Nossa Terra, nossa gente

Nossa Terra, nossa gente

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Dia 22 de abril é ou foi o dia da Terra, portanto semeio boas notícias, a ver se servem de exemplo e produzem bons frutos. Somente em janeiro desse ano 3.2 milhões de americanos deram adeus aos patrão e deixaram o emprego. Um sinal de que a economia está melhorando; se tem tanta gente pedindo demissão é porque foram trabalhar por conta própria ou arranjaram empregos melhores. Há outros bons motivos, claro, como ganhar na loteria ou arranjar um bom casamento, mas menos prováveis.

Parece que tem vaga sobrando para quem está bem preparado. O site Qz.com informa que existem atualmente 530 mil empregos disponíveis na área de informática no país, mas apenas 60 mil estudantes se formam em Ciência da Computação a cada ano. Um estudo do governo prevê que em 2020 haverá 1.4 milhões de vagas na área, enquanto a oferta de mão de obra será de 400 mil apenas. Os indianos estão preparando os passaportes.

FoxNews informa que o censo americano em 1950 listou 270 empregos que estariam extintos nos próximos anos. Errou: 32 empregos sumiram por falta de procura, e o único definitivamente extinto é o de ascensorista de elevador, embora o número de elevadores tenha aumentando consideravelmente. No Brasil essa ocupação continua escalando, mas por que manter uma pessoa sentada o dia inteiro num veículo que anda sozinho e todo passageiro sabe apertar o botão?

lembrando que todos os dias são dias de cuidar da casa, o globo que nos abriga, alimenta e protege. Portanto, continue dando sua ajuda. Uma boa dica do Google: reduza, reuse, recicle, exatamente nessa ordem. Reciclar gasta muita energia, portanto a melhor opção é reduzir o consumo e reusar o que for possível. Cuidar bem do planeta vai nos deixar tão felizes quanto os noruegueses? De acordo com Word Happiness Report de 2017, a Noruega é o país mais feliz do mundo. Por que não temos um planeta onde todos os países sejam igualmente felizes?

Um engenheiro da Apple criou um jeito diferente de ajudar os mendigos de sua cidade: montou uma lavanderia ambulante com máquinas de lavar e secar em uma camionete, e passa os fins de tarde e de semana rodando pela cidade, lavando e secando a roupa dos mendigos, no que ele chama de Loads of Love. Haja amor pra dar. Segundo ele, ‘A roupa limpa restitui a dignidade das pessoas’.

Pedro Viloria, que trabalha em um McDonald de Miami, teve seu dia de glória quando uma mulher desmaiou na fila do drive-thru com duas crianças no carro. O carro andou sozinho e Pedro pulou a janela do restaurante e correu atrás. Felizmente o carro parou numa curva antes que um acidente grave acontecesse. Viloria e outro funcionário socorreram a mulher, administrando-lhe CPR. Ele disse, “Se tivesse que morrer para salvar essa mulher, eu morreria.”

Numa sociedade assolada por corrupção e preconceitos, esses gestos simples nos mostram que ainda há esperança de uma vida melhor. Bom saber que um menino de 8 anos devolve o dinheiro que encontrou, que um modesto atendente de fast-food arrisca a vida para salvar outras, que um engenheiro gasta tempo e dinheiro ajudando o próximo. No dia da Terra, parabéns pra você que está fazendo o mundo melhor.

Promoção imperdível

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Promoção imperdível

Professsora de português em Miami, Dalvinha vai garantindo o hamburguer de todo dia dando aula pra gringo, ainda mais que estão numa promoção imperdível, por $5.00, pague um e leve dois. O hamburguer, não os alunos. Procurando a gente acha – tem sempre alguma coisa com algum desconto: um é 10,00 – leve dois por 14.00. Mas quem resiste à campanha pró-excessos e leva apenas um, vai pagar o mesmo 7,00 no caixa. Sem faltar o free-refill dos sucos e refrigerantes, com três tamanhos a escolher, e mesmo podendo repôr à vontade, há quem pague pelo copo maior.

Dalvinha se inspira nas promoções imperdíveis e cria uma própria: “Aulas de Português, uma semana 200,00; duas 150.00. Cafezinho brasileiro e pão de queijo”. O fluxo de estudantes dobrou, e nenhum aluno reparou que o preço anterior já era 150,00 e que o cafezinho não é brasileiro, mas colombiano, vendido em todos os supermercados. Pelo menos o pão de queijo é brasileiríssimo, mas também está sendo vendido em qualquer supermercado. Congelado, mas que outra opção têm os expatriados?

O Walmart tem uma ideia melhor: traga a revista, jornal, panfleto, flier, foto, com qualquer promoção de qualquer concorrente, e vendemos pelo mesmo preço. O que eles sabem: pouca gente se dá ao trabalho de recortar, pôr na bolsa e mostrar. O junk mail que vem pelo correio também está cheio de cupons com descontos, Save 1,00 na compra da pasta de dente, 0,50 no litro de suco de cramberry, 0,25 no pacote de pão integral… Tem cupons com descontos altos, mas claro, o produto deve custar cem pra ganhar desconto de dez. Mesmo o de graça sai caro.

Na leva de novos alunos chega o Jason, que não tem intenção de ir ao Brasil ou trabalhar em alguma empresa que exija o conhecimento da língua. Poucas, mas que existem, existem. Jason apenas não consegue resistir a uma promoção, mesmo se não precisa do produto. Imagine-se o excesso nos armários. Mas no melhor exemplo de pague um leve dois, Jason pagou a aula e levou o coração até então desapropriado da garota. “Sabia que tem descontos pela ocupação de áreas improdutivas?” ele pergunta, no capítulo Cultivos. Dalvinha demora a entender que ele se refere ao estéril coração da professora.

Entre olhares e sorrisos, elogios e discretos toques de mão, e outra rodada de pão de queijo e cafezinho, a escrivaninha de Dalvinha está sempre adornada com buquês de rosas que ele compra na esquina, “Quer levar dois, moço? Faço um desconto.” Dalvinha nota que algumas vezes as rosas fizeram estágio na geladeira, mas o amor é cego, a não ser que alguma ótica ofereça descontos na compra de bifocais. Até que, no capítulo da Conversa no Restaurante, ele a convida para saírem no sábado, um cinema e um jantar, “Para treinar conversação…”

Vão a um restaurante fino no point da moda, o que não deve surpreender. O rapaz não é sovina, ou um extremado pão-duro. Com bom emprego, boa educação, boa renda, ele apenas não resiste aos descontos e promoções que nos tentam por toda parte. Quando o garçon traz a carta de vinhos ele pergunta, “Degustamos um vinho?” Dalvinha diz que não bebe. Não por motivos religiosos ou morais, apenas não gosta. O rapaz se escandaliza, “Como assim? Nunca encontrei uma pessoa que não apreciasse um bom vinho.”

“Tudo tem sua primeira vez”, ela ri, sem entender a gravidade da situação. O rapaz examina com calma a lista de preços, e lá no finalzinho encontra a tentação, ‘Vinho da casa, pague um copo, beba dois’. E cria-se o impasse. Nada menos romântico que tomar vinho sozinho num jantar a dois, mas a oferta é imperdível. O garçom esperando. Dalvinha pede uma coca-cola, preço cheio, sem promoção e sem refil. Menos romântico impossível. Jason suando frio, olhos fixos na carta de vinho, entre o amor e a mania.

Olha pra garota, olha pro garçon, reexamina a lista.”E então senhor? Já escolheu? Temos uma promoção imperdível com o vinho da casa. Da melhor qualidade”. Dalvinha entende o dilema, “Olha, cancela a coca. Vamos experimentar o vinho, Jason?” O amor vence o primeiro round, no primeiro encontro, mas Dalvinha pensa lá com suas pulseiras, “Na próxima quem tem que ceder é ele”. E no final da noite teve que admitir, o vinho era mesmo bom.

