaram a famigerada ordem alfabética, causando transtornos emocionais e injustiças culturais. Na fase escolar, nomes começados com as primeiras letras são desastrosos para quem não estudou a lição ou não fez o dever de casa. Pior ainda, são os primeiros nas provas e apresentações orais.

Na vida real a situação se inverte, e nomes começados com as últimas letras deixam seus usuários em desvantagem qualitativa, pois nem sempre é pos[‘0,osível informar, como nos filmes, que os nomes estão em ordem alfabética. Quem se identifica com a inicial W fica por último. Parece que o alfabeto estancou nessa letra – ninguėm mais se chama Xidila ou Zukira. Os nomes das novas gerações no Facebook são estrangeirismos, começam com as primeiras letras. Quando assino Wanda estou informando não apenas meu nome, mas minha idade provável.

A árvore da via

A árvore da via

Retorno aos States depois de merecidas e revitalizantes férias no Brasil, mais precisamente, Vitória, cheia de glória, por falta de rima melhor, com muita chuva e as constantes preocupações com balas perdidas e febre amarela. Tudo correu sem transtornos, ou quase, que se escapamos dessas, somos atacados pela cachumba, ou assim pensamos. Foi alarme falso, felizmente, mas corremos o risco de disseminar a doença no país. Imagina se o Trump descobre.

Outra doença que já deveria estar erradicada, tal como dengue e febre amarela, uma vez que tem vacina. Só falta mesmo criarem vacinas contra balas perdidas. Mas de balas também não nos livramos, pois as malas voltam cheias delas, para alegria dos netos. Uma festa para os olhos, apenas – a gente traz, deixa saborear umas poucas, e logo desaparecem na calada da noite. Alta traição, eu sei, mas criança esquece depressa.

Miramar, de beleza sem par, voltei! No retorno também nos aguardam surpresas desagradáveis. Nem no primeiro mundo nos livramos delas. Pois ao retornar ao local onde labuto diariamente por um punhado de dólares, deparo com um vazio inexplicável, ou melhor intolerável. Pior, abominável – a bela e frondosa árvore que hoje ilustra essas fúnebres lucubrações filosóficas, desapareceu do cenário da minha varanda
.

E da minha vida. Bela e frondosa, a preciosidade foi sumariamente abatida na calada da noite, para evitar protestos e atos agressivos. Ficava ao lado do prédio de dois andares onde uma pequena varanda dá acesso à escada dos fundos. Ali tem um banco de madeira para quem quiser desfrutar dos 15 minutos de descanso que a lei permite no horário de trabalho. Como poucos usam essa entrada, o lugar é sossegado, e ali eu me sentava para apreciar a imensa matrona impoluta. Tinha o efeito repousante de uma meditação.

Na farta galharia apontando o céu aos apressados bípedes que sob ela transitavam morou uma pequena raposa, até que o serviço de desproteção aos animais a removeu, também sem explicações plausíveis, pois não havia atritos entre ela e os humanos. Pelo contrário, paravam todos para tirar fotos e até traziam os filhos para vê-la. Em todo caso, acho que a carnivora animalia estava acabando com a população de esquilos do campus, mas isso é parte da lei da natureza, na qual não devemos nos intrometer.

As raposas das áreas urbanas são chamadas de residentes urbanos carnívoros, e vivem mais que as raposas do mato. São muito comuns na Europa, onde demonstram hábitos modificados, com bandos maiores sobrevivendo em áreas menores. Nossa raposa vivia sozinha, e era meio exibida, acho mesmo que posava para nossas fotos. Foi-se, que a natureza humana tem estranhas vilanias, como derrubar minha velha amiga. Mas não morreu em vão – foi sacrificada para nos dar mais vagas no estacionamento. Viva o homem, gente.

Isso não foi postado no Facebook

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Uma Harley Davidson rodando pelo interior de Alegre, lá pelos idos da década de 50, já devia ser centenária, mas cumpria sua nobre missão de transportar o feliz proprietário, embora a marca não tivesse a fama que tem hoje… pelo menos naquelas ermas paragens. O uso da moto para transporte não foi uma preferência, era apenas falta de recursos para comprar um carro, mesmo velho. E chegou à aprazível cidade de Alegre vinda sabe-se lá de onde.

Criada em 1906, em Wisconsin, a Harley Davidson está em terceiro lugar na preferência dos motoqueiros, mas tem um charme que as outras não têm, como frequentes reuniões dos adeptos pelo mundo todo, sempre em couro preto e mais das vezes aos pares, e tem até museu. Em 1998 ela chega oficialmente ao Brasil, em Manaus. A primeira fábrica fora dos Estados Unidos, criada para atender o mercado do hemisfério sul.

