Ano 2000 – Primeira coluna

 Quem é a escritora:

Nascida em Muniz Freire – sul do Espírito Santo, Wanda Sily vai frequentar, a partir deste Domingo, diretamente de Miami – onde reside -, as páginas de SéculO DIÁRIO, para deleite de nossos internautas. Formou-se em magistério e 1961, casou-se mundando-se para Vitória. Na Capital teve contato com a pobreza da região, com a população carente e as catástrofes ocorridas à sua volta, lhe despertando a vontade de relatar o que vê. Publicou crônicas no Jornal A Gazeta dureante cinco anos. Wanda obteve o primeiro lugar em vários concursos de contos, crônicas, romance e infanto-juvenil.

De volta para o passado

Minha rua no centro da cidade, onde morei anos atrás, filhos ainda pequenos andando de bicicleta, brincando/brigando com as outras crianças, os moradores no final do dia levando as cadeiras para a calçada, um olho na vida dos vizinhos e o outro na televisão ligada na sala. O mundo deu suas voltas e a vida foi imitando essas reviravoltas, afetando o centro e a minha rua.

O tempo, os modismos, o milagre econômico, os planos econômicos, o desastre econômico, os caprichos da sorte foram desgastando e depreciando minha rua. As casas viraram mercearia, sapataria (ou sapateiria), salão de beleza, sede de campanha eleitoral, igreja evangélica, não exatamente ao mesmo tempo, não nessa ordem. A rua foi seguindo o triste destino de rua do centro, decadência foi o efeito colateral.

As famílias, como aves de arribação, partiram para os endereços da moda – Praia do Canto, Camburi, Goiabeiras, Itapuã, e outras tantas praias com nomes indígenas que se esticam pela orla cobiçada da cidade. A vida foi se deslocando, devagar mas sempre em movimento, como trânsito na hora do rush. Dei muitas voltas pelo mundo, e volto à minha rua.

Surpreendo-me ao rever nos antigos endereços as mesmas famílias que se foram outrora, aves de arribação que por motivos diversos ou iguais, retornaram. O comércio informal e ilegal foi banido, a rua é outra vez residencial e quieta, barulho só das crianças correndo em volta, filhos das crianças de ontem. Um bom indício? Talvez não.

A geração de hoje, dos computadores, da TV a cabo e fibra ótica, não está melhor que a precedente e talvez também não a próxima. O que o Brasil reserva aos nossos netos? Florestas destruídas, rios poluídos, água contaminada, ar irrespirável, favelas violentas…

Esse é o futuro que estamos deixando aos nossos netos, junto com o curso na Faculdade que não garante um emprego, junto com o emprego que não leva a uma carreira, junto com a casa no centro que vai estar sempre lá, esperando por eles.

Lá vem o Matthew!

Lá vem o Matthew!

Plena quarta-feira, Miami está em estado de alerta  por causa da indesejada visita de um furacão, que ameaça comparecer com força total. Ou talvez não, pois são temperamentais e mudam de rota e de ideia como mudamos nós de senhas. Ou deveríamos. No trabalho fecharemos ao meio-dia de uma quarta-feira ensolarada, só voltando na segunda, se tudo correr bem.  As chuvas e ventos fortes devem começar essa noite.

E enquanto o monstro não chega, haja filas – os postos de gasolina têm filas dobrando os quarteirões. Os supermercados e afins estão com as prateleiras de produtos básicos totalmente vazias. O que acaba primeiro? água, banana, pão, queijos, enlatados, papel higiênico, velas e lanternas. Mais difícil, porém, é instalar nas portas e janelas os protetores de alumínio. Mais das vezes,  para nada.

Mas até que tivemos um bom descanso, pois desde 2005 não fomos incomodados pela fúria meteorológica. Esse trágico ano bateu os piores recordes da história – foram 15 furacões, e o maior número de furacões na categoria 5, a mais violenta:  Emily, Katrina, Rita, Wilma.  Os nomes dos furacões se repetem, mas quando um atinge proporções catastróficas, o nome é retirado – em 2005, mais de 5 nomes saíram da lista. Esse ano foi também campeão de prejuízos materiais – 150 bilhões de dólares.

O que fazer num prolongado feriado se o Matthew realmente aportar na nossa área? Sem energia elétrica não temos fogão, micro-ondas, televisão, internet, telefone. Água a gente estoca, tanto para beber como para uso comum – as banheiras ficarão cheias. Sem geladeira os perecíveis perecem, o jeito é comer sanduíches e enlatados. Cozinhar só na churrasqueira, quem tem quintal ou mesmo varanda, embora seja proibido. O mais é ler, conversar, fazer palavras cruzadas ou sudoko.  Se o tempo permitir, andar.

Os tanques dos carros foram devidamente abastecidos até o limite, e os mais cautelosos enchem latões com gasolina para reserva. As grávidas nos últimos meses de gestação podem ir para os hospitais, pois o aumento da pressão atmosférica pode antecipar a chegada dos rebentos. Sem aula, sem Ipads e joguinhos eletrônicos, as crianças descobrem uma opção há muito em desuso por essas bandas – sair para brincar na rua.

E assim vamos nós, os residentes da Flórida, nos adaptando a essa ameaça. Mais das vezes, essa trabalheira toda é desnecessária, e damos fracas a Deus. Mas se o pior acontecer, então é reunir a família, cachorros e papagaios, o kit sobrevivência e correr para os abrigos. Ou pegar o carro e fugir para regiões mais amenas. Até segunda.

Nota: Foto cortesia do Centro de Furacão dos Estados Unidos (National Hurricane Center) http://www.nhc.noaa.gov/