Além das lágrimas

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Acabou-se o que seria doce, mas amargou. Passou e já é  hora de começar os arranjos para as próximas. Embora, como todo ser humano, os astros da vez nunca aprendam com os erros do passado, e menos ainda com os acertos. O sexto título de campeões mundiais melhoraria a situação caótica de um país abençoado por Deus e pela natureza, mas menosprezado pelas  potências reinantes e coadjuvantes?  Nós, o povo, teimosamente sonhávamos com esse milagre.

 

A TV só mostra tragédias porque o povo gosta, ou o povo gosta porque é só o que a TV nos mostra? A cobertura quase integral dos meninos ilhados numa caverna na Tailândia pode parecer coincidência, mas veio cobrir o vácuo deixado pela ausência da euforia futebolística. Camisas verde-amarelas enterradas no fundo das gavetas, algumas até queimadas em praça pública. Bandeirinhas ainda tremulando ao vento apenas pela falta de ânimo para retirá-las.

 

Mas nem tudo está perdido.  Um pequeno time de futebol lá no outro lado do mundo está amenizando a dor do povo brasilis ao ver seus ídolos voltando para casa de cabeça baixa.  Torcemos juntos para que todos voltem ao lar sãos e sem traumas, e estou falando dos garotos tailandeses. Doravante, quando nossas crianças mimadas reclamarem da retirada do celular por mau comportamento ou notas abaixo dos limites aceitáveis, de acordo  com o valor da mensalidade escolar, citaremos esses meninos com mínimas condições de subsistência nessa caverna. Diremos apenas, Se eles sobreviveram, você também vai conseguir…

 

Tudo dando certo, Deus permita, aguardemos filmes e muitas participações em programas televisivos, tal como aconteceu com aqueles mineiros no Chile. Eles ganharão muitos celulares,  o que nos permite pressupor que se as condições precárias em uma caverna inóspita não conseguiram acabar com eles, nossa vida moderna tecno-consumista por certo conseguirá.

 

E as surpresas nos eventos esportivos na Rússia continuam. Ao invés de um rico e bem treinado atacante profissional, disputado pelos times mais poderosos e lançador de moda, o herói da copa 2018  será Ekkapol Chantawong, 25 anos, o treinador dos Javalis Selvagens, o time campeão entre os melhores do mundo. Até o ponto final na coluna de hoje ser pressionado, continuamos torcendo por eles.

O mecanismo

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Nesses tempos em que se compra roupas da China online – ou comprava-se –  a literatura resolveu ressuscitar as costureiras. Tão tradicionais quanto o fogão a lenha pintado com barro branco e o verdureiro apregoando suas alfaces de porta em porta, as costureiras foram figuras imprescindíveis e poderosas na cultura e na sociedade, desde que as togas caíram de moda. Ou assim acredito – que as togas eram apenas um quadrado de tecido enrolado no corpo, sem necessidade de muitos alinhavos.

Foi a precisão que deu  às costureiras status e influência, muitas ganhando fortuna e  poder.  Maria Antonieta, que aqui defendo como não tendo sido a caninana que os franceses registraram na história, usava  um  vestido novo todos os dias. Exigido pela corte. E sabemos, tais cobridores da nudez não eram um discreto tubinho preto, e as estilistas e provadoras dessas obras de arte ambulantes e fugazes deviam ter enorme influência dentro e fora de Versailles.

Muito aquém desses salões vamos encontrar Dona Antonieta, ou Tonina, que vestiu e enfeitou a sociedade de Alegre durante muitos anos. Apesar de muitas outras costureiras viverem desse ofício na cidade, Tonina era a melhor e mais requisitada, não apenas pelo corte corretíssimo e caimento perfeito, como pela farta coleção de revistas de moda que uma sobrinha lhe mandava do Rio de Janeiro. Fora de moda, mas num tempo sem televisão, quem lá no Alegre ia saber o que estava na moda?  A freguesa levava horas escolhendo o modelo e depois arrancava a página, para que ninguém mais o copiasse.

Mas aconteceu que, depois de uma noite insone e mal dormida, Tonina matou o marido. Devia ter suas razões, mas não vou me imiscuir na vida privada das alegrenses. Mesmo porque, ela nunca revelou. A cidade ficou chocada, não pelo crime hediondo, mas pela perda irreparável das habilidades da criminosa. Julgada e condenada pelo júri popular, Tonina perdeu a liberdade e a vasta freguesia. Mas era esperta, e rapidamente reinventou-se.

