Arrogância também conta?

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Nesse mundo ou nos outros, caso existam, tanto as grandes empresas como os grandes países seguem um ciclo, e quem é grande hoje pode deixar de ser no próximo milênio ou no próximo século. Isso está tirando o sono dos americanos, e nada como um bom businessman para pôr a casa em ordem ou bagunçar de vez. É pagar pra ver no que vai dar.  Não que o barco esteja fazendo água – os States continuam na vanguarda como a maior economia  do mundo, numa corrida de obstáculos onde a segunda colocada, a China, está cada vez mais perto. Em breve a situação se inverte, e não há mágica que Trump possa fazer para mudar esse quadro.

 

Los brasileños  continuam no nosso eterno oitavo lugar,  sempre acomodado em berço explêndido, e com a vida correndo de mal a pior, como sempre. Enquanto isso, a distante Índia, que sempre foi sinônimo de pobreza, já  passou por nós e ocupa o sexto lugar no ranking. No ítem educação, que considero o mais importante para levar um país adiante, os Estados Unidos não estão entre os dez primeiros. A Finlândia é a campeã, seguida do Japão, Coreia, Dinamarca, Rússia. Brasil? Nem em sonhos ficamos entre os 100 primeiros.

 

Na qualidade de vida, a Finlândia outra vez sobe ao pódio, seguida pelo Canadá, Dinamarca, Austrália, Suíça.  Na melhor expectativa de vida Mônaco tira de letra com 90 anos, com Macau no segundo lugar, com 84 anos.  Macau?! Quando foi que vimos essa pequena ilha nas costas da China aparecendo nas estatísticas? Segundo dados oficiais, lá falam português, mas o mandarim predomina entre as massas. Os Estados Unidos não aparecem nos 10 primeiros lugares. Last but not least, ou seja, o último mas não menos importante, temos os melhores países em geral, e a Suíça brilha no primeiro lugar, seguida do Canadá, Alemanha, Inglaterra, Japão, Suécia, Austrália. Os Estados Unidos pegaram um fraco oitavo lugar. E nós? Kkkk.

 

Perder para os eternos campeões, como Suíça, Canadá, Inglaterra, não mata ninguém de vergonha. Mas ver países que nunca apareceram nesse rank passando por nós e dando adeuzinho, dói. Mas temos o melhor futebol do mundo (cabe um sic?) e o mais alto grau de calor humano. Haja desodorante. É o que sempre ouvi dizer, embora não levem isso em conta quando avaliam os fatores essenciais para uma vida digna e produtiva. Para o presidente americano arrogância também conta, mas até agora nada foi feito para diminuir os tiroteios nas escolas, que põe o país atrás na qualidade de vida. Mas qual político ousa contrariar um grupo tão poderoso como as empresas de armamento?

 

Mas não vamos dizer que nunca aparecemos nos primeiros lugares, seja lá do que for. Corrupção também conta?

Sem poluição não tem salvação

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Ilustração: Victor Frizzera, 11 anos. O cartaz garante: Não tem poluição

 

Carmem, futura candidata ao Nobel da limpeza, resolveu despoluir a casa. Convocou o marido, os filhos, e partiu pra guerra contra os excessos, Hoje só almoça quem me trouxer uma sacola cheia. Ninguém  reclamou, achando a ideia interessante, genial na verdade, e cada um pegou uma sacolinha do Walmart no depósito de sacolinhas vazias do Walmart. Nada disto, Carmem protesta, determinada a ir fundo no problema, e distribui sacolões de plástico preto onde caberia até o sofá da sala.

 

O marido protesta contra o desperdício, uma vez que sacolões de lixo são comprados e as sacolinhas  do Walmart são gratuitas. Ainda não estão cobrando, que eu saiba. De acordo com as estatísticas, uma família de quatro integrantes vai a um supermercado quatro vezes por semana. Em média, quer dizer, tem semana que vão mais, embora nas semanas que vão menos comprem dobrado. O debate sobre qual sacola usar durou meia hora, mas Carmem venceu, Comprei no Frisco e não vou devolver.

