Estranho mundo velho

HardRock

Antigamente dizer que alguém andava nas nuvens era ofensa. Hoje, quem vive nas nuvens está antenado, na moda, atualizado. Tela grande indicava cinema, telinha é a da TV da sua casa. Não mais. A empresa especializada em eletrônicos de luxo, C SEED , criou a maior TV residencial do mundo, medindo 61 metros de comprimento por 25 de largura. Preço? $500 mil dólares. Conforto é na poltrona da sala, cinema é pra ver filme sentado, mas os cinemas de hoje não cochilam em serviço. Com poltronas estofadas para maior conforto, e cada vez mais reclinadas, se o filme não for de muita ação, muita pancadaria, todo mundo dorme.

 

Filho de 10 anos reclamando com o pai: O iPad do Pedrinho é muito melhor que o meu, e ele só tem dois anos. A necessidade de impressionar os outros começa cedo. Esposa briga com o marido por comprar o novo iPhone, que está custando mais de mil dólares, Qual o problema com o outro celular? Todos os meus amigos já compraram o novo. E assim vamos vivendo a era do desperdício, adquirindo o modelo mais novo, o carro do ano, a roupa da moda. Ter o que há de melhor. Mas se todos decidissem não comprar porque está caro, será que os preços cairiam?

 

E os índios, como ficam? Se no Brasil índio depende da boa vontade dos governos para sobreviver, a tribo dos Seminoles na Flórida está na lista das empresas mais ricas do mundo. As rígidas leis do estado contra o jogo ironicamente ajudaram a criar um dos maiores complexos de hotéis e jogos de azar do mundo – o Hard Rock Hotel e Cassino da tribo Seminoles, que está investindo 1.5 bilhões de dólares em um ousado projeto de expansão. O ponto alto – nos dois sentidos  –  é o novo prédio de 140 metros de altura em formato de guitarra, que promete se tornar ponto de referência do estado.

 

Também teremos em breve mais um gigantesco shopping center para superar o Dolphin Mall e o Sawgrass Mill, os gigantes da Flórida. Mas não andam apregoando que os shoppings estão agonizando, superados pelas vendas online? Uma novidade superando a anterior é disputa antiga, desde que Gutemberg inventou a imprensa e os datilógrafos acharam que perderiam seus empregos. Essa função existe ainda hoje, o que mudou foram as máquinas de datilografar. O primeiro livro publicado por Gutemberg, a Bíblia, tinha apenas 42 linhas em cada página, sem pontuação e parágrafos.

 

Conversa de avó no celular  – Siri, liga pro Lulu, meu netinho. Desculpe, não consigo entender sua solicitação. O Lulu, menina, tá fazendo faculdade em Miami. Desculpe, nome não encontrado. Favor fornecer detalhes mais específicos. Vovó fala bem devagar, Lu – lu – meu – ne – to – de – Mi – a – mi. Desculpe, registro não encontrado. Essa tal Siri é burra mesmo!

Otimista, eu?

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O telefone  tocou cedo, acordou assustada. Voz impessoal e bem treinada, altamente profissional, “Sua aplicação para o cargo em aberto foi aceita, parabéns. Favor se apresentar na segunda-feira, Setor de Recursos Humanos, com documentação atualizada e foto 3×4 recente.” Segunda-feira? É sábado, serão dois dias de ansiedade e expectativa, mas tudo bem, que tudo vai se acabar na segunda-feira. Liga pra Carminha, melhor amiga, pra contar a novidade. Praia cancelada, amiga.

 

A amiga se entusiasma, regozija, bate palmas, que boas amigas são pra essas horas. Vamos pro shopping, então. Uma roupinha nova levanta a moral e dá boa impressão. Mostra que você valoriza o cargo e a empresa. Fazer unha e cabelo, também ajuda. Ah, mas tô tão nervosa… Ora, você já venceu a parte pior, entrevista de emprego é barra, né? Teve entrevista não. Então vai ter, ninguém emprega sem entrevistar antes. Isso já foi superado, a gente manda o currículo, o que conta são as boas qualificações, a experiência para a posição.

