A posição astral para 2017

 

Fachada da Skechers, o tênis preferido dos pássaros
Fachada da Skechers, o tênis preferido dos pássaros

 

Entra ano, sai ano, e se dezembro é o mês das boas intenções, janeiro é o mês da culpa. Passamos os 31 dias do novo ano com insônia e consciência pesada,  porque tudo que foi cuidadosamente decidido na passagem de ano se revela impossível ou impraticável, mal retiramos as luzinhas do ano velho. Mais 28 dias escorrem na ampulheta do tempo, como se dizia no tempo em que se contava as horas em ampulhetas, e como tudo continua na mesma, fevereiro é o mês das decepções.

 

Mas com a auspiciosa chegada da primavera tudo volta ao que era antes, e março é o mês da paz. Essas coisas Neide anota no caderninho, fazendo uma séria avaliação – suas boas resoluções não conseguem ultrapassar os obstáculos dos dois primeiros meses do ano. Quais sejam: fazer regime, se mexer mais e gastar menos. Simples, práticas e úteis, e no entanto, tão complicadas. Mas Neide não está sozinha – essas intenções de fim de ano são as mais populares e as menos alcançadas. Então o que está errado não são as metas, mas a forma de interpretá-las.

 

Esse ano Neide decide fazer tudo diferente, abordando a situação por um ângulo mais compatível com a realidade prática. A começar pelo sonho de 10 entre dez seres humanos: manter a boa forma sem regimes radicais. Com toda a evolução moderna, com tantas maravilhas da ciência e da tecnologia criadas todo dia, ainda não descobriram uma pilulazinha que nos faça perder peso sem perder o apetite, sem efeitos adversos e sem culpa. Em 2017, portanto, radical mudança de rumo.

 

Na primeira semana de janeiro Neide põe o Gugu pra fora de casa. Sumariamente. “Mas o que te deu na cabeça, mulher? Jogar no lixo dez anos de bom relacionamento sem aviso prévio?”  Bom relacionamento para quem? Pensa ela, mas nem se dá ao trabalho de responder. Durante dez anos o Gugu tem sido um peso em sua vida, portanto, a primeira resolução de fim de ano se cumpriu ainda em janeiro. E anota no caderninho uma nova intenção para 2018: não se deixar explorar nos próximos relacionamentos.

 

A segunda intenção, se mexer mais, também foi beneficiada com a retirada do Gugu do cenário familiar. Motivada pela solteirice repentina, Neide passou a frequentar a academia da esquina, pagando três meses adiantado. Assim não vai faltar. Na segunda semana de janeiro já perdeu meio quilinho.  É muito pouco, é quase nada, que nem naquela música do Gonzagão, mas é a primeira vez que a balança não se mantém teimosamente estancada no famigerado excesso de peso.

 

A terceira intenção, reduzir gastos,  também foi obtida, sem o Gugu se exercitando o dia todo no trajeto computador – geladeira.  Mas não foi suficiente, e as contribuições de começo de ano para o retorno às aulas dos sobrinhos sofreu um corte radical, sob protestos de Lina, a irmã pobre. “Sem aviso prévio, Neide? Sempre contei com sua ajuda nas despesas das crianças!”  Neide não se deixa demover, “Contenção de despesas, querida. De agora em diante, presente só no Natal e aniversários”.

 

O ano mal começou, e muita água ainda vai rolar até chegarmos a 2018. Com as bênçãos divinas,  escapando de balas perdidas, dengue, zica, planos econômicos mirabolantes, atentados terroristas, poluição ambiental e outros senões inesperados. Sem nem falar nos sempre esperados. Mas não se desespere – pela posição dos astros, já sabemos que 2017 será um ano muito bom para meus leitores e leitoras.

 

Deus foi ao cinema

Deus foi ao cinema

Gastando-se mais tempo no ir e vir do trabalho do que trabalhando, a distração é identificar e decifrar as placas personalizadas dos carros. Nova tela onde tudo é possível, desde que se pague um pouquinho mais. Ajudam a passar o tempo e para o usuário têm múltiplas funções: prestam homenagens, transmitem recados, ideias e conceitos e são fáceis de memorizar. Com tantos carros iguais no estacionamento do shopping,  como identificar o seu?