A cidade não tinha, como não tem, áreas na cadeia separadas para cada sexo, uma vez que nunca antes uma mulher tinha sido presa na pacata cidade. Tonina pediu e o juiz autorizou a instalação de cortinas em seu cubículo,  tanto na grade da janela como na porta de acesso, que a expunha aos olhos dos demais prisioneiros. Cor de rosa, com rendas e lacinhos. Uma propina aqui, outra ali, em pouco tempo a cela se transformou num atelier de costura, com máquina Singer, mesa de corte, as coleções de linhas e rendas, as revistas.  Até a tesoura.

Sozinha no mundo, Tonina alugou a casa própria, passando a oferecer um serviço extra: cortes de tecido exclusivos, ao invés de comprá-los a metro nas lojas. Não demorou muito para a freguesas chegarem. Se até a mulher do juiz vai… diziam as madames locais, embora essa com o privilégio de não pagar o feitio. Donde se conclui o que todo mundo sabe – tendo uma chance, quem de vós pode atirar a primeira pedra?

Tonina também incentivou o turismo local: as pessoas vinham das cidades vizinhas para conhecer o atelier da costureira na prisão, decorado com jarras de flores e bibelôs. Com tantas encomendas, o carcereiro exigiu que a esposa também se beneficiasse do feitio grátis. Mais as camisas do promotor, que era viúvo mas não gostava dessas fabricadas em série.  Com uma demanda tão grande Tonina entrava noite a dentro nas costuras, e os outros presos reclamavam do barulho do motor da Singer.  Potanto, uma parcela foi estipulada para ser dividida entre os companheiros.

O negócio corria de vento em popa, mas o mecanismo começou a atrapalhar. Fazendo as contas, Dona Antonieta percebeu que era a que menos ganhava com suas habilidades de linha e agulha. Talvez por isso, após uma noite insone e mal dormida, além do mais chuvosa, Tonina fugiu com o carcereiro. O que ninguém havia percebido é que a máquina Singer e o estoque de revistas já tinham desaparecido antes. A costureira só deixou as cortinas, que o juiz requisitou para sua sala.

Uma revoada de colibris

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Utilizado sem pedir licença, o título que adorna a coluna de hoje foi retirado de um belíssimo poema de Elisa Lucinda. Capixabíssimo, como a autora, como nós. Como a revoada de colibris são as palavras que jogamos na rede e voam ao acaso em busca de um leitor distraído, provavelmente insone. Com sorte, talvez dois. Colibris agitando as asas e desafiando a gravidade na manhãzinha de vento brando, café acabado de passar no coador de flanela. Cócegas atrás da orelha, carinho do meu-bem, angu com galinha ao molho pardo.

 

Palavras que voam atrás de um sonho, brincam com os anjos e se escondem na galharia do ingazeiro, e voltam ao coração na tardinha que morre devagar. Tal como as pombas de outro poeta, Raimundo Correa: “Mas aos pombais as pombas voltam, E eles (os sonhos) aos corações não voltam mais”. Errou, o poeta, que os sonhos voltam sempre, teimosos, persistentes, renovados depois de cada decepção, cada fracasso. Mas devem ser bem treinados, ou se pedem pelos tortuosos caminhos da desilusão.

 

Outro poeta, Carlos Drummond, disse a mesma coisa mas de um jeito diferente: No meio do caminho tinha uma pedra. Deixou na poeira algumas perguntas sem respostas – que caminho, de ida ou de volta? De lá pra cá ou daqui pra lá? Onde fica, exatamente, o meio do caminho? Quais pedras? Quantas? Ora direis, tanto faz, sabe cada um das pedras em que que tropeça. Ou que lhes atiram mãos intolerantes. Tantas…

 

Ia eu caminhando distraída na rotina matinal de desenferrujar os ossos, 1000 passadas: 500  na ida, 510 na volta (para desviar da vizinha com o cachorro)  e bum! Tropeço numa pedra no meio do caminho. Qual meio? 500 até onde dei meia-volta, ou 505, porque um cachorro mal educado me fez andar um pouco mais? A pedra me confunde mais ainda, pois era apenas um pedaço solto do asfalto. Outra dúvida, virou pedra ou voltou a ser a pedra que foi um dia, antes de virar asfalto? A pedra quebrou meu pé ou  meu pé quebrou a pedra?

 

Um passante assiste ao vexame e pergunta se estou bem. Ora, apenas uma queda inconsequente. Talvez não,  D. João VI tropeçou num baile na Ilha Fiscal e perdeu a coroa. Drummond tropeçou numa pedra de minério e escreveu um poema inteiro com apenas uma pedra. O povo já diz, Há topadas que ajudam a caminhar. A pedra do Drummond o fez criar um poema tão simples e no entanto,  perfeito. Daqueles que nos fazem pensar: Por que não pensei nisso antes? Que nem as revoadas de colibis, Por que não os Deixo aqui um conselho: não faça isso em casa. Vendo uma pedra no seu caminho, desvie.

 

Apesar das pedras do caminho, as pombas ao pombal sempre retornam. O sonhos idem, renovados, teimosos, corajosos. Não deu certo desta vez? Vamos tentar de outro jeito, bater em outra porta, amar um novo amor.  Tropeçou e caiu? Levanta e limpa a roupa suja de chão, de poeira, de decepções. Se olhar para o outro lado, talvez vislumbre uma revoada de colibris brincando com a brisa. E o dia estará salvo.

Imagem:  Viver Natural, Google.

Entre a salada e o vinho

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Poster na pizzaria:  ‘Comece com um bom vinho, porque nenhum grande romance começou com a salada’. No entanto, a salada é o começo, porque nenhum jantar termina com um vistoso prato de alfaces. Combinadas com tomates, elas criam a salada mais popular do mundo, a Caesar ou César,  que nada tem a ver com Júlio César, eternizado em carta de baralho, cesariana, os doze Césares. O nome czar da Rússia também veio de César.

 

Lurdinha estava no auge da dieta só-salada quando recebe um inesperado convite para um jantar. Para lembrar os velhos tempos, ele explica. Romântico? Talvez. César Augusto é um ex-amor que se casou com outra e reaparece viúvo e disponível. Lurdinha passa algumas noites insone, tramando a vingança, que é doce mas sempre deixa sequelas. A falecida era a melhor amiga e os dois a apunhalaram pelas costas. Há dez anos, mas por que esquecer?

 

Começamos com um bom vinho? ele pergunta. Sim, mas vou pedir apenas uma salada césar. Ele estranha, Numa churrascaria? Segundo o pai dos burros, o Google, a popular salada foi criada pelo chef Cesare Cardini, italiano americano radicado no México. Cardini participou de um concurso culinário na Bahia, e a salada foi premiada. Mas há outra versão, e ela teria  sido criada por outro italiano, Livio Santini, que era chef do Hotel Caesar’s, de Cesare Cardini. Que a registrou em seu nome. Outro traidor.

 

Para encerrar um jantar e começar um romance, nada como um cálice de Porto. Um vinho com personalidade própria, que apesar do nome, não é da cidade do Porto, que também não se chama Porto. Diziam antigamente que, mais antigamente ainda, as mamães cansadas das noites indormidas, punham umas gotinhas de vinho do Porto na mamadeira noturna. Os rebentos dormiam como anjinhos. Talvez seja bom para cólicas, ou talvez a mãe tomasse umas gotinhas também é não ouvia a choradeira.

 

Talvez pelos efeitos etílicos do porto, depois do segundo cálice Lurdinha já estava saboreando a picanha envolta em delicadas fatias de bacon, e Cesar Augusto comendo salada e confessando seu amor eterno e profundo arrependimento. Me deixei envolver, a mente obliterada pela cerveja. Devia tomado vinho naquele jantar… Alguma vez pensou em mim nesses dez anos? Ela pergunta.  Nunca parei de pensar em você, ele confessa. Lurdinha sabe que ele mente, mas acena para o garçom e pede uma cerveja.

O segredo

 

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As flores começaram a chegar em janeiro. Toda semana um buquê envolto em papel colorido. Lindos arranjos, mas nunca as mesmas flores. Daise investiga, pergunta a uns e outros, descobre qual é a floricultura… e fica nisso. Nada lhe é revelado. Em fevereiro as misteriosas remessas viram assunto entre os colegas de trabalho, todos dando palpites, sugestões, dicas de como descobrir o remetente. Ou a remetende, sabe-se lá, uma vez que se mantém anônimo ou anônima.