A vida íntima das flores

A vida íntima das flores

A vida íntima das flores

No singelo jardim da casa de Jane – um metro por dois, se tanto, mais grama que planta – nada de interessante acontece. Pelo menos é o que ela pensa. No entanto, quebrando a mesmice que deve ser a vida das plantas, uma semente distraída navega o vento e ali decide se instalar. No princípio é apenas um ramo frágil, e precisa lutar desesperadamente para se impôr entre a folhagem que ali já demarcou seu espaço e não pretende dividir seus privilégios.

Outras vieram antes e não conseguiram sobreviver a essa primeira fase, massacradas por ventos fortes, chuvas intermitentes, muito frio ou muito calor, formigas destruidoras, o gato que tudo remexe. Muitas são estranguladas ainda no berço – a guerra no subsolo por espaço e alimento; a disputa no solo pela conquista por um raio de sol. Poucas conseguem vencer essa primeira etapa e seguir adiante, se esticando, se intrometendo e se impondo para sobreviver.

Também no grande jardim humano, onde os espaços estão cada vez mais escassos e a disputa por um lugar ao sol é ainda mais acirrada, a chance de uma jovem modesta vencer são mínimas. Onde há vida há competição, seja no quintal de uma casa suburbana ou na revista em que Jane trabalha, ‘A vida das flores’, especializada em jardinagem. Embora o ciclo natural se renove constantemente, o poder tende a permanecer onde está – o diretor passa a direção aos filhos como a árvore espalha em volta suas sementes.

Jane chegou de mansinho, como quem não quer nada, e ela mesma acreditava nisso. Não tinha curso superior em jornalismo ou jardinagem, como exigia a chamada de emprego, mas era boa em computação e rápida nas pesquisas, e foi ficando. Gentil, tímida, prestativa, a supervisora se irritava, Menina, fala mais alto, faça-se ouvir, e Jane balbuciava, Quieta no meu canto não incomodo ninguém. Entrou como temporária, foi ficando, sem ambições, sem reclamações.

Jane mora em um condomínio fechado onde todas as casas são iguais e pintadas da mesma cor, com um pequeno jardim na frente com as mesmas plantas podadas uma vez por mês no mesmo tamanho e formato. Um dia qualquer, ao sair de casa Jane se surpreende ao ver um galhinho magricela despontando acima da folhagem verde-amarela do jardim. Foi aos poucos se esticando e numa bela manhã de sol, Jane vê brotar uma esplendorosa flor amarela acima da mesmice do canteiro.

Uma flor apenas, mas puro ouro, como um raio de sol vencendo um dia chuvoso. O jardineiro do condomínio passa com a serra elétrica, nivelando a liberdade dos canteiros. Jane pela primeira vez chega atrasada na redação, esperando por ele. “Não corte minha flor,” avisa. A flor amarela é uma aberração fora do contexto e será eliminada, avisa a síndica quando informada da estranha determinação da residente. Uma jovem sempre tão pacata, vai agora criar caso por causa de uma flor?

Jane explica que mesmo uma flor deve ser protegida, justamente por sua fragilidade. A senhora nada entende, e com o estatuto do condomínio em punho cita regras e normas que devem ser seguidas por todos, Ou viramos terceiro mundo, onde todo mundo faz o que quer. Jane rebate que uma pequena flor que sobrevive aos concorrentes mais fortes merece o privilégio de cumprir sua finalidade na natureza e desfrutar um raio de sol, breve que seja. Portanto, a flor fica.

A síndica convoca uma reunião do condomínio, onde nada fica decidido, como em todas as reuniões de condomínio. Recorre portanto à instância superior. Informada do impasse, a Administração geral do condomínio convoca uma reunião de emergência da diretoria, mas antes que tal aconteça, a flor morre por conta própria. No dia seguinte, Jane entra na disputa para a vaga de diretor gráfico da revista.