 

Os mais comuns são nomes de pessoas ou mix de nomes, como JOHNISA, de John e Isa; nomes de times esportivos e países –  tem BRASIL 1 e BRASIL 2, pois se o nome é repetido põem números.  Meu favorito, I FORGOT. O que foi esquecido de tão importante pra gravar numa placa que dura a  vida toda? E é bom lembrar disto antes de pôr o nome da pessoa amada, nesses tempos em que os amores acabam mais depressa que sorvete.  Quem não perdoou: MORON. Os pedidos de casamento aqui tentam surpreender, portanto, não foi surpresa deparar com essa joia: MARRYME.

 

Tem manifestações religiosas, como BUDA, e como não poderia faltar, GOD. Acho que Deus é o mais popular, porque já vi GOD 666. Portanto, alegrai-vos: a fé ainda resiste a tempos tão materialistas. Mesmo quem não reza lembra dele toda hora: Ai meu Deus, Deus nos acuda, Deus ajuda quem cedo madruga, Deus é testemunha, Juro por Deus, Só Deus sabe,  Fé em Deus e pé na tábua; o homem põe e Deus dispõe, Deus é grande, Deus é pai… Sem falar que ainda vemos muitos carros com terços pendurados no espelho retrovisor, mesmo se Deus nunca andou de carro.

 

E embora sem nunca ter ido ao cinema, Deus é um dos personagens favoritos da sétima arte, sempre muito lembrado e explorado, como O Todo Poderoso (2003), Êxodo (2004); A volta do Todo Poderoso (2007); Noé (2014), para citar apenas alguns mais recentes. Tem até Deus é brasileiro (2003), um segredo bem guardado pelos brasileiros. Em 2016 foram lançados vários filmes sobre Deus, com destaque para O Jovem Messias. Mas ter Deus como personagem não garante as bênçãos divinas: o filme Deus não morreu (2016), é um pecado mortal.

 

Mesmo confiando em Deus, sugiro trancar as portas e dirigir com cuidado. Não esqueça o cinto de segurança e se beber não dirija nem digite. “Melhor deixar sem resposta do que morto”, gritam os outodoors das  highways, lembrando que a dobradinha volante e celular está expressamente proibida pela lei de Deus. Mas quem é Deus? A Bíblia diz que é o criador do universo, o que Camões lindamente explica: “Quem fez esse rotundo globo / e sua superfície tão limada / é Deus, mas quem é Deus ninguém entende / que a tanto o engenho humano não alcança”.

O Rei morreu; viva o Rei!

O rei morreu, viva o rei

ano-novo

Assistindo à auspiciosa chegada do 15º ano do século da tecnologia e do milênio da devastação ambiental, o que temos para comemorar? A penicilina, o rádio, a televisão, o carro, o avião, o computador, o celular, a aspirina, Madona, o microondas, o restaurante a quilo, as academias, a comida congelada, a água encanada, a rede esgotos, a eletricidade, as novelas da Globo, a Gisele Bundchen. A lista é longa, felizmente, e ficamos imaginando o que virá de novo nos próximos 365 dias que aguardamos esperançosos. Cruzem os dedos!

 

Sem contar as obras em pedra, mármore e bronze que ainda resistem ao passar do tempo, o que veio do século passado e continua na crista da onda – como se dizia no tempo em que o rádio navegava nas ondas curtas? O que veio do primeiro milênio da era cristã, ou dos muitos milênios AC  em que andamos sobre a terra e não foi ainda sumariamente descartado pela modernidade? O que temos dentro de casa, nos armários e nas prateleiras que vieram de antanhos tempos?

 

O fogão a gás,  elétrico e  microondas superaram a lenha, o carvão, o fogareiro e o caldeirão pendurado no tripé, velharias que não combinam nas casas modernas, decoradas com aço temperado e vidro fumê. Mas em muitos lugares no mundo a cozinha continua rudimentar como na Idade Média.  Temos ar condicionado e geladeira, mas em muitos lugares e a eletricidade não chegou. Retrocedendo demais no tempo chegaremos nas cavernas, o primeiro abrigo humano depois do ventre materno ainda não destruídas pela pandemia do progresso. Hoje nelas vivem apenas os morcegos e hibernam os ursos. Ou talvez não, que vasto é o mundo e cheio de surpresas.

 

Das sete maravilhas do mundo antigo, apenas a mais velha continua de pé: a Grande Pirâmide de Giza. O Colosso de Rodes foi destruído por um terremoto, e quatro pela ação do homem. Quanto aos fabulosos jardins suspensos da Babilônia, ninguém sabe ninguém viu – supõe-se mesmo que nunca tenham exisitido, embora apareçam em várias listas da antiguidade clássica.

 

E o Homo Sapiens continua sobrevivendo – os milênios rastejam em câmera lenta, os séculos se arrastam sobre tartarugas, as décadas cavalgam lombos de burros, os anos giram em torno do sol, os meses correm na velocidade do som e os dias voam na velocidade da luz. E nóis aí, teimosos que somos, vencendo obstáculos feito atletas olímpicos, disputando medalhas diárias contra tudo e todos – a meta é chegar ao dia seguinte.

 

Na disputa contra o tempo usamos as armas recebidas na herança genética ou conquistadas ao longo da vida, jogando xadrês com a morte, como no filme Os Sete Selos, de Bergman. Tem gente que não sabe quem foram seus pais, tem gente, como a Rainha Elizabeth que cita de cor toda sua longa ancestralidade perdida nas brumas de Avalon. Cabeças coroadas cuja preocupação não era esticar o salário até o fim do mês, mas monitorar a saúde do rei e dos herdeiros na sua frente na linha sucessória. Minha vez chegará? E vigiar os herdeiros posteriores na corrida pelo trono –  Qual terá coragem de me eliminar da jogada?

 

 

Mesmo os reis, com todo o poder e mordomias, viviam com a espada de Dâmocles sobre suas cabeças, nunca sabendo ao se deitarem que acordariam no dia seguinte. Morrendo, recebiam ainda a última afronta, quando saudavam os sucessores – O rei morreu, viva o rei! Que nem os anos passando por nós:  mais um ano que morre, viva o ano que chega! Os que sobreviveram te saúdam.

Perto da Noite Feliz

Perto da Noite Feliz

Perto da Noite Feliz

O Natal é apenas um feriado, como tantos outros que ajudam o ano a passar mais depressa, pensa Laura, se desviando dos pacotes de presentes empilhados em volta do pinheiro enfeiando a entrada do edifício onde mora. Tanto a árvore quando os pacotes embrulhados em papel brilhante são falsos. Mais tarde o condomínio se reúne para uma festa onde pratos calóricos e sem sabor vão ser servidos. Laura é a unica do prédio que não contribuiu com $50 para uma falsa noite de paz e amor. Laura também não participa das festas da repartição nem se reúne com familiares ou amigos.

Quanto ao troca-troca obrigatório de presentes comuns nessa data, prefere comprar ela mesma algo de que goste, em vez de receber alguma quinquilharia sem utilidade que vai entulhar os armários e sempre custa menos que o preço estipulado. Em troca, daria algo que a pessoa aleatoriamente imposta também não vai gostar. Cinismo? Não, experiência. O Natal é um dia comum, onde tudo que acontece nos outros 364 dias do ano pode acontecer também. Nascimentos e mortes; crime e assaltos; falcatruas e corrupção… E mais, traição, gente se unindo e se separando. Doenças, balas perdidas, mais uma guerra, um desastre, uma tragédia…

Para não parecer antipática, Laura explica que vai viajar, e se manda para uma pousada em Santa Leopoldina. Assim ganha dois presentes: descansa e fica livre do barulho e da sujeira que a festa de natal provoca.

Confirmando sua própria teoria, o carro enguiça na subida da serra, indiferente ao fato de ser um feriado quase universal ou outro dia qualquer. Na estrada não passa ninguém, todo mundo está festejando em algum lugar. O celular chama e ninguém atende – por certo tem muito barulho nas festas de natal. Nem a polícia, nem os bombeiros, nem seu mecânico. O jeito é dormir no carro, mas tem medo de passar a noite sozinha na estrada. Seja qual for o dia do ano, havendo chances os assaltantes não deixam de assaltar.

Laura faz uma busca nas imediações, talvez esteja perto de algum lugarejo com posto de gasolina e mecânico, ou um hotel, mesmo de péssima categoria. Por sorte vê luzes ao longe e enfrenta a subida íngreme, chão de pedregulhos dinvadido pelo mato. Chegando mais perto vê que é apenas a casa modesta de algum lavrador, meio escondida entre as árvores, com roupas de criança no varal e latas de plantas na entrada. Resolve arriscar, pior que passar a noite ao relento impossível.

O jovem que a atende explica que não entende nada de carro nem tem como levá-la a lugar nenhum. A essa hora não se acha ninguém, nem mesmo se fosse um dia comum. A esposa não lhe dá atenção – está pondo a mesa para a ceia de natal: uma travessa de sopa fumegante, odor convidativo, e pão casesiro. Um menino brinca com seu presente de Papai Noel: um carrinho feito de lata de óleo. “A senhora pode se acomodar aqui com a gente, sim senhora. Já vamos mesmo comer umas coisinha. Casa de pobre, tá percebendo, mas tem um colchão a mais. Amanhã o ônibus passa cedo”. Sem esperar resposta, a moça põe mais um prato na mesa. Laura agradece, feliz – essa noite terá um natal de verdade.

Deu a louca nos feriados

Deu a louca nos feriados

Deu a louca nos feriados

Esse ano, não sei por qual acordo nacional não sacramentado, o natal chegou mais cedo. Embora as lojas já comecem a vender os produtos habituais desde setembro, tradicionalmente a decoração natalina só era feita após o fim de semana da dupla Thanksgiving / Black Friday. Sobrava o sábado e domingo livres para desenterrar caixas e pacotes do fundo dos armários ou download do alto das estantes da garagem, onde hibernavam desde o ano anterior. Não mais que de repente, todo mundo pulou a decoração do final de novembro, investindo mais cedo nos vermelhos e dourados do natal.

Talvez efeito do El Niño, ou da eleição de um presidente contra o voto popular – Vamos começar o natal antes que o Trump invente um muro para banir a entrada do Papai Noel… Que, não sendo americano, trabalha ilegal no país. Como essa nova tendência começou ninguém sabe, mas todos aderiram. E por que não? O natal é mais bonito e dá mais trabalho de arrumar e desmontar, portanto, que fique mais tempo em cartaz. Parece até competição – quem começa a arrumar ou terminar de arrumar primeiro; quem põe mais brilho ou bonecos maiores nas portas.

Outra mania incutida na mente coletiva é tirar tudo no dia 31 de dezembo, dando lugar à decoração branca e prata da passagem de ano. Nos natais da minha infância, árvore e presépio eram retirados no dia 6 de janeiro, o dia dos Reis Magos. Outra festa, com os participantes das folias de reis batendo nas portas, e ninguém pensava que eram vendedores de enciclopédias. Tinha também boi pintadinho e mulinha, que era um sujeito ‘montado’ numa mula de madeira coberta com chitão. Essas práticas foram se perdendo com a debandada do povo das cidades pequenas para as metrópoles, mas em muitos lugares as crianças ganham presentes no dia de reis, e não no natal.

Quanto aos Reis Magos, sabemos que vieram do leste guiados por uma estrela, que pode ter sido o Cometa Haley. Seriam mesmo reis de reinos distantes? As referências a eles na Bíblia são vagas, sem lhes dar nomes ou especificar quantos eram – o número três se refere aos presentes que trouxeram para o menino: ouro, incense e mirra. E são os presentes que todos nós gostaríamos de ganhar – o ouro significa realeza; o incenso representa a fé, pela oração que sobe aos céus; e a mirra, usada pelos egípcios para embalsamar, simboliza a vida eterna. Foram esses misteriosos magos, talvez astrólogos, que nos legaram a tradição de dar presentes no natal.

Deviam, portanto, ser nomeados patronos do comércio e da indústria, que esses vendedores de ilusões estão esfregando as mãos, com os olhos brilhantes, faturando alto. E sabem nos induzir ao gasto desenfreado. Pesquisas indicam que a música ambiente é um poderoso agente de vendas – se o freguês gosta da música, entra; se for música lenta, demora mais tempo na loja. Pesquisas também indicam que o ato de comprar tem efeito direto nas áreas de prazer do cérebro, levando dopamina para o cérebro, tal como as drogas. Portanto, estamos perdoados por gastar demais numa loja – estamos drogados.

Por pior que andem as coisas, não há crise no Natal – todo mundo compra, uns mais outros mais ainda, tem ano melhor que o outro, mas a mágica da dopamina não falha. Apesar das compras online já estarem em 42%, a ida às lojas e shoppings ao invés de cair, cresce junto. O americano gasta, em média, 786 dólares nas compras de natal, portanto, tem alguém gastando minha cota. Atento às vantagens tecnológicas, o comércio usa imagens de satélite dos estacionamentos dos shoppings para avaliar como serão as vendas nos feriados.

Embora muitos pensem que a campeã das compras no país seja a Black Friday, na verdade o dia 23 de dezembro leva o ouro – é o dia que mais vende, com lojas lotadas abertas até meia noite, filas imensas nos caixas, corredores dos shoppings entupidos de gente carregando sacolas recheadas. E todos já compraram muita coisa com antecedência, quer dizer, dia 23 é o dia das ‘faltinhas’, ou para retribuir presentes inesperados. Outro mito é que os preços estão mais baratos na Black Friday – dia 23 também ganha. Quer dizer, quanto mais gente comprando, mais os preço baixam. Esssa é uma equação de causa e efeito que os comerciantes brasileiros usam ao contrário – sobem os preços já inflacionados quando tem mais gente comprando.

Um cartão de natal nunca enviado

Um cartão de natal nunca enviado

Um cartão de natal nunca enviado

Em tempos perdidos nas trevas de um mundo sem celulares e Internet, mal entrava dezembro e os correios faziam hora extra para dar conta dos cartões de natal enviados pela tradicional via bicho-preguiça. Com a evolução tecnológica, basta saber um dos muitos emails de cada um: 500 milhões de cartões desejando boas festas e um novo ano melhor que o velho voaram nas redes virtuais em 2015. E assim os velhos cartões coloridos viraram passado, certo?

Absolutamente. Com todas as facilidades das mensagens eletrônicas, a opção correio continua imbatível: dois bilhões de cartões são vendidos anualmente, apenas nos States. E as mulheres lideram, comprando 85% desse total. A Casa Branca iniciou a tradição de enviar cartões comemorativos a funcionários, correligionários e chefes de estado em 1927, mas os cartões de natal começaram a ser enviados pelo Presidente Eisenhower.

E não seria diferente no ano de 1953, mas o cartão escolhido foi mandado para a gráfica mais cedo: os Kennedys iriam para o Texas em novembro, numa viagem de 2 dias visitando 5 cidades. Feito especialmente para eles pela Hallmark, o cartão tinha a foto de um presépio napolitano do século 18 que ficava exposto na Casa Branca nos dois anos que eles viveram ali.

A mensagem era simples e elegante, como tudo que se referia à então primeira-dama: “ Nossos votos de um Natal Abençoado e Um Feliz Ano Novo”. O casal chegou a assinar 75 cartões, deixando os demais para assinar quando voltassem a Washington. E o resto é história: os cartões nunca foram assinados nem enviados, e um deles repousa hoje no Museu Nacional Smithsonian da História Americana.

Esse ano, o último cartão da família Obama na Casa Branca estampa a foto do casal com as duas filhas, e a mensagem: “Boas Festas. Quando nossa família reflete sobre os muitos anos felizes que passamos na Casa Branca, estamos gratos pelos amigos que fizemos”. A bela foto levantou controvérsias: Vestidos para um jantar de gala, o vestido de cada uma das filhas custou 20 mil dólares. O preço do vestido de Michelle, feito por Jason Wu, não foi revelado.

Talvez o polêmico próximo presidente comece a mandar seus cartões online, interrompendo a velha tradição e iniciando a próxima. Segundo as estatísticas, até 2020, o número de cartões de natal cairá para 21 milhões.