 

E as flores chegando. Daise é de poucos amigos, quase não sai de casa, o que torna as remessas ainda mais instigantes. Também não está interessada em admiradores, que com certeza não tem. Março aparece no calendário e as flores chegando. Ninguém veio informar que houve um engano, a gentileza é para a bonitona do segundo andar, bateram em sua porta por equívoco. Ou para a dondoca da cobertura, que todo mundo sabe,  recebe flores de todo mundo, menos do marido. Depois que o noivo a deixou a ver navios, Daise não recebia flores de ninguém.

 

A vida passa rápido mas os meses escorrem lentos. Em abril os buquês chegam duas vezes por semana, mesmo assim variando em estilo e tipo de flores. Nem sabia que existem tantas nos jardins da cidade. Tentando desvendar o florido mistério, em maio Daise resolve aderir à turma do escritório que frequenta o barzinho do sábado à noite – nenhuma pista. Em junho Daise aceita os convites da turma que vai a la praya aos domingos e dias santificados, seja por santos ou herois nacionais. Nada descobre, além do fato de que a turma é bem animada.

 

Em julho Daise está em desespero de causa, e adere à turma do prédio que frequenta a academia da esquina… Em agosto aceita o convite das primas para ir ao cinema. Setembro traz uma alteração – um cartão com um coração desenhado a mão. Rima demais, convenhamos, e mesmo assim infrutífera. Como também as idas constantes à floricultura. O dono é muito atencioso mas explica que existe um código de ética a ser respeitado, segredos do ofício a serem mantidos. Ou seja, em setembro Daise continua no mesmo estágio de janeiro – nada sabe e não desconfia de ninguém.

 

Mas reconhece que a vida melhorou e já nem se lembra do ex-noivo. Em outubro Daise muda o corte e cor do cabelo. Em novembro Ricardo, o dono da floricultura a convida para uma pizza.  Dezembro chega cheio de promessas e surpresas. Ricardo confessa que mandava as flores e tira do bolso as alianças. Mas antes avisou ao anônimo remetente semanal que a moça ficou noiva e ele não ia mais entregar os buquês. Perdeu um bom cliente, mas está feliz.

 

 

O que aconteceu com maio?

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Após uma noite insone mas bem dormida, deperto e – mais pelo hábito – confiro a hora no guardião inseparável: o celular, amigo das horas certas ou atrasadas. E levo um susto – o mostrador exibe sem dó nem pena, 06/01/18.  O que aconteceu com maio? Sumiu do mapa sem dar explicações ou deixar recado, tipo, Volto daqui a 11 meses. Há esperas piores, dirão os elefantes, cuja gestação dura 2 anos. Mesmo assim, doeu.

Aurora liga para a polícia, e sua voz mostra desespero: Tem algo misterioso acontecendo com meu grupo de amigas. De repente, todas estão morrendo. Sou a última, portanto estou correndo sério risco de vida. A voz do outro lado da linha quer saber quantas amigas. Mortas ou vivas? Você disse que todas morreram, menos você. Ah, tá certo, fora eu somos sete. Desculpa, éramos sete. Que tipo de morte, minha senhora? Como foi que morreram?

A Luzia foi de pneumonia, coitada. Uma gripezinha à toa. A Carlinha foi ataque cardíaco fulminante. Tava bem de saúde, nunca teve problema de coração.… parecia que era a mais saudável. Pensa que o filho voltou da Europa pra ver o enterro? Nem mandou flores… A voz do outro lado da linha a interrompe.  Toma um tylenol e vai dormir, Dona Aurora. Vê se não liga mais hoje. Se a senhora morrer durante a noite, pode deixar que a gente manda flores. Aurora vai dormir aliviada – sobreviveu a mais um maio.

Ainda nem é  verão e o calor nos assalta. Ainda nem chegou a temporada de furacões e já  tivemos duas semanas de chuvas por causa de um furacão. A filha da Aurora saiu de férias e esqueceu de voltar. Deixou a mãe sozinha, mesmo sabendo que a  octogenária  está perdendo todas as amigas – cada dia morre uma. A empregada se mandou, coisa de briga com o marido. A faxineira ia substituir mas foi pega pelo esquadrão Trump e sumariamente deportada. E olha que a filha dela votou  no homem.

