Alô, telefonista?

Alô, telefonista?

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Acordo com o suave piiiim do Whats’app familiar, e ao invés das habituais informações sobre as banalidades do dia, deparo com uma estranha mensagem: ‘Estejam todos informados que o telefone fixo de minha residência foi definitivamente desativado – a linha cancelada e o aparelho doado ao GoodWill, onde espero que outros dele façam bom uso. Desculpem o transtorno mas garanto que nenhum animal foi sacrificado no processo’.

Enquanto os demais recipientes dessa alarmante mensagem simplesmente apagaram o referido número de seus celulares, sem sequer derramar uma lágrima, essa que rabisca essas linhas ficou, e ainda está, em estado de choque, por razões fáceis de entender. O telefone ora inexistente estava em nossas agendas há 17 anos, colaborando ativamente na comunicação familiar. Atado a outros números constantemente usados, era quase um membro da família, extrapolando sua missão comunicante.

Quando enguiçava era um deus-nos-acuda; quando não atendido era uma ofensa. Muitas vezes um tira-teima, Mas te liguei mil vezes, diz um; Chequei a memória e não tem nehuma mensagem… diz o outro. Ou o contrário, Liguei, Não ligou… Checa seu telefone, tem 8 chamadas minhas não atendidas. E um frio aparelho eletrônico tem o poder de prova em juizo. Tinha, porque está morrendo, como o fogão a lenha e o aparelho de barbear com lâminas descartáveis gilete.

Com essa deserção fico sendo a última da família a manter um telefone fixo, hoje considerado obsoleto e acusado de ocupar muito espaço. Todos da minha descendência já aderiram ao celular como forma de interagir com o mundo, auxiliados pela parafernália de emails, mensagens de texto, redes sociais. Faço uma rápida pesquisa entre amigos e habituais suspeitos, e todos se espantam com meu espanto, “Qual o problema com seu celular?” Mudou o mundo ou não mudei eu?

O telefone fixo que hoje ocupa 15 cm da minha estante nada tem a ver com os telefones que ocuparam espaços bem maiores nos muitos locais onde me acomodei nesses anos que vou desfrutando, repletos de outros espantos. No Alegre da minha infância não havia telefone – para comunicações urgentes ia-se à estação ferroviária, cujo aparelho se comunicava com as estações
de trem mais próximas.

No outro lado da linha, o agente mandava um moleque de recados levar a mensagem e trazer a resposta. Ou a passava para a próxima estação. Pelo menos esse serviço era gratuito. Fora isso, as comunicações importantes eram feitas por telegramas cobrados por palavra, eficientes mas caros. Quando o mensageiro chegava com a entrega, havia sempre uma expectativa –boa ou má notícia? Por telegrama fui informada que meu romance, O longo amanhecer azul, ganhou o 1o. Prêmio São Paulo de Literatura.

De surpresa em surpresa os telefones foram invadindo nossas vidas, e nos tornamos cada vez mais dependentes desse truque de Mandrake. Por que ir pessoalmente se posso usar o telefone? