Pra se acabar na quarta-feira

Pra se acabar na quarta-feira

carnavalDepois de anos sem ir ao Brasil, Laurinha resolve tirar a diferença, “Esse ano, meu bem, vamos passar o carnaval no Rio!” Meu bem, no caso, é o Ronald, que tem dinheiro sobrando e está apaixonado. “Carnival?” pergunta o gringo, espantado, “Are you sure it’s safe?” Laurinha tem certeza que é seguro, e também muito animado. E explica que o Brasil tem 190 milhões de habitantes, e só não brinca o carnaval quem já morreu, como cantou Caetano. “Se não fosse seguro, estavam todos mortos”.

O gringo é sistemático, gosta de tudo organizado e a horas certas, detesta improvisações e tumultos, calor e barulho. Laurinha explica que não tem barulho nem calor, menos ainda tumulto. O carnaval hoje é uma empresa que fatura bilhões, com turistas do mundo todo. Tudo muito organizado e tranquilo. Ronald não acredita, mas aceita. Afinal, são apenas sete dias, e ela não pode ir sozinha. God knows o que pode acontecer naquelas terras selvagens com sua garota!

Numa quarta-feira nebulosa e fria partem os dois pombinhos para os trópicos, trocando as neves do Oregon pelas ensolaradas praias cariocas. Aterrissam no meio do bloco Sovaco de Cristo, desfilando em frente do hotel onde vão se hospedar.! “Você disse que o carnaval é na semana que vem!” Laurinha também foi pega de surpresa, “Era, mas quanto mais, melhor!” Ronald não gosta de mudanças na programação, sua agenda é organizada com um ano de antecedência, mas vendo a felicidade de Laurinha, não reclama.

Cheia de animação, Laurinha cai no samba. Literalmente – escorrega, quebra a perna, e vai para o hospital mais próximo, onde tem que operar a perna. Passa o carnaval assistindo ao desfile das escolas de samba pela televisão, tal como fazia no Oregon. Pelo menos sem neve, e até os médicos do hospital trabalham fantasiados. O pobre Ronald tem que se dividir entre o hotel e o hospital, sempre a pé porque era impossível encontrar um taxi, a qualquer hora do dia ou da noite.

No primeiro dia Ronald depara com um calor infernal, total desorganização do hospital e falta de estrutura do hotel lotado. E o tumulto? Seu curto trajeto cruza com o Sovaco de Cristo, desfilando dia e noite numa barulheira infernal. E mais trânsito engarrafado, carros buzinando, brigas e assaltos bem nas vistas dos policiais. No segundo dia Ronald tira o palitó e a gravata, fica só de camiseta. No terceiro dia compra uma sandália havaiana e shorts – o menos exótico que conseguiu encontrar tinha estampas de fartos seios e traseiros idem.

Ainda suava, mas sentia-se melhor. Achar uma garrafa de água mineral gelada era impossível – todos os freezers do hotel estavam ocupados em manter gelado o estoque de cerveja. Portanto, aderiu. Mesmo quando passava na frente do hospital, os decibéis do carro de som da Sovaco não diminuem – ninguém consegue dormir. Além disto, o hospital não tem ar refrigerado central. Ronald compra um ventilador, mas mesmo assim tem que deixar as janelas abertas, para não derreter.

No quarto dia Ronald já cantarola o refrão da marchinha o bloco, e no quinto dia cai no sovaco de Lindaura, lindona, mulata seminua rainha do bloco. Literalmente. Ronald não vai mmais ao hospital, alegando que o barulho e o calor… Laurinha entende, pobrezinho do gringo! No sexto dia Laurinha deixa o hospital bem na hora que o Sovaco vai passando, e o que vê quase a leva de volta, com um ataque cardíaco ao ver o gringo e a Lindaura… No sétimo dia Deus descansou, mas a Sovaco continua desfilando e Laurinha volta sozinha pro Oregon

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