Perto da Noite Feliz

Perto da Noite Feliz

O Natal é apenas um feriado, como tantos outros que ajudam o ano a passar mais depressa, pensa Laura, se desviando dos pacotes de presentes empilhados em volta do pinheiro enfeiando a entrada do edifício onde mora. Tanto a árvore quando os pacotes embrulhados em papel brilhante são falsos. Mais tarde o condomínio se reúne para uma festa onde pratos calóricos e sem sabor vão ser servidos. Laura é a unica do prédio que não contribuiu com $50 para uma falsa noite de paz e amor. Laura também não participa das festas da repartição nem se reúne com familiares ou amigos.

Quanto ao troca-troca obrigatório de presentes comuns nessa data, prefere comprar ela mesma algo de que goste, em vez de receber alguma quinquilharia sem utilidade que vai entulhar os armários e sempre custa menos que o preço estipulado. Em troca, daria algo que a pessoa aleatoriamente imposta também não vai gostar. Cinismo? Não, experiência. O Natal é um dia comum, onde tudo que acontece nos outros 364 dias do ano pode acontecer também. Nascimentos e mortes; crime e assaltos; falcatruas e corrupção… E mais, traição, gente se unindo e se separando. Doenças, balas perdidas, mais uma guerra, um desastre, uma tragédia…

Para não parecer antipática, Laura explica que vai viajar, e se manda para uma pousada em Santa Leopoldina. Assim ganha dois presentes: descansa e fica livre do barulho e da sujeira que a festa de natal provoca.

Confirmando sua própria teoria, o carro enguiça na subida da serra, indiferente ao fato de ser um feriado quase universal ou outro dia qualquer. Na estrada não passa ninguém, todo mundo está festejando em algum lugar. O celular chama e ninguém atende – por certo tem muito barulho nas festas de natal. Nem a polícia, nem os bombeiros, nem seu mecânico. O jeito é dormir no carro, mas tem medo de passar a noite sozinha na estrada. Seja qual for o dia do ano, havendo chances os assaltantes não deixam de assaltar.

Laura faz uma busca nas imediações, talvez esteja perto de algum lugarejo com posto de gasolina e mecânico, ou um hotel, mesmo de péssima categoria. Por sorte vê luzes ao longe e enfrenta a subida íngreme, chão de pedregulhos dinvadido pelo mato. Chegando mais perto vê que é apenas a casa modesta de algum lavrador, meio escondida entre as árvores, com roupas de criança no varal e latas de plantas na entrada. Resolve arriscar, pior que passar a noite ao relento impossível.

O jovem que a atende explica que não entende nada de carro nem tem como levá-la a lugar nenhum. A essa hora não se acha ninguém, nem mesmo se fosse um dia comum. A esposa não lhe dá atenção – está pondo a mesa para a ceia de natal: uma travessa de sopa fumegante, odor convidativo, e pão casesiro. Um menino brinca com seu presente de Papai Noel: um carrinho feito de lata de óleo. “A senhora pode se acomodar aqui com a gente, sim senhora. Já vamos mesmo comer umas coisinha. Casa de pobre, tá percebendo, mas tem um colchão a mais. Amanhã o ônibus passa cedo”. Sem esperar resposta, a moça põe mais um prato na mesa. Laura agradece, feliz – essa noite terá um natal de verdade.

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