 

A América está cada vez mais pobre: depois da gloriosa invasão das lojas de um dólar, sempre lotadas, agora chegou a vez dos supermercados econômicos, onde não embalam e vendem mercadorias tipo genérico, marcas desconhecidas em embalagens mais simples, poucas variedades, poucos atendentes, sem sofisticação e sem música ambiente latina.  Tá dando certo – vivem cheios e Carmem até diminuiu as idas ao Walmart. Embora o sucesso do Walmart já tenha sido também um reflexo da decaída no poder aquisitivo da população, como dizem os economistas.


Mas ainda é cedo para desesperar, uma vez que o Trump está tornando a América rica outra vez. Se não os americanos, pelo menos ele. Disse alguém: Mora numa torre dourada, tem um helicóptero esperando no telhado, e casou com uma modelo 30 anos mais jovem, por que não votaríamos nele? E para não esquecer que o assunto da coluna é a poluição, voltamos à casa da Carmem, onde ocorre intenso combate à poluição doméstica, responsável por 40% da ambiental.

 

Cada um com sua sacola e seus excessos, e o relógio correndo atrás – meio dia e ninguém conseguiu encher sequer 2% do buraco negro, ou seja, o sacolão. Reclamações generalizadas, Podem comer uma banana, Carmem autoriza. Duas horas: Coca-cola para todos. Os dois filhos aproveitam uma distração da mãe e atacam o macarrão de ontem na geladeira. Frio, porque se usarem o microondas ela ouve. Estranho como ainda não inventaram um microondas cuja porta não faz barulho ao fechar. Os vizinhos contam quantas vezes o microondas é usado na casa da Carmem.

 

Desnecessário mencionar que o ataque aos excessos familiares ocorreu no sábado, e os celulares começam a receber estranhas mensagens cifradas – E o cinema que combinamos? (namorada do filho) A gente não vai ao boliche? (namorado da filha), O jogo já começou, estamos assistindo no Hooter (amigas da Carmem), Reunião mensal do clube do livro, 15 minutos atrasado (lembrete automático no celular do marido).

 

Não dá mais pra suportar, explode coração. Carmem dá a faxina por encerrada e as quatro sacolas que não conseguem ficar em pé, totalmente desnutridas,  vão para a lixeira, poluindo ainda mais o meio ambiente. Vão todos para o mesmo shopping, cada um no seu carro, onde os eventos mencionados acima já estão ocorrendo.  E o mundo não vai acabar por causa disto. Humm, sei não.

 

Com muitas flores

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Como tem acontecido todos os anos, em maio comemoro mais um aniversário. Eu sei, acontece com todos que estão vivos, às vezes até com quem não está. E tem muita gente que estaciona em uma certa idade, comemorando os mesmos 38 anos pelo resto da vida.  É a temida virada dos 40 – depois que entra nos ‘enta’ não sai mais. Diferente dos outros aniversários, porém, 2018 me presenteia com 80 anos de vida. E vamos em frente.

 

Gente famosa com 80 anos: atores Claudia Cardinale, Connie Francis, Elliot Gould, Christopher Lloyd, Michael Murphy, Jon Voight, John Dean, Liv Ullmann; escritores Joyce Carol Oates, Lynn Margulis, Alan Coren, Judy Blume, Mary Frances Berry; cantores, Kenny Rogers, Etta Jones, Alan Vega, Bill Withers. Tem gente que mesmo em idade tão vetusta continua fazendo de tudo, e fica difícil classificar: Connie Francis, Nico, Pat Buchanan. O que têm eles a ver comigo? Nascemos todos em 1938.


Se rir prolonga a vida, vamos comemorar rindo da velhice alheia. Bob Hope: A gente sabe que ficou velho quando as velas custam mais que o bolo. Faith Baldwin: O tempo é um costureiro especializado em reformas. Lucille Ball: O segredo de permanecer jovem é viver honestamente, comer devagar e mentir sobre sua idade. Bernard Baruch: Para mim, velho é quem tem mais 15 anos do que eu. George Burns: Não revelo minha idade, mas quando eu era jovem o Mar Morto ainda estava vivo. 

 

A vantagem é que a gente não precisa do Google pra lembrar o que aconteceu em 1938. Janeiro: Primeiro concerto de jazz no Carnegie Hall, Londres (Benny Goodman). Fevereiro: Primeira apresentação pública de TV a cores, por Baird também em em Londres. Março: Primeiro noticiário radiofônico transmitido pela  CBS Radio, dos Estados Unidos. Abril: Roy J. Plunkett inventa o Teflon. Maio: Estreia o primeiro filme do Robin Hood, com Errol Flynn e Olivia de Havilland. Junho: Superman aparece pela primeira vez na DC Comics. 

 

Julho: Howard Hughes dá a volta ao mundo em 91 horas. Agosto: Um filme é  lançado  pela primeira  TV, “O estudante de Praga”, pela BBC de Londres. Setembro: Uma cápsula do tempo é enterrada na Feira Mundial de Nova York, para ser aberta em 6939. Quem viver verá. Outubro: Os Estados Unidos proíbem o trabalho infantil nas fábricas. Novembro: Crystal Bird Fauset é a primeira negra a se eleger ao senado americano. Dezembro: Dr. R.N. Hargers inventa o bafômetro.  

 

Pra não dizer que não deixei boas dicas para meus jovens leitores, aqui vão dois conselhos para chegar bem aos cem anos:  Você só é jovem uma vez, mas pode continuar imaturo indefinidamente (Ogden Nash); Os primeiros cem anos são os mais difíceis (Wilson Mizner).

 

Para, relógio

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Temos uma interação de amor e ódio com os relógios. Digo amor porque estamos sempre procurando por eles, portanto só pode ser amor. Digo ódio porque eles sempre contam o tempo ao contrário – quando precisamos de tempo eles correm mais que nós, e quando não precisamos eles não andam. Os relógios foram inventados para nos servir e facilitar a vida – o tempo dividido em fatias mínimas e máximas. Aos poucos a situação foi se invertendo e hoje somos os escravos e eles nossos algozes.  A pergunta mais repetida no mundo: Que horas são? Padre Nosso e Ave Maria.

 

Ao nascer somos condicionados a esses retalhos de tempo: horas certas para as mamadas e as sonecas, refeições controladas pelo bater das horas. Depois vem a escola, o lazer, o trabalho… e como um feitor de chicote na mão, o relógio dita as regras. Claro que tentamos escapar, mas na maioria das vezes, ele vence. Fernando Pessoa foi um dos que se rebelaram: “Relógio, morre — Momentos vão. Nada já ocorre – ao coração.” Em vão, claro.

 

Já que nos preocupamos tanto com as horas, por que não nos adaptamos a elas? As frases mais ouvidas em qualquer momento ou lugar: Estou atrasada/o, Agora não tenho tempo, Perdi a hora, O tempo não para, Cadê tempo? Tempo é dinheiro. Perdi meu tempo…  nesse projeto, nesse relacionamento, nessa viagem, nesse emprego. “O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família,” disse Mário Quintana.

 

Marília olha para seus 145 relógios, todos de marcas famosas, arrumados na gaveta como se estivessem na vitrine de uma loja fina. Mesmo assim está sempre atrasada para tudo. Quando era pobre tinha apenas um relógio, baratinho, baratinho, mas sempre certinho. Marília tinha tempo para tudo, portanto, quanto mais relógios uma pessoa tem, menos tempo lhe sobra. Donde se conclui que os relógios são sinistros devoradores de  nosso tempo.

 

A vingança tarda mas não falha: a  nova tecnologia está acabando com os relógios. Teremos, portanto, todo o tempo do mundo? Nem pensar, que pensar gasta muito tempo. Os relógios concretos, sejam de pulso ou de parede, estão sendo desbancados pelo relógios abstratos, embutidos nos celulares e computadores. A guerra foi declarada, e os relojoeiros revidam criando modelos e marcas cada vez mais elegantes e sofisticadas – o relógio deixa de ser um objeto de contar o tempo para se tornar joia, símbolo de sofisticação e estatus.  

