Deu a louca nos feriados

Deu a louca nos feriados

Esse ano, não sei por qual acordo nacional não sacramentado, o natal chegou mais cedo. Embora as lojas já comecem a vender os produtos habituais desde setembro, tradicionalmente a decoração natalina só era feita após o fim de semana da dupla Thanksgiving / Black Friday. Sobrava o sábado e domingo livres para desenterrar caixas e pacotes do fundo dos armários ou download do alto das estantes da garagem, onde hibernavam desde o ano anterior. Não mais que de repente, todo mundo pulou a decoração do final de novembro, investindo mais cedo nos vermelhos e dourados do natal.

Talvez efeito do El Niño, ou da eleição de um presidente contra o voto popular – Vamos começar o natal antes que o Trump invente um muro para banir a entrada do Papai Noel… Que, não sendo americano, trabalha ilegal no país. Como essa nova tendência começou ninguém sabe, mas todos aderiram. E por que não? O natal é mais bonito e dá mais trabalho de arrumar e desmontar, portanto, que fique mais tempo em cartaz. Parece até competição – quem começa a arrumar ou terminar de arrumar primeiro; quem põe mais brilho ou bonecos maiores nas portas.

Outra mania incutida na mente coletiva é tirar tudo no dia 31 de dezembo, dando lugar à decoração branca e prata da passagem de ano. Nos natais da minha infância, árvore e presépio eram retirados no dia 6 de janeiro, o dia dos Reis Magos. Outra festa, com os participantes das folias de reis batendo nas portas, e ninguém pensava que eram vendedores de enciclopédias. Tinha também boi pintadinho e mulinha, que era um sujeito ‘montado’ numa mula de madeira coberta com chitão. Essas práticas foram se perdendo com a debandada do povo das cidades pequenas para as metrópoles, mas em muitos lugares as crianças ganham presentes no dia de reis, e não no natal.

Quanto aos Reis Magos, sabemos que vieram do leste guiados por uma estrela, que pode ter sido o Cometa Haley. Seriam mesmo reis de reinos distantes? As referências a eles na Bíblia são vagas, sem lhes dar nomes ou especificar quantos eram – o número três se refere aos presentes que trouxeram para o menino: ouro, incense e mirra. E são os presentes que todos nós gostaríamos de ganhar – o ouro significa realeza; o incenso representa a fé, pela oração que sobe aos céus; e a mirra, usada pelos egípcios para embalsamar, simboliza a vida eterna. Foram esses misteriosos magos, talvez astrólogos, que nos legaram a tradição de dar presentes no natal.

Deviam, portanto, ser nomeados patronos do comércio e da indústria, que esses vendedores de ilusões estão esfregando as mãos, com os olhos brilhantes, faturando alto. E sabem nos induzir ao gasto desenfreado. Pesquisas indicam que a música ambiente é um poderoso agente de vendas – se o freguês gosta da música, entra; se for música lenta, demora mais tempo na loja. Pesquisas também indicam que o ato de comprar tem efeito direto nas áreas de prazer do cérebro, levando dopamina para o cérebro, tal como as drogas. Portanto, estamos perdoados por gastar demais numa loja – estamos drogados.

Por pior que andem as coisas, não há crise no Natal – todo mundo compra, uns mais outros mais ainda, tem ano melhor que o outro, mas a mágica da dopamina não falha. Apesar das compras online já estarem em 42%, a ida às lojas e shoppings ao invés de cair, cresce junto. O americano gasta, em média, 786 dólares nas compras de natal, portanto, tem alguém gastando minha cota. Atento às vantagens tecnológicas, o comércio usa imagens de satélite dos estacionamentos dos shoppings para avaliar como serão as vendas nos feriados.

Embora muitos pensem que a campeã das compras no país seja a Black Friday, na verdade o dia 23 de dezembro leva o ouro – é o dia que mais vende, com lojas lotadas abertas até meia noite, filas imensas nos caixas, corredores dos shoppings entupidos de gente carregando sacolas recheadas. E todos já compraram muita coisa com antecedência, quer dizer, dia 23 é o dia das ‘faltinhas’, ou para retribuir presentes inesperados. Outro mito é que os preços estão mais baratos na Black Friday – dia 23 também ganha. Quer dizer, quanto mais gente comprando, mais os preço baixam. Esssa é uma equação de causa e efeito que os comerciantes brasileiros usam ao contrário – sobem os preços já inflacionados quando tem mais gente comprando.

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