Síndrome de Estocolmo

Antigamente os amores impossíveis alimentavam fartos romances e lacrimosos filmes. Hoje, quando nada mais é sagrado, o amor está cada vez mais impossível. Como no estranho caso de Nora e Nilton, que se encontraram numa feira de animais domésticos,  portanto, que não fiquem dúvidas, os dois são apaixonados por bichos. Mais precisamente, Nora ama Valdez, seu gato siamês, e Nilton não se desgruda de Daniel, seu cão spaniel.

Para Nora e Nilton foi amor ao primeiro tropeção, pois assim se conheceram, esbarrando um no outro e derramando as cocas diet  e zero de cada um. Mas com Valdez e Daniel foi ódio ao primeiro latido e miado. Simultâneos. Enquanto os donos trocavam olhares lânguidos enxugando a roupa, as feras se atacavam. Nora e Nilton decidiram investir no romance, apesar do mau presságio do primeiro encontro e indiferentes  aos desentendimentos de seus bichinhos de estimação. E se chegaram sozinhos ao evento, ao saírem já estavam unidos até que os desvios da sorte se intrometam. Ou não.

 

No dia seguinte já estavam morando juntos, para desgosto de Valdez e Daniel, que tudo fizeram para demovê-los desse amor insensato. Nora e Nilton não se deixaram influenciar pelo mau humor dos pets, Com o tempo eles se acostumam, pensaram juntos. Vamos ver, pensam os mimados bichinhos, se é que cachorro e gato já pensam. Apesar de bem treinados e muito bem tratados, os dois nunca aceitaram a convivência forçada, e brigam o tempo todo.  No mesmo embalo, Nora e Valdez brigam também, mas sem deixar que os desentendimentos de hoje durem até  amanhã.

 

Você tem síndrome de Peter Pan, é muito dependente, não amadurece nunca! grita Nora; Você não se adapta à vida em comum, é independente demais, rebate Nilton. Cão e gato, se falassem, diriam a mesma coisa. Ou dizem, numa comunicação atávica lá entre eles. Valdez: eu não me deixo escravizar, sou livre; vou onde quero e sei voltar pra casa; você depende do dono pra tudo. Daniel: Eu sou útil; sei tomar conta de criança, da casa, perseguir caça, seguir pistas, guiar cegos, farejar drogas. Por isso eles dizem que sou o melhor amigo do homem.

 

Valdez: Isso é pura balela, pois além de te explorarem, ainda te fazem de palhaço, ensinando truques idiotas.  Eu não trabalho pra eles, eles é que trabalham pra mim. Daniel: A única coisa que você faz é caçar ratos, uma atividade não muito nobre, convenhamos. Valdez: Isso é lenda;  minha estirpe não se rebaixa a tanto. Acha mesmo que eles amam seus cachorros? Então por que chamam o diabo de cão? Chamar uma pessoa de cachorro não é elogio, é xingamento. E criaram expressões pejorativas: cachorro sem dono, cachorro doido, cachorrada, dia de cão, cão que ladra não morde, os cães ladram mas a caravana passa. Isso é falta de respeito!

Daniel: São modos de falar, apenas, sem intenção de ofender. Os gatos também são lembrados:  gato escaldado tem medo de água fria, gato preto é azar. Valdez: Mas chamar alguém de gata ou gato é elogio, chamar de cachorro é xingamento. Cachorrinho de madame é pejorativo, e ninguém diz gato de madame. E ainda nos deram mais seis vidas de presente!  Pode ser, mas quem chegou primeiro fui eu, rosna Daniel. Ao que mia Valdez, Pode ser, mas quem manda neles sou eu.

Daniel está certo, os cães chegaram primeiro, tendo migrado da Sibéria ou do Alaska há 35 mil anos. Hoje existem aproximadamente 85 milhões de cães domésticos nos Estados Unidos.  Mas Valdez está certo, os gatos ganharam a preferência popular – são 93 milhões, ou seja, 1/3 das residências americanas têm pelo menos um gato.  Os cachorros são mais inteligentes, ficando em terceiro lugar entre os animais, atrás dos macacos e golfinhos. O gato fica em 20º lugar. O gato tem melhor visão e os cachorros têm melhor olfato.

Os entendidos garantem que os gatos não são hóspedes nas casas dos donos, mas reféns que talvez um dia,  graças à Síndrome de Estocolmo, acabarão amando seus donos. O cachorro tem família, o gato tem empregados. O cachorro, se bem treinado, obedece cegamente. O gato aceita o jugo, mas não exijam truques e prestação de serviços. Quanto a Nora e Nilton, estão no mesmo ritmo –  ainda apaixonados, sabendo que nasceram um para o outro, mas continuam brigando feito cão e gato.

 

Serviço de utilidade pública do blog: Síndrome de Estocolmo é uma situação em que a pessoa submetida a maltratos ou submissão durante muito tempo, acaba criando amizade ou se apaixonando pelo agressor.

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