 

Minha casa está infestada de relógios virtuais – no fogão, no microondas, na televisão, no computador, no laptop, no telefone fixo ou no virtual… para onde olho, um marcador de tempo me espia, vigia, controla. Lutar contra essa ansiedade horária é perda de tempo, e quem perde tempo é otário ou chega atrasado. E já estou atrasada com esse texto que francamente, é uma perda de tempo.

 

Uh, Houston, temos um problem

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A garota se chama April, que significa Abril, o quarto mês do ano. Isso também significa que já chegamos à terça parte do ano que mal começou e vai de bem a melhor para uns poucos, de mal a pior para muitos. Como todos os anos. April não nasceu em abril, mas ganhou esse nome por causa da Apollo 13, a missão que quase deu errado. Quase é um oceano entre o certo e o errado, o ótimo e o péssimo. Se nesse país os prédios não põem o número do azar no 13o. andar,  por que não batizaram o foguete Apollo 14?

 

Apesar dos muitos pesares a missão deu certo, entrando para a história, ganhando filme e músicas. A frase ficou famosa, embora alterada para melhor efeito. O astronauta Jack Swigert teria dito, Uh, Houston, nós tivemos um problema. No filme, porém, acharam que a frase correta não provocaria calafrios, parecendo que o problema  já tinha sido superado. Houve, já não há, devia, já não deve. Erro de conjugação ou descuido? Os  problemas estavam apenas começando, e foram 90 horas de muito aperto para salvar os envolvidos numa aventura que tinha tudo para dar certo.

 

É  o que chamamos de imprevisto. Por mais segura que seja a cirurgia, a transação, o evento, a apresentação, o casamento, o tal imprevisto se intromete e atrapalha. Coitado, foi arrancar um simples dente cariado… como imaginar que poderia dar errado? Em 13 de abril de 1970, a espaçonave apresentou um probleminha técnico que quase pôs a perder alguns bilhões de dólares. E as três vidas humanas? Inestimáveis. Durante quatro dias, o mundo acompanhou uma tremenda batalha técnica para trazer a Apollo de volta à terra. Sã e salva.

 

Mas quem navega o espaço ignoto num foguete deve estar preparado para tudo, por mais otimista que seja e por maior que seja o espírito aventureiro. Imaginem se parássemos de viajar de avião porque algo pode dar errado, se até andando a pé a gente pode cair no buraco e acabar a história? Foi o que aconteceu com a April, que numa esquina da vida depara com um sujeito chamado Apolo. Não fosse a coincidência dos nomes, teriam passado e cada qual seguiria seu rumo. Os estudiosos deveriam realizar um estudo sobre a influência dos nomes nos relacionamentos amorosos.

 

April não julgou necessário perguntar, era óbvio que o nome do jovem também homenageava a famosa espaçonave. E mais apaixonada ficou quando soube que ele nasceu em abril, embora no dia 10, e não 13. A sorte ajudou, pois o Apolo é um sujeito educado e de boa família, bem relacionado no trabalho e na vizinhança. Foi quando já estavam pensando em noivado que Apolo levou April para conhecer sua família. Gente lá do interior das Minas Gerais, que na verdade nunca tinha ouvido falar em viagens futurísticas, fosse pra lua ou pra Mariana Trench.

 

Qual não é seu desgosto ao descobrir que o nome do rapaz é Apolônio, homenagem ao avô paterno. Com tanta música no mundo, já fizeram alguma com alguém chamado Apolônio? Tipo, O Apolônio nos convidou pra um samba, ele mora no Brás / Nós fumos, não encontremos ninguém. Quando Apolônio chegou no apartamento da April no dia seguinte não encontrou ninguém nem havia recado na porta. Mas não julguem a garota precipitadamente, que apesar da profunda decepção, ela saiu apenas para fazer as unhas.