 

A amiga quer saber qual posição, curiosa demais. Como saber, apliquei para tantas, qualquer uma será bem-vinda, tô muito precisada. Quem num tá? Combinam o encontro no shopping, Beijim, Beijim. Desligo. Gina dança escovando os dentes, canta no chuveiro, põe uma flor na bandeja do café da manhã e vai tomar na varanda. E então lhe ocorre uma dúvida atroz, Qual empresa? O telefonema não informou, e se aplicou para muitas posições, idem, idem para muitas empresas. Qual ligou? Em qual delas deve estar na manhã da segunda-feira, devidamente documentada para começar uma nova e maravilhosa vida?

 

Gina volta ao telefone para localizar chamada e chamador – Caller ID, que o telefone foi comprado no Paraguai. E para seu espanto lá está: 555-7555. Não acredita, checa a mensagem,  checa o número. Trote às seis da manhã no sábado? Gina veste o biquini e vai pra praia sozinha, e não atende as 20 chamadas da futura ex-amiga no celular. Na número 21, seis da tarde, ela aperta a  bolinha verde, Cadê você, amiga, q’qui aconteceu? Passei o dia no shopping te esperando, tô aqui no desespero. Aconteceu nada não, resolvi vir pra praia. Não ia perder o dia de sol por causa de um empreguinho, né? A falsa amiga entende, Desligo.

 

Amizade de longa data supera crises e desafios, e no domingo Carminha bate na casa da amiga, biquini na bolsa, pedindo desculpas pela brincadeira de mal gosto. Não fiz por mal, ia te contar no shopping. Não vamos estragar uma amizade que remonta ao jardim de infância, né? Gina diz tudo bem, pega um copo na pia e põe água pela metade, O que você vê nesse copo?  Um copo vazio pela metade. Carlinha a corrige, Não, um copo cheio pela metade. Ontem passei a metade do dia feliz, portanto valeu. Com quem mais vai à praia?

Komo chegaram aki?

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Houve um tempo em que as  letras  K, Y e W oficialmente não existiam no vocabulário brasileiro, até que um dia o óbvio se impôs e as letrinhas esnobes vieram alegrar nossa linguagem escrita. Claro que o W e eu já nos entendíamos bem, mas não houve grandes mudanças sociais e morais no país com a referida inclusão. Sugiro, portanto, expandir o repertório e torná-los mais efetivos. Por exemplo, para diferenciar casa e kasa – o substantivo concreto com C designando o imóvel que habitamos, e o verbo kasar para indicar kasamento, relacionamentos sacramentados na igreja e/ou no cartório. Ficaria mais elegante nas colunas sociais: Kasam-se nesse final de semana na Ygreja de Wiana, Karlos, funcionário da Korte de Justiça e Yrene, proprietária da Corte e Costura. Ficou mais claro, não?

 

Quem recebe a cidadania americana pode mudar o nome, e o personagem mais famoso a aceitar o privilégio foi Kal-El, que migrou do planeta Krypton.  Até hoje o nome Clark é o mais adotado pelos novos cidadãos estadunidenses, principalmente os oriundos dos países de linguagem hieroglífica, como Japão, Coréia, etc. Meu nome aqui é pronunciado Uanda, que lembra Uganda,  um país triste. Quando recebi minha cidadania o funcionário me aconselhou a mudar de nome. Pensei em trocar para Vanda, mas ele se referia ao Sily, que soa mal aqui. Poderia trocar para Wanda King ou Vanda Rowling, nomes que me dariam grande vantagem com o público leitor. ‘Parente do Stephen King?’ Mas pensando na dor de cabeça que seria trocar toda a papelada oficial recusei o conselho. Ele ficou decepcionado.

 

Os nomes com K, Y, W eram mal-vistos entre nós – por que Yara se temos o I com o mesmo som, e o Y não consta do alfabeto? Devia ser proibido. Meu segundo nome, Eduvirges,  homenageia minha avó materna, mas os oficiais dos cartórios de registro civil frequentemente alteram os nomes, por maldade ou ignorância, sei lá. Minha avó se chamava Edwiges, e o sujeito ignorou o nome que meu pai lhe deu por escrito em uma folha de papel, em letras garrafais. Depois de registrado no livro sagrado de todos os nomes, é quase impossível corrigir ou alterar. Talvez o sujeito fosse nacionalista ferrenho e abominava estrangeirismos.

 

Yris Kardoso também era contra a intromissão dos alienígenas no vocabulário, e odiava o nome que os pais lhe impuseram – ofensa dupla, num tempo em que essas letras eram ainda invasoras inúteis. Quando se apaixonou por Nesio Walparaiso, o promissor romance foi frustrado quando Yris viu como o nome do namorado era escrito. A jovem já sofria com o Y e o K, e adicionar um W seria demais para ela. Tentando salvar o relacionamento, Nesio sugeriu que ela não adotasse o Walparayso, mas Yris recusou, pensando nos futuros filhos chamando-se Kardoso Walparayso. Mesmo sofrendo desesperadamente, Yris preferiu continuar solteira.

 

Quando as três letras desprezadas foram oficialmente incorporadas ao abecedário tupynikim, Yris se arrependeu de seus exageros linguísticos e foi procurar o Nesio, que infelizmente já estava casado com uma Keyla Kouto. Sabendo bem como andam os casamentos hoje em dia, Yris não se desesperou, e quando soube do divórcio, voltou a apostar no antigo romance. Deu certo – eles se kasaram na Ygreja de Wiana e o filho se chamou Yldo Kardoso Walparaiso.  Não tiveram outros, pois infelizmente logo se divorcyaram.

A moça no quadro

 

grito“O Grito”, Edvard Munch

 
No saguão de entrada do Edifício Hertez, onde se instala o Departamento das Ciências Futuras, um quadro em tamanho natural de uma bela jovem enfeita a parede principal, limitado por uma sofisticada moldura dourada. Uma placa de bronze ao pé do quadro informa: Jane Hertez, 1930. Na parede em frente uma poltrona antiga combina com o estilo do quadro, embora tudo mais em volta contraste com a solenidade da pintura – o piso de granito, os móveis futuristas, um mural de avisos com a cortiça encoberta por papéis espetados com alfinetes.

 

Todas as tardes uma velha senhora vem se sentar na poltrona antiga, o brocado quase despido de sua cor original. A bolsa fora de moda esquecida no colo, a sombrinha pendurada no braço, não importa qual seja a previsão do tempo. Nenhum dos muitos funcionários daquele departamento sabe quem é ela, como vem ou como vai embora – velha demais para dirigir e ônibus nessa área são como Lamborghinis no Brasil, raríssimos. Ela fica ali olhando a moça do quadro, que parece olhar de volta agradecida pela honra das  visitas constantes.

 

As pessoas ocupadas  em  ir e vir, subordinadas a horários e tarefas inadiáveis  não reparam no quadro pintado por um pintor primoroso, nem na senhora distraída que com certeza também não repara nelas. A velha fica horas olhando o quadro como se olhasse o passado, os olhos voltando no tempo ou encarando o vazio de uma vida já vivida, esperando o que ainda resta dela. Quando o relógio em neon da recepção marca seis horas ela vai embora, e sua ausência, tal como sua presença diária, não é percebida.  

 

Mas no dia em que não veio a poltrona vazia chamou a atenção de todos como o grito de dor do quadro de Edvard Munch.  O que houve com a senhora que vem todas as tardes? Teria adoecido, morrido ou simplesmente cansou de sua visita inútil? As pessoas mais antigas no departamento se deram conta de ela já estava ali quando elas chegaram, outras perceberam que ela nunca faltou um só dia, outras ainda se comoveram com aquela adoração silenciosa pela pessoa retratada. Por fim alguém chega com a notícia publicada em um jornal local, anunciando o falecimento de Jane Hertez.

 

Aposto que todos apostam que a velha senhora recentemente falecida e a moça do quadro são a mesma pessoa. Mas sempre se pode encontrar um final surpreendente, seja para uma história real ou nem tanto. Jane Hertez, a jovem no retrato, foi uma  emérita filantropa que doou os fundos para a construção do edifício onde se instala o Departamento das Ciências Futuras, ora falecida e devidamente homenageada por um jornal local. A universidade beneficiada a esqueceu, e nenhuma cerimônia ou culto foi programado.