Mas a moto que marcou minha vida chegou muito antes, e como já revelado acima, era bem velha, com os parafusos se soltando nas estradas cheias de costeletas, como pipoca pulando com o calor do fogo. Além de consumir pouco combustível, a poderosa enfrentava sem problemas qualquer estrada ou a falta de estradas, sendo muito apropriada para a incipiente carreira de caixeiro-viajante do proprietário, que superava qualquer obstáculo para vender seus produtos.

Hoje a profissão é chamada Representante Comercial, e seus adeptos não mais desbravam o interior do estado correndo atrás de possíveis fregueses. As viagens são na Internete. Na peça ‘A morte do caixeiro-viajante’, Tennessee Williams valorizou o ofício; antes tais abnegados eram chamados de mascates num sentido pejorativo, embora fossem uma evolução dessa forma de comerciar. Em mundos opostos, o caixeiro-viajante da peça sucumbe à depressão americana e percebe que vale mais morto do que vivo para a família.

O caixeiro-viajante em terras capixabas tinha dois objetivos: vender seus grampos de cabelo, Brilhantina Royal Briar, Leite de Rosas, Linha Clark, Lâminas de Barbear Gillete, mas também impressionar a namorada alegrense, então professora primária nos confins do município. Mas a moto não andava muito bem das rodas e na cidade havia um exímio mecânico, capaz de consertar qualquer tipo de veículo, de caminhão a carroça.

Sem problema, disse o mecânico, Deixa a moto aí e vem buscar amanhã. Dia seguinte lá vai o viajante, e encontra sua moto na calçada, como se atingida pela ameaça bíblica de Jerusalém – não ficará pedra sobre pedra. Ou seja, totalmente desmontada – peça por peça, parafuso por parafuso, tudo alinhadinho em perfeita ordem de espécie, tipo e tamanho. O moço põe a mão na cabeça, desesperado, Tem certeza que vai conseguir juntar tudo isso outra vez? Claro, volte amanhã.

O ‘Volte amanhã’ se esticou por semanas, depois meses, com as peças arrumadinhas na calçada sob o sol e sob a chuva, vento brando e ventania. O moço explicava que precisava da moto para garantir suas comissões mensais; já havia vendido para todos os comerciantes da cidade e precisava ir em frente. E o mecânico impassível, Pode confiar, volte amanhã. O moço teve que continuar sua romaria profissional da forma mais humilhante, chegando nas cidades e lugarejos de ônibus.

Mas voltava sempre para ver se sua moto, e constatava que as peças na calçada iam sumindo aos poucos – hoje um parafuso ou dois, amanhã um guidão, um pedal de freio… até restar apenas algumas manchas de óleo na calçada. A única a se beneficiar com o triste fim da primeira Harley Davidson a rodar nas ruas de Alegre foi a professorinha – com tantas idas e vindas do infeliz caixeiro-viajante para tentar recuperar sua moto, acabou fisgado para sempre – estamos juntos até hoje.

O tempo entre as vírgulas

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Revendo as duas mil colunas que já publiquei nesse valente século diário, concluo que nesse auspicioso dia 25, final de julho, estou autorizada a abrir uma garrafa de champanhe e comemorar o dia do escritor. Na fila dos anônimos, mas persistente. Comigo, virtualmente, comemoram milhões de outros operários da palavra, que como eu se orgulham de espremer os miolos e tirar leite de pedra para produzir alguma coisa que vá além dos relatórios mensais nas empresas em que nos disfarçamos de operário-padrão.

Nos intervalos, ou enquanto o chefe confere emails, brota um poeminha singelo para comemorar o primeiro beijo, para chorar o primeiro fora, ou a sementinha de uma obra que vai mudar os rumos da literatura ou do mundo. Que sem sonhar nenhum escritor consegue ir além do primeiro parágrafo, com a vírgula plantada no lugar errado. As variações entre os profissionais da palavra são tão vastas quanto o número de livros já impressos.

Enquanto rabisco essa página, a televisão me informa que Harry Potter é o campeão dos fabricantes de sonhos – o livro mais vendido de todos os tempos, e com mais dois rebentos em breve nas bancas. Os fãs se ufanam. A maior mágica do pequeno mágico foi fazer o mundo voltar a ler. Correndo na raia oposta, um novo aplicativo inventado em 2013 está criando o milagre oposto: fazer as pessoas lerem menos, e não estou falando do Twitter.

Após intensas pesquisas, uma editora de livros digitais descobriu que o cidadão comum tem apenas 15 minutos por dia para ler. Portanto, criou um aplicativo para baixar leituras compactadas – resumos e comentários de 2.000 livros, por enquanto apenas não-ficção, para serem lidos em 15 minutos. E já alcançaram 2 milhões de leitores por dia. As chamadas do brinquedinho dizem, “Você já leu quatro livros em um só dia?” Ótimo para nossos vestibulares e concursos públicos, e que eu chamaria de literatura anã.