Palavras ao vento

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A facilidade de aprender um idioma é um dom, como ter boa voz ou tocar um instrumento musical. E ganhar a vida como tradutor/a de textos, um meio de vida lucrativo, principalmente quando são muitas palavras. Mas não tem que ser gênio para traduzir textos. Na minha infância tinha uma cantiga de roda que perguntava, Que ofício darás a ela? Ela, no caso, era a pessoa dentro da roda. Os ofícios naquele tempo não variavam muito, e ninguém lembrou de me dar o ofício de tradutora.

 

Quem ainda se lembra das cantigas de roda dos idos tempos sem televisão e computadores? Parece filme de terror, mas esse tempo existiu de fato, e não era nada ruim. Trabalhar como tradutora também não. Mas como em qualquer ofício, existem tradutores e Tradutores, e nem todos têm a  sorte de traduzir Harry Potter. Mas qual a diferença? Se um livro vende dez milhões de exemplares ou encalha e só a família compra, o preço é o mesmo?

 

Embora trabalhe há anos como tradutora, nunca traduzi obras para editoras, então só me resta imaginar como deve ter sido. Chegou aqui um livrinho infantil, quer traduzir? pergunta o editor. Livro infantil paga pouco… poucas páginas, reclama a desanimada tradutora. Não tem nada mais volumoso? O editor acha que os tradutores estão muito seletivos,  Livro infantil traduz rápido e criança nunca reclama de tradução incorreta. E quem pega um ganha as possíveis sequências. Livro infantil tem sequência? Ela pergunta, Ainda não dei a sorte de pegar nenhum.

 

Mesmo assim a tradutora aceita, não quer perder o emprego. E acertou no milhar, que era o modo de dizer que ganhou no bicho. Para variar, o nome dela é Etelvina, a mesma daquele sambinha, alguém conhece? “Etelvina, acertei no milhar / Ganhei duzentos contos, não vou mais trabalhar”. O primeiro livro do Harry Potter tinha 76.944 palavras, um tamanho razoável. As páginas foram crescendo à proporção que crescia o sucesso do mago, e o volume mais gordinho tem 257.095 palavras. Se você leu os sete livros da série, devorou mais de um milhão de palavras. E os fãs ainda acham pouco.

 

Esse ano a conta bancária da J. K. Rowling atingiu a casa do bilhão, portanto, ela ganhou mil dólares por cada palavrinha que escreveu. Quanto à desiludida Etelvina, pra traduzir os sete livros ganhou 0.15 centavos de dólar por palavra. Ou menos, pois provavelmente os editores pagam por livro e não por palavras. Não ficou bilionária, mas fez seu pé de meia. Outro gigante das palavras, Guerra e Paz, tinha 1.238 páginas, num tempo sem  máquinas de escrever, computadores e impressoras. Nem tinham inventado os líquidos corretivos e corretores automáticos, menos ainda contadores de palavras – com ou sem espaço.

 

Donde se conclui que a modernidade atrapalha. Se pudesse ter contado as palavras Tolstoi teria sido mais  comedido? Em tendo que pagar os tradutores por palavra traduzida, muitos autores encolhem a obra – e a imaginação. As restrições do mercado também não deixam as ideias fluírem livremente: para autores novatos, as editoras só aceitam livros magrinhos, como o primeiro livro da Rowling. Até ficar famosa e passer a ditar as regras. Sendo Guerra e Paz um dos livros mais famosos e mais lidos do mundo, quanto teria ganho Tolstoi nos dias de hoje?

 

Dia da gente

Ogente4 O ano precisaria se esticar para 720 dias para caber todos os que merecem ser homenageados – dia desse e dia daquele, dia dessa e dia daquela. Como ninguém quer mudar o calendário, consagro o dia 31 de fevereiro como o dia da pessoa. Ou seja, nosotros. O ser anônimo e sempre presente, seja para consertar a torneira pingando ou para inventar a vacina contra preconceitos. Eu, você, a vizinha, o padeiro. O chefe e o subordinado, o patrão e o empregado, o inquilino e o proprietário, o assaltante e o assaltado.  Tudo gente boa.