 

Com o mistério resolvido, todos esqueceram a persistente visitante, até que, passadas algumas semanas, lá vem ela de novo – a mesma roupa fora de moda, a mesma bolsa antiquada, a mesma sombrinha sem chuva, o mesmo olhar parado na adoração ao quadro na parede. Indagada quem era ou porque ali vinha, nada respondeu, mas alguém garantiu ter visto uma lágrima rolar de seus olhos cansados quando informada que a moça do quadro havia falecido.

Admirável mundo novo

 

 

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Há muitos e muitos anos um jatinho caiu na Amazônia e os cinco ocupantes supostamente morreram. Supostamente indica que não houve total comprovação do fato,  pois apenas quatro corpos foram encontrados. Maria Eneida desapareceu sem deixar vestígios, e após longas buscas, a polícia decretou oficialmente sua morte. Piranhas e anacondas abundam na área, bem se sabe, e o pouco que sobra de seus banquetes somem no fundo dos muitos afluentes e confluentes do grande rio. Fora igapós e igarapés e tantos mais.

 

O tempo passou e um belo dia Maria Eneida aparece, vivinha e vendendo saúde. Foi salva da morte por uma tribo inculta e nao registrada nos arquivos oficias – os patatis, e com eles viveu por muitos anos. Foi muito bem tratada, aprendeu coisas do mundo primitivo e ensinou outras do mundo moderno, sem porém poder voltar ao convívio das pessoas civilizadas. Um dia a tribo foi descoberta, devidamente educada e catequizada nos princípios da modernidade,  e a antes jovem e agora senhoril pessoa volta para casa. Imaginemos  o choque, pois nosso rotundo globo mudou mais nesses últimos 50 anos que em toda sua trajetória anterior. Ou  melhor dizer, rotatória anterior.

 

A casa não tem telefone? Preciso voltar ao meu antigo emprego. Decepcionada, Maria Eneida descobre que ninguém mais trabalha como telefonista. Como assim? Quem faz as ligações? Ninguém usa telefone, mãe. Objeto obsoleto e fora de moda. Onde tem lenha pro fogão? Quem encera o piso de madeira? Não tem tanque pra lavar a roupa? Os três filhos que deixou ainda jovens, tão unidos, não se falam mais, e só se comunicam por pequenos aparelhos que carregam para toda parte, até  mesmo no banheiro. O que houve, por que brigaram? Ninguém brigou, mãe, é assim que as pessoas se comunicam hoje em dia. O marido, por quem morria de ciúme por causa das colegas do escritório, considerando-se viúvo casou de novo. Com um colega do escritório.

 

Nos tempos que viveu como imigrante ilegal em Miami, Maria Eneida acompanhou  na imprensa o caso de um milionário que a esposa pegou em flagrante delito de traição explícita com uma certa atrizinha chamada Marla não sei das quantas. As consequências foram drásticas – divórcio, escândalo, execração pública. A carreira do executivo acabou, faliu. Esse nunca mais se refaz. Qual não é o espanto quando Maria Eneida vê o sujeito cheio de pompa e circunstância, a mesma pose e o mesmo topete, aos berros na televisão. Quem? O novo presidente da república?

 

Maria Eneida descobre um novo mundo dominado pelas ondas virtuais, todo mundo antenado na tal nuvem que envolve o planeta. Isso é espionagem, não existe privacidade, todo mundo sabe da vida de todo mundo! Grita, mas ninguém se importa. Dinheiro, que era bom, sumiu – todos pedem o cartão de crédito… ou não leva a mercadoria.  Os russos não são mais a grande ameaça do planeta e todo produto que compra vem da China. Os patatis viviam de forma primitiva e até praticavam o canibalismo, mas só comiam os inimigos. Maria Eneida já comprou a passagem de volta – vivia muito mais tranquila entre eles.