Aurora deu a volta por cima – arranjou um namorado, que gentilmente retira o dinheiro no banco e faz o supermercado, cozinha, limpa a casa e anda o cachorro. Estranha expressão, anda o cachorro, uma vez que o mesmo anda sozinho. Embora você esteja pensando que o Jason vai dar o golpe do baú, ou pior, sumir com o dinheiro da Aurora, nada disso vai acontecer nessa história, porque o rapaz é esperto e não pretende matar sua pombinha dos ovos de ouro. O que acontceu com maio? Virou junho.

A festa do chá

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Essa semana estive em Boston, Massachusetts, para presenciar a formatura da primeira neta no Boston College, uma faculdade tão bonita que me senti em Hogwarts, esperando deparar com o Harry Potter a qualquer momento entre as aleias de tulipas. Parece até que houve mágica, porque nos quatro dias que lá estivemos, choveu e fez frio em três. Sendo a formatura ao ar livre, o tempo nos brindou com um lindo dia de sol. Horário: das 10 às três. Confirmo, canteiros de tulipas

Mas se quem vai a Roma tem que ver o papa, quem vai a Boston tem que ver Harvard, a mais antiga universidade americana. Está situada em Cambridge, mas são cidades irmãs e seus limites se confundem. Criada em 1636, esse ano ela registrou 22 mil estudantes, sendo esse o primeiro ano de sua história em que a maioria não é da elite branca americana. Harvard é considerada a melhor faculdade do mundo, e uma das mais respeitadas e almejadas, contando com um patrimônio de 34.5 bilhões de dólares. Com 80 livrarias, ela tem um acervo de 18 milhões de livros.

Logo ao chegar deparamos com uma longa fila de turistas esperando a vez para serem fotografados diante da estátua de John Harvard. Grandes telões estavam sendo instalados para as cerimônias de formatura no dia seguinte. Embora imponente, muitos visitantes ficam decepcionados pela falta de jardins floridos. Precisa? Por suas salas de aula passaram 8 presidentes americanos,157 prêmios Nobel, 48 Prêmios Pulitzer, 10 vencedores de Oscars, 108 ganhadores de medalhas olímpicas. Harvard já tinha quase 150 anos quando as 13 colônias se tornaram os Estados Unidos da América.

O que tem isso a ver com o chá? Em 1773, em Boston, ocorreu a famosa Tea Party, traduzida como festa do chá, mas que nada teve de festivo. Em três horas, 34 caixas de chá da Companhia das Índias foram retiradas de três navios ingleses e jogadas no Rio Charles. Uma questão de altos impostos, tal e qual o aumento do preço do pão deu início à Revolução Francesa. O Tea Party teve duas consequências dramáticas – desencadeou a guerra pela independência americana e fez os colonistas deixarem de tomar chá, um tradicional costume inglês. Hoje os americanos tomam  café, preferivelmente do Starbucks.

Arrogância também conta?

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Nesse mundo ou nos outros, caso existam, tanto as grandes empresas como os grandes países seguem um ciclo, e quem é grande hoje pode deixar de ser no próximo milênio ou no próximo século. Isso está tirando o sono dos americanos, e nada como um bom businessman para pôr a casa em ordem ou bagunçar de vez. É pagar pra ver no que vai dar.  Não que o barco esteja fazendo água – os States continuam na vanguarda como a maior economia  do mundo, numa corrida de obstáculos onde a segunda colocada, a China, está cada vez mais perto. Em breve a situação se inverte, e não há mágica que Trump possa fazer para mudar esse quadro.

 

Los brasileños  continuam no nosso eterno oitavo lugar,  sempre acomodado em berço explêndido, e com a vida correndo de mal a pior, como sempre. Enquanto isso, a distante Índia, que sempre foi sinônimo de pobreza, já  passou por nós e ocupa o sexto lugar no ranking. No ítem educação, que considero o mais importante para levar um país adiante, os Estados Unidos não estão entre os dez primeiros. A Finlândia é a campeã, seguida do Japão, Coreia, Dinamarca, Rússia. Brasil? Nem em sonhos ficamos entre os 100 primeiros.