 

Onde encontrar? Fora situações especiais ou de risco, a pessoa pode ser encontrada em qualquer lugar e em qualquer das 24 horas horas marcadas nos relógios. Mais frequentemente, porém, são vistas nas ruas nos horários diurnos, escasseando mas não desaparecendo nos horários noturnos. Variam porém nas formas de locomoção, podendo usar veículos, animais, ou caminhar por conta própria. Sozinhas ou em grupos, também varianndo em quantidade e qualidade. Ou estarem juntas mas sozinhas, cada uma por si mas nos mesmos lugares.

 

O que fazem? Em tendo alcançado a exagerada casa do bilhão, poderíamos dizer que fazem de tudo e mais um pouco. Mas a resposta correta seria: vivem. Se a Escola de Sagres decretou: Navegar é preciso, Confúcio disse antes: Viver é preciso, navegar faz parte e depende das marés do acaso. John Lennon disse: “Viver é o que acontece enquanto estamos ocupados fazendo outros planos”. Viver é o tempo que nos foi concedido entre o nascer e o morrer – entre esses dois polos, tudo que a lei e os bons costumes permitirem. Idealmente.

 

Como acessar? Existem métodos naturais e artificiais. Contato visual, oral, manual, olfativo, corporal, do primeiro ao quinto grau. Sons, cheiros, imagens. Mas as técnicas naturais estão sendo gradualmente eliminadas, por medo de contágios, assaltos e assédio sexual. O método mais usado atualmente é o celular. Olhando ao redor em qualquer local e momento, nove entre dez pessoas estão grudadas no celular. Marilyn Monroe disse: “Durmo com Chanel número 5.” A pessoa diz, “Durmo com meu celular.” Essencial como muleta para o capenga, bombinha para o asmático.

 

 

Filha de haitianos, Ashley (foto acima) nasceu na Florida e está na faculdade. Vai se formar em Pre-Law. Ou seja, Pré-Advocacia, um curso que a deixa no meio do caminho. A meta é ser advogada, mas não existe faculdade de advocacia no país, tem que seguir em frente e fazer três anos de especialização numa Law School. Tal como acontece com os cursos de medicina. Mas qualquer diploma universitário é aceito para a pós-graduações.

 

A pessoa é feita de emoções,  água e sangue. A água deveria ser de graça, uma vez que o H2O domina o planeta. Mas não é bem assim. Na África do Sul estão chegando no Day Zero, totalmente sem água. Essa é a primeira vez que uma cidade grande e desenvolvida enfrenta tal crise. Em fevereiro, a pessoa em Cape Town recebia o equivalente a 25 litros/dia – banho, beber, cozinhar, escovar os dentes, lavar as mãos, limpar o vaso. Quanto ao sangue a pessoa dá de graça e paga caro para receber uma transfusão. A pessoa deveria ter condições de armazenar seu próprio sangue para reposição quando dele precisar. No futuro, cada pessoa estará carregando bolsinhas com seu sangue e sua ração diária de água.

 

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Lua azul e som de guitarras

As coisas do amor que ninguém sabe explicar. Sentimentos que podem alterar vidas – e quase sempre alteram – são no entanto influenciados por pequenos nadas, as coisas corriqueiras do dia a dia. O som de uma guitarra, por exemplo. Elvis foi mesmo o maior cantor de todos os tempos? Teve um irmão gêmeo idêntico que morreu ao nascer. Se tivesse vivido, o que seria do mundo com dois Elvis? Elvis odiava os Beatles e amava as armas – Tinha um arsenal. Até revólver de ouro.

 

Março tem Páscoa, e nas escolas americanas tem o Spring Break – uma semana sem aulas em todos os estabelecimentos de ensino do país comemorando a primavera. Tempo de ipês dourando o mundo com sua  beleza breve. Felizmente cada escola determina sua semana, assim o feriado fica bem dividido. Juntando a Semana Santa com o Spring Break, a quantidade de turistas em Orlando vira calamidade pública.