Se a moda pega e a editora invadir as demais áreas da criatividade literária, por que vamos perder anos suando e perdendo o sono escrevendo um romance épico de 590 páginas sobre a guerra dos banquinhos, se posso resumir minha obra antes mesmo de criá-la? Andy Warhol disse que no futuro, cada um terá seus 15 minutos de fama. Agora que o futuro chegou, nada mais lógico que investir nos 15 minutos de leitura.

Quando perguntados sobre a fonte de sua inspiração, os escritores enumeram tantos modos de criar uma obra de ficção quanto há palavras impressas no mundo. Bram Stoker, criador do Drácula, o personagem mais explorado no cinema e na literatura, comeu uma carne estragada no jantar e teve pesadelos horríveis com seu futuro personagem. Muitas obras famosas nasceram de uma frase ouvida ao acaso, ou como aconteceu com Saramago, da manchete de jornal que ele leu errrado. E como hoje em dia tudo é massificado, as editoras mudam tanto o livro que o autor, ao final, nem o reconhecem.

Grandes obras famosas foram baseadas ou inspiradas em frases e obras alheias, tipo Hollywood, que atualmente investe mais nos remakes do que já deu certo. Mais um livro do Drácula? J. K. Rowling havia decidido parar com as aventuras do Potter, mas lá vem mais um… e dois. E por que não? Se continua faturando horrores, parar por quê? Muitos críticos insistem que a maioria das grandes obras nasceram de grandes tragédias pessoais, mas há grandes livros cujos autores são almas pacatas, que nada viveram de interessante ou trágico na vida.

Para comemorar a data, algumas frases que eles disseram entre as vírgulas de suas grandes criações: “Quando eu digo trabalho, estou me referindo a escrever. Tudo mais é mera ocupação” —Margaret Laurence; “A diferença entre uma palavra quase-certa da palavra certa é como a diferença entre o vagalume e um raio”—Mark Twain; Não é da conta de ninguém se você precisou aprender a escrever; deixe que pensem que você já nasceu escritor” —Ernest Hemingway. E Augusto dos Anjos disse tudo, ‘Eu’.

(Imagem: leitura.com)

O presente

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Após recebermos o primeiro e mais valioso presente – o dom da vida, muitos outros se sucedem, alguns poderosos como um bom genes, alguns corriqueiros, como um bom-dia de um estranho no elevador; alguns preciosos, como o sorriso de um filho, alguns singelos, como uma sabiá cantando na janela do vizinho. E os que mudam o rumo da vida, como deparar numa esquina com a outra-metade que nem estava procurando. Um presente pode vir com papel colorido e laço de fita, ou disfarçado num embrulho despretencioso.

Um dos melhores presentes que recebi na vida chegou assim, numa sacola amassada do Kmart, na época a maior cadeia de lojas da América, depois massacrada pelo Walmart. Para entender o valor desse presente, retrocedo no tempo como num flash back de filme. Ano da graça de 1975, minha primeira viagem internacional com grandes espantos, como o tamanho do Boeing, e grandes problemas, como não falar inglês, com três filhos doentes em terra estranha, recusando-se a comer tudo que a culinária americana oferecia.

Descobrir o McDonalds foi também um presente, e se hoje filhos e netos desprezam o rei dos fast-foods, informo que sem ele teriam todos ido parar num hospital, desidratados. Na época, foi uma festa e um luxo. Indo passar dois anos em Columbia, na Carolina do Sul, na sacola dos remédios imediatos levei pílulas anticoncepcionais na quantidade que os prazos de validade permitiam, mas que não cobriam o tempo da estada. Portanto, quando o estoque estava para acabar, marquei consulta médica para obter uma receita. Por algum motivo a consulta foi adiada.

A própria viagem foi um presente da sorte – Michel terminou o curso de direito na Ufes e conquistou uma bolsa para fazer mestrado numa faculdade internacional com estudantes de todas as raças, cores e credos – o que na época foi também um grande espanto. Morávamos nos apartamentos da faculdade, e a vizinha mais próxima era uma bela francesa liberada, mãe solteira, e a única pessoa do sexo feminino com quem se relacionava era eu – todas as outras a evitavam, temendo a estabilidade de seus lares.

Um dia ela me aparece com o primeiro presente: uma velha máquina de costura para reajustar as roupas dos filhos se esticando a olho nu. E me avisou, É sua, mas com uma condição, não empreste a nenhuma delas. ‘Elas’ eram as amigas brasileiras, que a odiavam. Algum tempo depois, não sei como, descobriu que fiz um remendo na roupa de uma delas, e mesmo com minhas desculpas de que não emprestei o instrumento, usei-o eu num breve cerzido, a preciosa máquina foi retirada para sempre.