Um certo Werner Erhard, de São Francisco, é o campeão das remessas natalinas – em 1975 enviou 62.824 cartões pelo correio. O primeiro e mais caro cartão de natal da era moderna, desenhado por John Calcott Horsley em 1843, foi vendido em leilão, em 2001, por 35 mil dólares. Horsley, um artista plástico britânico, fez o cartão por encomenda de Sir Henry Cole – mil cartões impressos em preto e branco e coloridos à mão. O desenho mostrava um alegre grupo de pessoas segurando taças de vinho, mas ao invés de agradar, provocou polêmica – naqueles idos, misturar alcohol com as festas natalinas era um sacrilégio.

Síndrome de Estocolmo

Síndrome de Estocolmo

Antigamente os amores impossíveis alimentavam fartos romances e lacrimosos filmes. Hoje, quando nada mais é sagrado, o amor está cada vez mais impossível. Como no estranho caso de Nora e Nilton, que se encontraram numa feira de animais domésticos,  portanto, que não fiquem dúvidas, os dois são apaixonados por bichos. Mais precisamente, Nora ama Valdez, seu gato siamês, e Nilton não se desgruda de Daniel, seu cão spaniel.

Para Nora e Nilton foi amor ao primeiro tropeção, pois assim se conheceram, esbarrando um no outro e derramando as cocas diet  e zero de cada um. Mas com Valdez e Daniel foi ódio ao primeiro latido e miado. Simultâneos. Enquanto os donos trocavam olhares lânguidos enxugando a roupa, as feras se atacavam. Nora e Nilton decidiram investir no romance, apesar do mau presságio do primeiro encontro e indiferentes  aos desentendimentos de seus bichinhos de estimação. E se chegaram sozinhos ao evento, ao saírem já estavam unidos até que os desvios da sorte se intrometam. Ou não.

 

No dia seguinte já estavam morando juntos, para desgosto de Valdez e Daniel, que tudo fizeram para demovê-los desse amor insensato. Nora e Nilton não se deixaram influenciar pelo mau humor dos pets, Com o tempo eles se acostumam, pensaram juntos. Vamos ver, pensam os mimados bichinhos, se é que cachorro e gato já pensam. Apesar de bem treinados e muito bem tratados, os dois nunca aceitaram a convivência forçada, e brigam o tempo todo.  No mesmo embalo, Nora e Valdez brigam também, mas sem deixar que os desentendimentos de hoje durem até  amanhã.

 

Você tem síndrome de Peter Pan, é muito dependente, não amadurece nunca! grita Nora; Você não se adapta à vida em comum, é independente demais, rebate Nilton. Cão e gato, se falassem, diriam a mesma coisa. Ou dizem, numa comunicação atávica lá entre eles. Valdez: eu não me deixo escravizar, sou livre; vou onde quero e sei voltar pra casa; você depende do dono pra tudo. Daniel: Eu sou útil; sei tomar conta de criança, da casa, perseguir caça, seguir pistas, guiar cegos, farejar drogas. Por isso eles dizem que sou o melhor amigo do homem.

 

Valdez: Isso é pura balela, pois além de te explorarem, ainda te fazem de palhaço, ensinando truques idiotas.  Eu não trabalho pra eles, eles é que trabalham pra mim. Daniel: A única coisa que você faz é caçar ratos, uma atividade não muito nobre, convenhamos. Valdez: Isso é lenda;  minha estirpe não se rebaixa a tanto. Acha mesmo que eles amam seus cachorros? Então por que chamam o diabo de cão? Chamar uma pessoa de cachorro não é elogio, é xingamento. E criaram expressões pejorativas: cachorro sem dono, cachorro doido, cachorrada, dia de cão, cão que ladra não morde, os cães ladram mas a caravana passa. Isso é falta de respeito!

Daniel: São modos de falar, apenas, sem intenção de ofender. Os gatos também são lembrados:  gato escaldado tem medo de água fria, gato preto é azar. Valdez: Mas chamar alguém de gata ou gato é elogio, chamar de cachorro é xingamento. Cachorrinho de madame é pejorativo, e ninguém diz gato de madame. E ainda nos deram mais seis vidas de presente!  Pode ser, mas quem chegou primeiro fui eu, rosna Daniel. Ao que mia Valdez, Pode ser, mas quem manda neles sou eu.