Arrumamos as malas para um final de semana, Disney, Universal, as atrações de sempre e  mais as novas. Alguns amigos que lá estavam voltaram correndo – gente demais, provocando uma divisão desigual de tempo: 80% nas filas, 20%  nos brinquedos. Não vale a pena, embora Orlando hoje tenha tantas atrações que até os hotéis viraram atrações. Valem a viagem. Mesmo assim, desfazemos as malas. Talvez no meio da semana.  Difícil foi consolar a criançada.

 

Março encerra seu ciclo com brilho extra, nos encantando com a famosa lua azul – duas luas cheias no mês. Ocorrerá no dia 31, homenageando a Páscoa da Ressurreição. Apesar do nome, essa lua não é azul, mas existe ainda uma rara cor azul em algumas luas, motivadas por efeitos especiais em Hollywood. No entanto, sabemos: qualquer uma das cinco luas tem fluidos românticos que influenciam os mares e os relacionamentos afetivos  na terra.

 

 

A lua cheia, porém, abusa do charme, e seu brilho indiscreto tem o mesmo efeito de uma flechada de Cupido. Que dizer então de uma lua especial, por acaso azul? O amor dança no ar como o pólen das flores, contaminando os incautos, os descuidados, os distraídos, os solitáriose afins. Juntando as influências holísticas, com a primavera bordando flores por toda parte e uma lua cheia, inda mais azul, não tem emoção nem dor de dente que resista. Haja coração!

São coisas do amor que ninguém sabe explicar, que o amor não foi feito para dar explicações. Bom mesmo é sentir. Um sentimento abstrato e indefinido, às vezes eterno, às vezes volúvel, com o poder de alterar vidas, provocar guerras, derrubar impérios e mudar a história da humanidade.  No entanto, influenciado por pequenos nadas – como o som de uma guitarra ou uma lua rindo de nós lá em cima.

Até o rio é verde

downloadSe a festa não é nossa, devemos traduzir? Os imigrantes riem, zombam, mas aos poucos vamos adotando os costumes alheios. O Halloween já é bem comemorado no Brasil, embora seja um evento tipicamente americano. Fico sabendo que também tem festa de Saint Patrick na boa terra brasilis, que já é verde de natureza. Nesse fim de semana estou desengavetando algo verde para ir ao brunch na casa da filha (almoço e lanche). Quem diria, pela primeira vez nosso pequeno núcleo familiar comemora a data, graças à adesão de festivos descendentes irlandeses.

 

Resta saber se vem para ficar, como aconteceu no Thanksgiving, que acabou se instalando definitivamente e sem cerimônia no nosso calendário. Na vida do imigrante os hábitos aos poucos vão mudando, como a panqueca e o cereal no café da manhã, embora no almoço não se dispense o feijão com arroz.  Creme cheese em vez de requeijão cremoso, purê de batata com a casca. Os mais velhos fazem festa quando tem polenta, os mais novos torcem o nariz.

 

A data que homenageia o santo padroeiro da Irlanda é comemorada em todos os países de língua inglesa. Os temas dessa data são o trevo, por ser também símbolo da Santíssima Trindade, e um duende gorducho vestido de verde, escondendo seu pote de ouro. Quem não esconderia? O trevo de quatro folhas  indica sorte, mas na verdade qualquer coisa verde está valendo. Uma bonita tradição é  as águas do Rio Chicago, que corta a cidade do mesmo nome, mudar de cor: tingem de verde. Outra tradição é a parada, sendo que a de Nova York, desfilando em frente da catedral de Saint Patrick, é considerada a maior do mundo.

 

Como tem acontecido frequentemente nos anais da história, um feriado religioso acaba virando mundano. O Natal virou festival de compras, a Páscoa ganhou coelhos e ovos de chocolate. Olha o que deu no carnaval. No dia de Saint Patrick, haja cerveja. Mesmo se Miami não tem uma forte colônia de descendentes irlandeses, os pubs da cidade estarão lotados neste final de semana. Afinal, o santo era irlandês e cerveja não vai faltar.

