A vida íntima das flores

A vida íntima das flores

No singelo jardim da casa de Jane – um metro por dois, se tanto, mais grama que planta – nada de interessante acontece. Pelo menos é o que ela pensa. No entanto, quebrando a mesmice que deve ser a vida das plantas, uma semente distraída navega o vento e ali decide se instalar. No princípio é apenas um ramo frágil, e precisa lutar desesperadamente para se impôr entre a folhagem que ali já demarcou seu espaço e não pretende dividir seus privilégios.

Outras vieram antes e não conseguiram sobreviver a essa primeira fase, massacradas por ventos fortes, chuvas intermitentes, muito frio ou muito calor, formigas destruidoras, o gato que tudo remexe. Muitas são estranguladas ainda no berço – a guerra no subsolo por espaço e alimento; a disputa no solo pela conquista por um raio de sol. Poucas conseguem vencer essa primeira etapa e seguir adiante, se esticando, se intrometendo e se impondo para sobreviver.

Também no grande jardim humano, onde os espaços estão cada vez mais escassos e a disputa por um lugar ao sol é ainda mais acirrada, a chance de uma jovem modesta vencer são mínimas. Onde há vida há competição, seja no quintal de uma casa suburbana ou na revista em que Jane trabalha, ‘A vida das flores’, especializada em jardinagem. Embora o ciclo natural se renove constantemente, o poder tende a permanecer onde está – o diretor passa a direção aos filhos como a árvore espalha em volta suas sementes.

Jane chegou de mansinho, como quem não quer nada, e ela mesma acreditava nisso. Não tinha curso superior em jornalismo ou jardinagem, como exigia a chamada de emprego, mas era boa em computação e rápida nas pesquisas, e foi ficando. Gentil, tímida, prestativa, a supervisora se irritava, Menina, fala mais alto, faça-se ouvir, e Jane balbuciava, Quieta no meu canto não incomodo ninguém. Entrou como temporária, foi ficando, sem ambições, sem reclamações.

Jane mora em um condomínio fechado onde todas as casas são iguais e pintadas da mesma cor, com um pequeno jardim na frente com as mesmas plantas podadas uma vez por mês no mesmo tamanho e formato. Um dia qualquer, ao sair de casa Jane se surpreende ao ver um galhinho magricela despontando acima da folhagem verde-amarela do jardim. Foi aos poucos se esticando e numa bela manhã de sol, Jane vê brotar uma esplendorosa flor amarela acima da mesmice do canteiro.

Uma flor apenas, mas puro ouro, como um raio de sol vencendo um dia chuvoso. O jardineiro do condomínio passa com a serra elétrica, nivelando a liberdade dos canteiros. Jane pela primeira vez chega atrasada na redação, esperando por ele. “Não corte minha flor,” avisa. A flor amarela é uma aberração fora do contexto e será eliminada, avisa a síndica quando informada da estranha determinação da residente. Uma jovem sempre tão pacata, vai agora criar caso por causa de uma flor?

Jane explica que mesmo uma flor deve ser protegida, justamente por sua fragilidade. A senhora nada entende, e com o estatuto do condomínio em punho cita regras e normas que devem ser seguidas por todos, Ou viramos terceiro mundo, onde todo mundo faz o que quer. Jane rebate que uma pequena flor que sobrevive aos concorrentes mais fortes merece o privilégio de cumprir sua finalidade na natureza e desfrutar um raio de sol, breve que seja. Portanto, a flor fica.

A síndica convoca uma reunião do condomínio, onde nada fica decidido, como em todas as reuniões de condomínio. Recorre portanto à instância superior. Informada do impasse, a Administração geral do condomínio convoca uma reunião de emergência da diretoria, mas antes que tal aconteça, a flor morre por conta própria. No dia seguinte, Jane entra na disputa para a vaga de diretor gráfico da revista.

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