Daniel está certo, os cães chegaram primeiro, tendo migrado da Sibéria ou do Alaska há 35 mil anos. Hoje existem aproximadamente 85 milhões de cães domésticos nos Estados Unidos.  Mas Valdez está certo, os gatos ganharam a preferência popular – são 93 milhões, ou seja, 1/3 das residências americanas têm pelo menos um gato.  Os cachorros são mais inteligentes, ficando em terceiro lugar entre os animais, atrás dos macacos e golfinhos. O gato fica em 20º lugar. O gato tem melhor visão e os cachorros têm melhor olfato.

Os entendidos garantem que os gatos não são hóspedes nas casas dos donos, mas reféns que talvez um dia,  graças à Síndrome de Estocolmo, acabarão amando seus donos. O cachorro tem família, o gato tem empregados. O cachorro, se bem treinado, obedece cegamente. O gato aceita o jugo, mas não exijam truques e prestação de serviços. Quanto a Nora e Nilton, estão no mesmo ritmo –  ainda apaixonados, sabendo que nasceram um para o outro, mas continuam brigando feito cão e gato.

 

Serviço de utilidade pública do blog: Síndrome de Estocolmo é uma situação em que a pessoa submetida a maltratos ou submissão durante muito tempo, acaba criando amizade ou se apaixonando pelo agressor.

Uma aspirina resolve?

Uma aspirina resolve?

Uma piada na Internet diz que não existem ateus em pane de avião. A experiência nos ensina que não existem ateus nos momentos de dor. Quando essa velha bruxa nos alcança, todos rezam, que se não cura, pelo menos alivia. Mas ao rezar pedimos que seja feita a Vossa vontade e não a minha. Pode parecer masoquismo, mas basta olhar em volta, e tem sempre alguém com uma dor maior. Devia haver um campeonato mundial de dor. Ou pôr a modalidade nas Olimpíadas.

Somos seres vulneráveis, vagando indefesos nesse planeta ora chamado vale de lágrimas, ora chamado paraíso, onde a única certeza é a incerteza.  A felicidade existe, que dela temos provas, portanto há que desfrutá-la quando nos alcança, que a dor, essa megera, espreita atrás das portas. O dicionário diz que a dor é uma experiência sensitiva e emocional desagradável… Ah, se fosse tão simples! Pois há tantas variações para a dor quantas são nossas impressões digitais.

Da dor de barriga à dor de cotovelo, da dor da vida à dor da morte. A dor inevitável e a dor adquirida. As decepções de amor e o vazio das ausências. A opressão e a solidão. Estamos no mundo para cumprir um ciclo comum aos seres vivos – nascer, morrer.  O que acontece entre esses dois extremos depende apenas de nós? Se tenho uma lesão na coluna é porque não fiz bastante exercício, se tenho um ataque cardíaco é porque não me alimentei direito.  Dói-me o dente e alma, porque não escovei direito.

E tem a dor social, que deve ser escondida para não nos expor ao ridículo. Segundo Fernando Pessoa, os poetas entendem bem do assunto. “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente. Para nós, pobres mortais, funciona ao contrário, devendo  fingir que não é dor a dor que deveras sente.  Concurso de miss, por exemplo. Uma é escolhida e ganha a coroa, enquanto as finalistas ficam lá no palco, morrendo de dor, mas com um largo sorriso no rosto.

O candidato derrotado dando entrevista após o resultado das eleições: O que acha de ter perdido a sua última chance de se candidatar a alguma coisa? pergunta o repórter. Outra vez o largo sorriso, Isso é democracia, portanto, que seja para o bem do povo. Também o atleta após a derrota, tendo que ir cumprimentar o vencedor, Venceu o melhor. O largo sorriso é fundamental, mesmo se o derrotado quer quebrar a cara do opositor. Noblesse oblige, dizem os franceses.

Lord Byron disse, A recordação da felicidade já não é felicidade; A recordação da dor ainda é dor. Esquecemos os bons momentos mais depressa que os maus momentos. Esticamos a dor desnecessariamente, amargando derrotas, ressentimentos, frustrações, perdas ad infinitum. Ficamos felizes quando uma pessoa nos faz um favor, e ao agradecer dizemos, Fico lhe devendo a vida toda. Um mês depois a mesma pessoa nos nega um segundo favor, e a odiamos pelo resto da vida.