Amor no Reveillon

 

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Nada melhor para adentrar um novo ano que um novo amor. Ou nada melhor que achar um novo amor no Ano Novo. Dependendo dos parâmetros, naturalmente. Se Bia ama o Dino mas no reveillon de Copacabana esbarra no Tito e se  apaixonam, não será um bom início de ano para o que virou passado. Tudo porque o Dino perdeu o bonde  e não chegou na praia. Também insatisfeita ficou a Lurdinha, que amava o Tito e esperava uma declaração de reciprocidade no pipocar dos fogos dessa noite festiva.

 

O trânsito engarrafado fez Lurdinha perder os fogos e o namorado – quando chegou ambos já tinham desaparecido.  Tito passaria a noite triste e solitário, mas já sabemos que houve um esbarro, e a vida de quatro pessoas mudou de rumo. Os descuidos do acaso atrapalharam ou os astros favoreceram? Talvez os desprezados não representassem o amor puro e verdadeiro cantado pelos poetas e com o qual todos sonham. Ou quem sabe os caprichos do coração tenham regras próprias e não se curvam diante das manifestações do acaso… Por certo o esbarro foi programado nas estrelas.

 

Nada melhor para aquecer o inusitado frio que assola a terra de eterno verão do que ver o amor surgir de situações inesperadas.  Adriana e Marcos se encontraram no reveillon de Miami Beach apenas porque coincidentemente usavam camisas iguais – a mesma cor verde, a mesma marca e o mesmo Happy New Year em letras douradas. Quer dizer, se não existissem roupas unissex, eles passariam um pelo outro e seguiriam seus rumos na vida. Tal e qual linhas paralelas,  jamais se encontrariam. Marcos nem gostou da camisa, mas a namorada deu de presente e ficava chato passar adiante. Marcos e Adriana estão casados há 20 anos,  mas a ex-namorada continua sozinha, até hoje lamentando o presente dado, ‘Devia ter comprado a de cor azul’.

 

Melhor ainda quando o amor de reveillon derruba impedimentos e ressentimentos arraigados, mesmo que absurdos. Os donos do Supermercado Estrela eram inimigos figadais dos donos do Supermercado Romano, acintosamente  instalado na esquina oposta, embora os Romanos garantam que chegaram primeiro. Tal proximidade provocou um feudo entre as duas  famílias que perdurou por três gerações. Ferrenha rivalidade, porém, não impediu Romeu Estrela de se apaixonar por Julieta Romano no reveillon de Camburi. Iemanjá estava de bom humor e a paixão foi correspondida, mesmo que proibida.

 

As forças ocultas que manipulam os mesquinhos interesses humanos tudo fizeram para impedir o romance, condenado a um final infeliz e trágico. Mas a decisão é minha – morrem os dois de paixão no final dessa história e eu fico famosa, ou deixo o amor vencer e continuo na obscuridade? Melhor deixar os dois pombinhos serem felizes para sempre, envelhecendo cercados de filhos e netos. E como o amor é cego mas não é burro, os supermercados também se uniram, mudando o nome para Estrela Romana.

 

 

 

 

Entre Tonga e Samoa

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Mais um ano se esgota no calendário do tempo, chora o pessimista; mais um ano que chega, regozija-se o otimista. Com sorte, suor e um bom gene ganhamos mais 365 dias para vencer os obstáculos de  2018 e chegar a 2019 – 12 meses, 51 semanas, 8640 horas, que se esgotarão com a rapidez do piscar das luzinhas do extinto natal. O presente que ganhamos a cada novo ano é esquecer as pedras do caminho, renovando as mesmas esperanças para a próxima jornada.

A entrada de um novo ano é comemorada em quase todo o mundo há mais de 4 mil anos, mas se nosso esférico habitat tem horários tão diversos, onde 2018 vai chegar primeiro? A pequena ilha de Tonga, no Pacífico,  vai receber o Ano Novo quando o Big Ben em Londres bater as 10 da matina. Já os últimos suspiros de 2017 soarão nas pequenas ilhas americanas Baker e Howland ao meio dia de primeiro de janeiro. Mas não pegue um avião para terminar o ano por último, pois não vai ter festa: essas ilhas não são habitadas. Mas você pode comemorar em Samoa, o último lugar com gente para festejar o evento. A ironia dos nossos fusos horários é que  Samoa fica a uns mil quilômetros de Tonga, onde a festa já acabou há muito tempo.  

