Sob o céu de Miami

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(Foto: Michel Sily, sem Photoshop)

Quando Fidel Castro tomou o governo de Cuba deu início à migração cubana para os Estados Unidos, mais precisamente, Miami aqui vou eu. Opção óbvia, pela proximidade geográfica e pelo clima. Entre os primeiros a chegar estava Juan Morales, com esposa e filha. Juan alugou um pequeno quarto e sala, comprou uns móveis usados, pôs a menina na escola pública e foi lavar pratos num restaurante, esperando o dia da volta – que nem nordestino em São Paulo, sempre sonhando em voltar pro Norte. Juan não estava sozinho; as primeiras levas de imigrantes cubanos tinham a mesma mentalidade – se adaptar como possível a uma vida temporária.

Um antigo costume americano, nas vésperas do Dia de Ação de Graças os patrões presenteiam os empregados com o peru para a tradicional ceia do Thanksgiving. Juan adorou, mas o presente lhe trouxe um problema – não havia na casa uma travessa suficientemente grande para servir o peru. Não ficaria bem esquartejá-lo, uma vez que o irmão viria de Nova York com a família para os feriados. Portanto, Juan Morales foi às compras, e encontrou uma travessa compatível com o tamanho do galináceo de honra de seu jantar. Tudo correu melhor que o esperado, mas terminados os festejos, Juan depara com outro problema – onde guardar a grandiosa travessa no exíguo apartamento?

Tal como o Sr. Morales da nossa história, todos os cubanos na América esperavam a situação em Cuba se normalizar para fazerem a viagem de volta, se não queriam deixar nada para trás. Mas a história escreveu diferente, e a vida do Juan foi mudando – arranjou um emprego melhor, a esposa começou também a trabalhar, a filha estava se adaptando bem na escola, e o armário da cozinha não tinha espaço para a imensa travessa que deveria sustentar o peru do próximo ano. Juan Morales ficou uma noite sem dormir, e no dia seguinte tomou uma decisão que mudou sua vida – tirou do banco as economias acumuladas para recomeçar a vida na pátria amada e comprou um terreno. Com a ajuda de amigos conterrâneos contruiu uma casa com três quartos e uma cozinha grande o suficiente para abrigar um bom armário, onde guardou a travessa do peru e mais um belo jogo de mesa completo – 130 peças, doze de cada tipo – que comprou por 12 dólares numa liquidação.

No segundo Thanksgiving que a família passou na Flórida, a casa estava pronta, com dois andares, murada e com piscina. Tal como o Sr. Morales, os outros cubanos foram entendendo que mesmo se a situação política e econômica na ilha mudasse, lá nunca teriam a vida que tinham aqui. As razões de cada um variaram – uma simples travessa que precisa de um armário maior, um filho que nasce, uma filha que se casa com um gringo, um negócio que começou do nada e de repente vai de vento em popa – aos poucos os cubanos aceitaram que nunca fariam a viagem de volta. Portanto, bateram estacas e criaram raízes, e nesse processo dominaram e mudaram o sul do país.

O próximo jogo de pratos comprado tinha 90 peças – 8 de cada – que para Juan simbolizava sua adaptação a uma vida imposta. Um furacão destruiu a casa e outra maior foi erguida, a cozinha também crescendo para mostrar o sucesso dos Morales, agora com a filha já trabalhando. Mas o jogo de pratos comprado desta vez tinha 50 peças – 4 de cada – indicando também como as famílias estavam encolhendo. A primeira travessa comprada pelo Morales, no entanto, continuou ocupando o lugar de honra do armário, e Juan agora repetia para os netos, “Nunca se esqueçam que tudo começou com essa travessa”. Que hoje está pendurada, ou melhor, entronizada, na parede da sala da filha, que tal como seus pais, nunca mais voltou a Cuba.

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