O homem chegou à lua e inventou o caixa eletrônico, mas não conseguiu ainda superar esse incidente físico ou emocional, imposto ou adquirido, que chamamos dor. Talvez a gente esteja  pagando nossos pecados com as nossas dores, portanto, sofrer é inevitável, deduz o pessimista. Ao que o otimista replica, Entre uma dor e outra, que tal tomar uma aspirina e ser feliz?

Mais um blog?

Mais um blog?

A Internet é o imenso mar oceano onde sites, blogs, emails, links e afins flutuam à deriva, esperando que algum desavisado internauta os acesse… Como a mensagem que o náufrago põe na garrafa e joga nas águas revoltas, esperando que alguém, em algum porto solitário, a encontre…
Mas não é assim também o amor?

Naufragada em Miami, dividida entre dois mundos e duas culturas diametralmente opostas, sentindo falta do nosso insubstituível calor humano, da polenta com couve e da língua pátria amada, meus pequenos retalhos de vida cotidiana são as mensagem que ponho na garrafa e jogo no ignoto mar cibernético, esperando que você, meu inconstante internauta, a pesque entre milhões de outras que vagam no espaço virtual e dela tire algum proveito.

Quando você acessa alguns desses mais de dois mil esboços dessa tragicômica saga humana – yin e yang – que venho rabiscando há 16 anos, estarei sendo resgatada, que náufragos virtuais somos todos nós.

Vão-se os anéis e os dedos

A notícia nos jornais abalou, não apenas suas economias, mas também as pretenções de Donald Trump à presidência dos States.

No dia do noivado, em vez do esperado anel de brilhantes, Vico oferece à futura esposa um anel da Pandora; caro mas inadequado –  diamantes são para sempre. O quase-noivo explica que pretendia comprar o anel exigido na ocasião, mesmo com parcos quilates, mas uma notícia nos jornais abalou, não apenas suas economias, mas também as pretenções de Donald Trump à presidência dos States.

Pois não é que justamente no auge da campanha presidencial, quando o único programa de governo do candidato republicano é ressuscitar o muro de Berlim no sul dos Estados Unidos, a Ford anuncia que está transferindo sua produção de carros populares para … (suspense) … Advinhou? O México! Trump quase arranca o famoso topete – Tanto país pobre no mundo, por que o México? Ficou chato, né?

Mas pode até ser que a mais tradicional fabricante do mais americano dos carros esteja ajudando o candidato em sua política separatista, justamente por semear empregos à mão cheia no terreno inimigo. Se, seguindo o exemplo da Ford, toda a indústria americana também se transferir para o México, teremos dois benefícios a curto prazo: carros mais baratos (mão de obra a preço de garrafinha de água mineral), e inversão da corrente migratória.

A Ford anunciou que vai investir 4.5 bilhões na produção de carros pequenos, mais econômicos porém massacrados pela concorrência de Hondas e Toyotas. Com essa transfusão de dólares na combalida economia mexicana, até los astecas vão deixar suas pirâmides e trabalhar na linha de montagem. Tudo porque a Ford quer se dedicar a seus produtos mais lucrativos –pickups e SUVs, que com a gasolina mais barata, são as preferidas de quem pode pagar.

O problema da imigração ilegal será transferido para o governo mexicano, e todos sairão lucrando. Enrique Peña finalmente vai aceitar pagar os custos do muro, como Trump promete e jura que vai acontecer. Para Vico, porém, a notícia é desastrosa. Trabalhando há anos na fábrica da Ford em Detroit, seus dias estão contados. Claro, a Ford já se espalha por vários países, inclusive o México, mas essa mudança é radical. Empregos andam difíceis, e vamos ter que mudar pro México? Triste ironia.

A quase-noiva recusa o pedido, Prefiro ficar sem anel do que mudar para o México e viver com 10% do seu salário. Vico vai à loja devolver o anel, e a vendedora o consola, Vão-se os anéis, ficam os dedos. Vico rebate, Foram-se os anéis, o emprego, a noiva, de que me adiantam os dedos?  A jovem insiste, Sem anel e sem emprego, mas talvez com outra namorada. Vico não pensa duas vezes, Mesmo se tiver que mudar pro México? pergunta, pegando o anel de volta.