Procurando no Google os melhores lugares do mundo para comemorar a chegada de 2018, deparo com a Praia de Copacabana nos primeiros lugares das listas. “Embora o Rio seja mais conhecido por seu carnaval, a comemoração de Ano Novo chega perto no segundo lugar. A famosa Praia de Copacabana tem a maior e mais selvagem festa de Ano Novo do planeta, quando mais de 2 milhões de pessoas se apertam em seus 4 quilômetros de areia”. Devo esclarecer que minha pesquisa tem  razões informativas, apenas – não planejo viajar em busca da melhor festa de Ano Novo do planeta. Mas bem que gostaria.

A chegada de mais um ano provoca nos inquietos seres pensantes uma avalanche de boas intenções e interações, que Oscar Wilde definiu muito bem: “As boas resoluções de fim de ano são simplesmente cheques que passamos de um banco onde não temos conta”. Quem não tem pelo menos uma já morreu e não foi informado. Além do esforço para emagrecer e fazer exercícios, campeões de todos os anos, tem até quem prometa beijar os filhos, pelo menos na noite do próximo natal. Ou lavar o cabelo uma vez por mês em 2018.

Ouvidas ao acaso nos corredores dos shoppings ou nas caminhadas matinais: Economizar água reusando os pratos sem lavar;  Gastar tempo real com a esposa em vez de só se comunicar com ela no WhatsApp; Gastar menos do que ganha, se conseguir um bom aumento; Trocar a senha 00000000 por outra mais criativa. Mas até que não é má ideia – quem vai raquear meu computador tentando essa senha? Meus ardentes votos de boas entradas para meus pacientes leitores se inspiram em Joey Adams, “Que seus problemas em 2018 durem tanto quanto suas resoluções de Ano Novo”.

Natal no céu

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Se na terra o natal é tão  bonito, imagina como deve ser o Natal no céu… Por certo sem árvores cheias de bolas coloridas, mas com muitos flocos de nuvens para imitar as árvores da terra. Embora azuis. Os anjos responsáveis pelos eventos sociais do paraíso não deixaram nada para a última hora e  tudo foi bem organizado para o ser o melhor aniversário, tanto na terra como no céu.  Afinal, das três pessoas da Santíssima Trindade, só o Filho tem um aniversário para comemorar. Portanto, Faça-se a luz!

 

Como acontece todos os anos, os convidados de honra são os pais terrenos, Maria e José, os apóstolos, Paulo e João Batista. Mas naturalmente toda a coorte celeste estará presente – Todos os santos e mártires, anjos e arcanjos e querubins, serafins e potestades, e para não dizer que esqueceram de alguém, todas as almas boas. Pode parecer muita gente, mas é o céu, e quanto mais gente, melhor. Aliás, esse é o melhor presente para o aniversariante – que todos nós alcancemos o paraíso.

 

Nessa festa ninguém falta, porque no céu não há desculpas para não comparecer –  tudo corre sempre muito bem com todos. Nem mesmo São Nicolau, vulgarmente chamado Papai Noel, pode dizer que hoje sinto muito mas não vai dar, esse é o único dia em que trabalho no ano todo e as crianças do mundo esperam por meus presentes. Isso porque não existe tempo no paraíso e tudo pode acontecer simultâneamente.

 

O céu tem muitas outras vantagens – é sempre feriado e ninguém trabalha; ninguém fica doente; o clima é sempre ameno; todos os vizinhos são pessoas de bem. Interessante é que, apesar de tantas benesses, ninguém está preocupado em garantir a entrada, mesmo sendo gratuita e sem fila. Ironicamente, quando anunciam um show da Lady Gaga, na mesma hora os ingressos se esgotam. Para um privilégio que dura apenas duas horas.

 

As estrelas do firmamento foram convocadas para exibir seus brilhos mais intensos e todos os astros se alinharão em perfeita harmonia, para que essa seja a mais bonita de todas as noites. O coro celeste tocará as novas canções natalinas criadas especialmente para o grande dia – músicas que, no ano seguinte, estarão sendo cantadas na terra, porque os compositores humanos são ‘inspirados’ a recriá-las. Mesmo porque toda música é de inspiração divina. Hmm, será que a dos rappers também?!