 

Na qualidade de vida, a Finlândia outra vez sobe ao pódio, seguida pelo Canadá, Dinamarca, Austrália, Suíça.  Na melhor expectativa de vida Mônaco tira de letra com 90 anos, com Macau no segundo lugar, com 84 anos.  Macau?! Quando foi que vimos essa pequena ilha nas costas da China aparecendo nas estatísticas? Segundo dados oficiais, lá falam português, mas o mandarim predomina entre as massas. Os Estados Unidos não aparecem nos 10 primeiros lugares. Last but not least, ou seja, o último mas não menos importante, temos os melhores países em geral, e a Suíça brilha no primeiro lugar, seguida do Canadá, Alemanha, Inglaterra, Japão, Suécia, Austrália. Os Estados Unidos pegaram um fraco oitavo lugar. E nós? Kkkk.

 

Perder para os eternos campeões, como Suíça, Canadá, Inglaterra, não mata ninguém de vergonha. Mas ver países que nunca apareceram nesse rank passando por nós e dando adeuzinho, dói. Mas temos o melhor futebol do mundo (cabe um sic?) e o mais alto grau de calor humano. Haja desodorante. É o que sempre ouvi dizer, embora não levem isso em conta quando avaliam os fatores essenciais para uma vida digna e produtiva. Para o presidente americano arrogância também conta, mas até agora nada foi feito para diminuir os tiroteios nas escolas, que põe o país atrás na qualidade de vida. Mas qual político ousa contrariar um grupo tão poderoso como as empresas de armamento?

 

Mas não vamos dizer que nunca aparecemos nos primeiros lugares, seja lá do que for. Corrupção também conta?

Sem poluição não tem salvação

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Ilustração: Victor Frizzera, 11 anos. O cartaz garante: Não tem poluição

 

Carmem, futura candidata ao Nobel da limpeza, resolveu despoluir a casa. Convocou o marido, os filhos, e partiu pra guerra contra os excessos, Hoje só almoça quem me trouxer uma sacola cheia. Ninguém  reclamou, achando a ideia interessante, genial na verdade, e cada um pegou uma sacolinha do Walmart no depósito de sacolinhas vazias do Walmart. Nada disto, Carmem protesta, determinada a ir fundo no problema, e distribui sacolões de plástico preto onde caberia até o sofá da sala.

 

O marido protesta contra o desperdício, uma vez que sacolões de lixo são comprados e as sacolinhas  do Walmart são gratuitas. Ainda não estão cobrando, que eu saiba. De acordo com as estatísticas, uma família de quatro integrantes vai a um supermercado quatro vezes por semana. Em média, quer dizer, tem semana que vão mais, embora nas semanas que vão menos comprem dobrado. O debate sobre qual sacola usar durou meia hora, mas Carmem venceu, Comprei no Frisco e não vou devolver.

 

A América está cada vez mais pobre: depois da gloriosa invasão das lojas de um dólar, sempre lotadas, agora chegou a vez dos supermercados econômicos, onde não embalam e vendem mercadorias tipo genérico, marcas desconhecidas em embalagens mais simples, poucas variedades, poucos atendentes, sem sofisticação e sem música ambiente latina.  Tá dando certo – vivem cheios e Carmem até diminuiu as idas ao Walmart. Embora o sucesso do Walmart já tenha sido também um reflexo da decaída no poder aquisitivo da população, como dizem os economistas.


Mas ainda é cedo para desesperar, uma vez que o Trump está tornando a América rica outra vez. Se não os americanos, pelo menos ele. Disse alguém: Mora numa torre dourada, tem um helicóptero esperando no telhado, e casou com uma modelo 30 anos mais jovem, por que não votaríamos nele? E para não esquecer que o assunto da coluna é a poluição, voltamos à casa da Carmem, onde ocorre intenso combate à poluição doméstica, responsável por 40% da ambiental.

 

Cada um com sua sacola e seus excessos, e o relógio correndo atrás – meio dia e ninguém conseguiu encher sequer 2% do buraco negro, ou seja, o sacolão. Reclamações generalizadas, Podem comer uma banana, Carmem autoriza. Duas horas: Coca-cola para todos. Os dois filhos aproveitam uma distração da mãe e atacam o macarrão de ontem na geladeira. Frio, porque se usarem o microondas ela ouve. Estranho como ainda não inventaram um microondas cuja porta não faz barulho ao fechar. Os vizinhos contam quantas vezes o microondas é usado na casa da Carmem.