No entanto, antes de voltar para a França, ela me deu um dos melhores presentes que recebi na vida – uma sacola de supermercado com alguns vidros de pílulas anticoncepcionais. Com um sorriso irônico, ela diz, Como vê, suas amigas não precisavam ter se preocupado tanto. O presente foi uma boa economia – cancelei a consulta médica e não precisei comprar o remédio, caro e em dólares. Verifiquei as datas de validade dos vidros, mas não todos. Foram doados por uma pessoa esclarecida, e se dois ou três estavam com bastante prazo, todos os demais estariam.

Graças a esse descuido, voltei ao Brasil com Jennifer nos braços, com um mês de idade, passaporte tirado às pressas e sem visto de entrada no Brasil. Quase se chamou Carolina, numa homenagem ao estado em que nasceu. As autoridades americanas tentaram barrar minha retirada, alegando que não permitiriam a entrada da menina no país sem o visto e eles não me aceitariam de volta, pois meu passaporte já estava vencido. Teimei, arrisquei e venci – deu trabalho, horas retida nos portões do paraíso, e por fim autorizaram uma entrada temporária, devendo regularizar a situação da criança imediatamente.

Levou anos para a situação de Jennifer ser legalizada no Brasil, mesmo tendo frequentado escolas e voltado várias vezes aos Estados Unidos, simplesmente porque ninguém sabia como proceder. Somente 20 anos depois, querendo atravessar a fronteira Foz do Iguaçu e Paraguai, encontramos um competente agente da alfândega local que soube resolver o problema. E serei sempre grata pelo presente enviado por Deus numa sacola do Kmart – um vidro com a validade vencida entre os dez que ela me deu.

Era meia-noite e chovia…

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Era meia-noite e chovia

Bate o relógio as 12 horas, mas não há sol nem céu azul. A claridade que me ofusca vem de lâmpadas VR-Ióden equilibradas no topo de altos postes de alumínio, eretos feito soldados prestando continência ao chefão do quartel. Dia da revista. Mas não há soldados nem policiais me acompanhando nessa jornada noite a dentro, e as 12 horas batendo no relógio indicam a meia-noite, que por algum erro de adaptação coletiva não consideramos o meio da noite.

Se estivesse em Londres, o perigo se esconderia sob o denso nevoeiro que cobre a cidade mal iluminada – tal como acontece nos romances policiais, onde figuras encolhidas, imprecisas, com nomes impronunciáveis pela escassez de vogais varam a noite na esperança de se tornarem personagens de um filme noir. Mas o noir, do francês noite, se aplica melhor a filmes americanos com tramas nunca bem explicadas. Só sabemos que tudo deu certo porque o filme acabou.

Mas não estou na Inglaterra nem falo francês, e apenas o tamborilar da chuva acompanha meus passos apressados, e o perigo se esconde nos becos de portas fechadas se sucedendo sob marquizes arruinadas, cada uma abrigando uma sombra – que pode ser um mendigo tremendo de frio ou um assassino à espreita. Mas não faz frio, apenas a chuva dá o toque de mistério na noite sombria. Carros não passam, vozes não soam, e o medo é mais tangível do que meus passos ressoando nas calçadas quebradas. Ou meu coração acelerado. Ou estou imaginando coisas.

Mas de repente uma figura escura emerge das sombras, os braços agitados no ar como a manusear cimitarras, emitindo sons guturais. A tremedeira não me deixa distinguir se é um fantasma ou um assassino, e o terror me assalta. O vulto corre em minha direção e preciso reunir todas as minhas forças para fugir, embora ninguém entenda como se pode reunir todas as forças ou definir que forças ocultas são essas. Fujo desesperada para algum lugar onde os postes clareiem a noite e a chuva incessante não me congele a alma.

Onde o perigo antes pressentido e agora se materializando ao meu redor seja apenas uma projeção insana da minha mente idem. Mas a voz gutural me acompanha, me persegue, e fujo em desespero. De repente o chão desaparece de sob meus pés – é um terremoto ou virei passarinho. Antes de ser devorada pelo negro abismo ouço um grito avassalador saindo da minha própria boca. Não lembrei de pedir a Deus perdão pelos meus crimes, mas pude ver perfeitamente meu nome na sessão policial dos jornais da manhã. Morte deprimente.

Ana Ruga já passou dos oitenta, mas ainda é temida pelos outros mendigos e respeitada pela polícia que ronda o centro – ninguém mexe com ela. Mas de vez em quando faz o bem sem ver a quem – as obras do viaduto ali do lado estão paralizadas, as verbas desviadas sabe-se bem por quem, as placas de trânsito-interrompido roubadas pra fazer barracos, e vez ou outra um bêbado despenca no vazio. Ela bem que tentou avisar, mas o defunto da vez não lhe deu ouvidos.