 

Os Beatles ainda não puderam se apresentar nessa festa, porque ainda falta um. Mas Sir George Martin, o desditoso quinto Beatle, cantará algumas músicas que criou para o grupo e nunca foram tocadas. George entrou no céu sem os testes preliminares exigidos para a maioria dos novatos – ele já pagou todos os pecados na terra por ter deixado o grupo musical mais famoso do mundo. Como não poderia faltar, Prince vai cantar Purple Rain, e como efeito especial, cairá uma chuva de luz púrpura sobre os convidados.

 

Entre as iguarias servidas terão ambrosias e todos os pratos que só-minha-mãe-sabia-fazer, quer dizer, o prato preferido na terra de cada um dos convidados. Uma vez que ali não falta nada, é impossível dar presentes, mas as crianças podem pular nuvens até mais tarde. À meia-noite Jesus divide o pão e transforma a água em vinho, distribuindo-os igualmente entre os convidados, e a festa se encerra com o tradicional Parabéns para Ele.

 

Que esse ano sua festa de Natal seja parecida com esta – com todos que você ama e com tudo que você mais gosta, e vai se sentir no paraíso.

 

Dois milagres de Natal

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1 – Natal não é sinônimo de milagre

Baltazar odeia o Natal e não acredita em Papai Noel. A mãe morreu cedo e o pai nunca se deu ao trabalho de lhe dar amor, muito menos um presente, seja no natal ou em qualquer outra época do ano. O pouco que ganhava gastava em bebida, e desde muito cedo Baltazar aprendeu a fazer biscastes pela vizinhança em troca de um prato de comida. O tempo passou, o mundo deu voltas, mas uma vida estável não mudou o menino infeliz que ainda se revolta dentro dele.

 

Baltazar nunca teve a quem dar ou de quem receber um presente, e continua odiando os muitos natais que passam por sua vida. Nas festinhas de Amigo Oculto no trabalho sempre se omite, não vê motivos para participar de um troca-troca de coisas inúteis com valor estipulado, e não se insere na falsa alegria dos brindes e votos de boas festas. Esse ano, porém, Natal pode ser sinônimo de milagre.

 

Maria surgiu do nada, justo o nome da mãe de Jesus, e não falta nada para ser mais santa, até um filho ela sustenta sozinha. Está sempre sorrindo, apesar da vida difícil e do dinheiro esticado para cobrir as despesas até o fim do mês. Não mais que de repente, ela o convida para a ceia na casa dos pais, quer que conheça o filho e a familia. Pela primeira vez Baltazar entra numa loja para comprar presentes, e talvez até ganhe também seu primeiro presente de natal.

 

2 – Natal pode ser sinônimo de milagre.

 

 

Maria trabalha no Walmart e sustenta sozinha um filho de 7 anos em Pompano Beach, o reduto de brasileiros na Florida. Apesar da vida dificil, Maria é alegre e sempre gentil com os colegas e paciente com a freguesia. Ver gente com dinheiro fazendo compras é até divertido – no âmbito do restrito orçamento de Maria, qualquer um que chega no caixa com o carrinho cheio é rico. Em dezembro o ritmo acelera, mas as horas extras permitem comemorar o Natal do jeito que deve ser – com uma boa ceia e presentes para todos.

 

Maria divide o pagamento extra com a precisão de um cientista partindo um átomo – o presente do filho, os presentes dos pais,  um sapato para si mesma. Mas esse ano o natal será um pouco diferente. Baltazar apareceu do nada, justo o nome de um dos reis magos, e só falta o camelo para ser mais mágico. Maria teve que mudar sua lista para incluir um presente para ele, que aceitou, ou melhor, insinuou um convite para passar o natal com ela.

 

O pai ia ganhar uma camisa mas vai ganhar um par de meias; a mãe sonhava com algo pessoal, mas já ganhou uns pratos decentes para a ceia. Em vez do iPad o filho vai ganhar uma calça jeans, e o sapato foi eliminado do esquema. Baltazar chega distribuindo sorrisos e embrulhos – uma camisa para o pai, um perfume para a mãe,  o iPad para o menino, e um sapato com bolsa combinando para Maria. A noite não poderia ter sido mais feliz.

