Carta enigmática

A carta enigmática
casablanca

Quando foi retirar contas e junkmails da caixa do correio, Ilsa leva o primeiro susto – uma carta! A não ser cobrança, ninguém mais recebe cartas hoje em dia; amigos e conhecidos se comunicam de forma mais civilizada, por emails, mensagens de texto, Facebook, Messenger, WhatsApp, Instagram, as chamadas sete maravilhas da idade tecnológica. No entanto, não mais que de repente, uma carta se mistura ao excesso de propaganda enganosa na caixa que o agente dos correios insiste em superlotar diariamente. Essa gente não descansa?

Mas aí, no meio do caminho aparece uma carta. O nome e endereço estão corretos, não deixando dúvidas sobre quem é a destinatária. Mas não há indicação de remetente, falha que os correios deveriam proibir, evitando muitos transtornos. Podemos abrir uma conta bancária, mesmo apenas para depositar ou receber o mínimo, sem Identidade e CPF? Entramos no avião para Miami sem passaporte? O voto é obrigatório, mas votamos sem tirar o título de eleitor?

Resta apenas uma pista: o selo. Ilsa examina minuciosamente esse pedaço de papel impresso, que embora minúsculo tem dons milagrosos – sem ele a carta não viaja. Alguns deles hoje descansam em redomas de vidro dos museus, mas esse que permitiu a essa estranha carta chegar às mãos da destinatária é dos mais insignificantes. Ou seja, foi reduzido a um simples carimbo, onde consta apenas a cidade e o estado. Para encurtar o suspense, Ilsa rasga nervosamente o envelope…

“Querida Ilsa, o trem chegou na gare e você não estava lá, como combinamos. Dá pra entender? Você não mandou explicações, e sua frívola atitude trará sérias consequências para todos. Além de viajar sozinho, perdi também o valor da sua passagem, que não foi barata nem fácil de obter, como você bem sabe. Eu que sempre fui um sujeito bom-caráter e responsável, diria até patriota, com sua ausência me transformei num Hulk social, ou seja, um indivíduo moralmente feio, cínico, indiferente aos eventos que andam rolando por aí. Você sabe quais são.

Ou seja, me transformei num canalha. Talvez um dia nos encontremos, só o destino decide. Talvez você se case com outro mais digno de sua dedicação, ou até já fosse casada e não me contou (PS: Ouvi uns rumores sobre um certo Victor, mas não acreditei, ingênuo que fui). Talvez eu compre um bar com o dinheiro que economizei para investir no nosso casamento. De qualquer forma, e apesar do chute, pelo menos em sonhos continuarei de olho em você, garota! Eternamente seu, Ricardo (Rick para os íntimos).

Ilsa lê e relê a carta, sem entender patavina, se é que tal palavra já não está extinta e enterrada com os alfarrápios ilustrados. Sou Ilsa, isso é certo, mas quem é Ricardo, ou Rick, esse bom sujeito que mudou de personalidade só porque peguei o trem errado, sem saber que alguém, o remetente dessa estranha carta – tinha as melhores intenções de se casar comigo… ou de comprar um bar, não entendi bem essa parte. Em qual local e quais bebidas pretende vender, não poderia ser mais específico?

A carta vai pro lixo, junto com o manancial de papel impresso que Ilsa rcebe e não lê, mas perde muita coisa por esse desinteressse. Como o fato do Uber estar entregando refeições do McDonald na sua porta, por uma taxa módica, ou que um novo bar foi inaugurado perto de sua casa. O dono, um certo Rick, sujeito frio e cínico, vende uísque fabricado com cereais não orgânicos, indiferente aos danos que essas plantações causam ao meio ambiente.

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