 

Desnecessário mencionar que o ataque aos excessos familiares ocorreu no sábado, e os celulares começam a receber estranhas mensagens cifradas – E o cinema que combinamos? (namorada do filho) A gente não vai ao boliche? (namorado da filha), O jogo já começou, estamos assistindo no Hooter (amigas da Carmem), Reunião mensal do clube do livro, 15 minutos atrasado (lembrete automático no celular do marido).

 

Não dá mais pra suportar, explode coração. Carmem dá a faxina por encerrada e as quatro sacolas que não conseguem ficar em pé, totalmente desnutridas,  vão para a lixeira, poluindo ainda mais o meio ambiente. Vão todos para o mesmo shopping, cada um no seu carro, onde os eventos mencionados acima já estão ocorrendo.  E o mundo não vai acabar por causa disto. Humm, sei não.

 

Com muitas flores

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Como tem acontecido todos os anos, em maio comemoro mais um aniversário. Eu sei, acontece com todos que estão vivos, às vezes até com quem não está. E tem muita gente que estaciona em uma certa idade, comemorando os mesmos 38 anos pelo resto da vida.  É a temida virada dos 40 – depois que entra nos ‘enta’ não sai mais. Diferente dos outros aniversários, porém, 2018 me presenteia com 80 anos de vida. E vamos em frente.

 

Gente famosa com 80 anos: atores Claudia Cardinale, Connie Francis, Elliot Gould, Christopher Lloyd, Michael Murphy, Jon Voight, John Dean, Liv Ullmann; escritores Joyce Carol Oates, Lynn Margulis, Alan Coren, Judy Blume, Mary Frances Berry; cantores, Kenny Rogers, Etta Jones, Alan Vega, Bill Withers. Tem gente que mesmo em idade tão vetusta continua fazendo de tudo, e fica difícil classificar: Connie Francis, Nico, Pat Buchanan. O que têm eles a ver comigo? Nascemos todos em 1938.


Se rir prolonga a vida, vamos comemorar rindo da velhice alheia. Bob Hope: A gente sabe que ficou velho quando as velas custam mais que o bolo. Faith Baldwin: O tempo é um costureiro especializado em reformas. Lucille Ball: O segredo de permanecer jovem é viver honestamente, comer devagar e mentir sobre sua idade. Bernard Baruch: Para mim, velho é quem tem mais 15 anos do que eu. George Burns: Não revelo minha idade, mas quando eu era jovem o Mar Morto ainda estava vivo. 

 

A vantagem é que a gente não precisa do Google pra lembrar o que aconteceu em 1938. Janeiro: Primeiro concerto de jazz no Carnegie Hall, Londres (Benny Goodman). Fevereiro: Primeira apresentação pública de TV a cores, por Baird também em em Londres. Março: Primeiro noticiário radiofônico transmitido pela  CBS Radio, dos Estados Unidos. Abril: Roy J. Plunkett inventa o Teflon. Maio: Estreia o primeiro filme do Robin Hood, com Errol Flynn e Olivia de Havilland. Junho: Superman aparece pela primeira vez na DC Comics. 

 

Julho: Howard Hughes dá a volta ao mundo em 91 horas. Agosto: Um filme é  lançado  pela primeira  TV, “O estudante de Praga”, pela BBC de Londres. Setembro: Uma cápsula do tempo é enterrada na Feira Mundial de Nova York, para ser aberta em 6939. Quem viver verá. Outubro: Os Estados Unidos proíbem o trabalho infantil nas fábricas. Novembro: Crystal Bird Fauset é a primeira negra a se eleger ao senado americano. Dezembro: Dr. R.N. Hargers inventa o bafômetro.  

 

Pra não dizer que não deixei boas dicas para meus jovens leitores, aqui vão dois conselhos para chegar bem aos cem anos:  Você só é jovem uma vez, mas pode continuar imaturo indefinidamente (Ogden Nash); Os primeiros cem anos são os mais difíceis (Wilson Mizner).