Quem quer dinheiro?

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Não sei a razão ou o motivo, mas hoje resolvi escrever sobre dinheiro. O alheio, claro, que o meu não daria para escrever duas linhas. Mas não sei por qual razão ou motivo, com a matéria já escrita e revisada, decidi não dissecar as banalidades do vil metal. Vil, no caso, é uma clssificação injusta, uma vez que o dinheiro propriamente dito nunca fez mal a ninguém. Seria o mesmo que ofender a bala, que não mata por vontade própria.

 

Não sei porque temos essa atração pela vida e obra, mais precisamente pelos detalhes pessoais ou escabrosos dos ricos e famosos. Vejo no jornal duas notícias estampadas lado a lado na primeira página : 1 – Bill Gates tropeça no meio fio e cai quando visita o Rockefeller Center; 2 –  Funcionária do Walmart escorrega numa casca de banana e cai dos 102 andares do Empire State Building. Qual das duas notícias você vai ler primeiro?

 

Mesmo reconhecendo que a segunda notícia é mais instigante – Caiu como, tinha seguro, morreu, sobreviveu? Escorregou ou alguém empurrou? – vamos dar uma olhadinha primeiro na primeira notícia, porque o Walmart tem mais de um milhão de funcionários, enquanto os bilionários do mundo são apenas 1.500. A maioria deles, ou seja, 563 , são americanos, mas o grupo da Ásia ameaça superá-los em apenas quatro anos. Vamos aguardar.

 

Se as pessoas que mais nos interessam são as mais ricas, então tem mais gente interessante nas notícias citadas acima, e o mais rico não é o Bill. John D. Rockefeller, que construiu o Rockefeller Center, sobe ao pódio como o americano mais rico de todos os tempos. Outro bilionário participando nessa história, embora indiretamente, é o dono do Walmart, Sam Walton. Mas não se apresse em concluir que o americano mais rico de todos os tempos é também o homem mais rico do mundo.

 

Deu na Forbes: Mansa Musa I, de Mali, um rei africano do Século XIV, é o homem mais rico de todos os tempos. Com o ajuste da moeda para os valores de hoje, o africano acumulou 400 bilhões. O segundo lugar na lista ficou pobre. Mas sempre se fica com a pulga atrás da orelha, como se dizia no tempo dos mercados das pulgas, quando os mais ricos são cabeças coroadas, ou filhos/filhas deles. Questão de privilégios ou desvios, ou as duas coisas juntas. Somos especialistas no assunto.

 

Vamos dar uma olhada na queda do Walmart, ou melhor, da funcionária que deu azar em dobro: primeiro, por cair, segundo, cair na mesma hora do Gates. Pobre não tem vez mesmo. Joana Mirenes, porto-riquenha, três filhos pequenos, marido também funcionário do Walmart, quer dizer, também mal pago. Com sorte caiu sobre o toldo na entrada do prédio, tal como acontece nos filmes de ação, quebrou duas costelas e passa bem. O Sam lhe mandou uma cesta de frutas, sem bananas.

 

O que nos intriga nessa notícia não é o Bill Gates ir assistir ao acender das luzes da famosa árvore de natal do Rockefeller Center, bem no meio do povão, mas a Joana estar visitando o Empire State, com a entrada custando 36 dólares. A notícia não esclarece, mas se Joana levou os três filhos, imaginem quanto gastou para subir num elevador e ver a vista. Se não quiser enfrentar uma longa fila, paga dobrado.

 

Quanto ao agora famoso Mansa, não o julguemos por desvios de verbas apenas porque era rei. Segundo consta, o africano era bonzinho, tendo construído muitos centros educacionais e mesquitas em toda a África. Outra boazinha e também frequentadora das listas de bilionários da Forbes, a apresentadora Oprah Winfrey diz numa entrevista que a fortuna não mudou seu modo de ser, “Mantenho os pés no chão, mas o sapato é mais caro”.