 

O que tem cerveja a ver com um santo a história explica: propaganda intensiva para incrementar o turismo. Transformar as águas de um grande rio, que nem fez Moisés no Mar Vermelho, partiu da necessidade de combater a poluição –  o produto químico usado tornou o rio verde por uma semana. Aí alguém teve a brilhante ideia de unir o útil ao lucrativo: usar o antipoluente no dia do santo verde. Felizmente, hoje em dia o produto usado é orgânico, e dura apenas cinco horas. Bom fim de semana e um trevo de quatro folhas pra você. Se achar um pote de ouro, melhor ainda.

A dívida

 

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Diva tinha uma dívida. Parece lição de escola primária, mas infelizmente para Diva a dívida é real, constando dos anais dos guardiães do dinheiro alheio, insensíveis controladores da moeda corrente, como se diz no mercado paralelo. Nem tão corrente assim, pensa Diva, quando consegue não pensar em como se livrar da nefasta obrigação financeira, lembrando o velho lema dos cartões de crédito: Penso que devo, estou pagando, penso que pago, estou devendo. Disse Camões.

 

Ora direis, quem não pode pagar não deve gastar. Mas Diva teve seus motivos e tem suas filosofias. Os motivos remontam ao casamento da filha única, razão da dívida. Ora, apenas uma filha, e se casando com um rapaz acomodado em emprego bem pago, e de  tradicional  família americana, embora democratas convictos. Diva não ia deixar por menos, a festa teria que acompanhar o nível social e político da futura família da filha.

 

No quesito filosofia de mãe, Diva entendeu que uma dívida a gente rola como pode, mas um vexame não se salda nunca. E a culpa não é de quem assume o compromisso, mas de quem empresta sem perguntar a quem. Ou seja, os donos dos cartões de crédito, que embora denominados crédito, na verdade são criados para não serem pagos, que o lucro está de tocaia nos juros. O devedor ideal paga o mínimo a vida toda.

 

Diva trabalha de 9 às 5, descontando a hora do almoço. De 6 às 10 arranjou uma faxina na empresa no final do corredor, assim não precisa deixar o prédio e pegar condução. Não está dando nem pra pagar o juro do cartão. Portanto, pegou outra faxina na loja de móveis perto de casa, onde também não precisa pegar condução. Mesmo assim não está dando, e Diva arranjou outro bico para os sábados e domingos, fazendo mani-pedi, como chamam aqui manicure e pedicure, e por incrível que pareça, com isso está conseguindo pagar o mínimo.

 

Em troca adquiriu um esgotamento nervoso, porque não sobra tempo para lazer, diversão, distração, tempo útil, descanso remunerado ou não-compensado, ou que nome mais lhe dão. Nem sequer consegue curtir o neto, menos ainda a vida familiar e o convívio social. O prazer de comer em um restaurante? Há séculos não entra nem no Taco Bell, e não compra roupa nova nem no Goodwill (chamar de nova é vício de linguagem).

 

Pois é nesse estado de calamidade financeira que a filha bate na porta, com filho, mamadeiras e bolsa de fraldas a tiracolo, informando que se separou do gringo.  Sem direito a pensão alimentícia porque o ex descobriu que o filho não é dele. E agora, filha? Bota água no feijão que eu tô voltando, avisou o Chico. Diva deixou a dívida rolar ladeira abaixo, largou os empregos, horas extras e bicos, e foi ser babysitter do neto. Cortou o telefone porque não aguentava mais cobrador ligando o dia todo.

 

Essa história baseada em fatos reais pretende ilustrar que não importa o hemisfério (norte), a posição geográfica (extremo sul dos Estados Unidos), a ideologia política (adora o Trump) ou o status migratório (green card, sem dinheiro para a cidadania), dívida todo mundo tem, mas só paga quem pode.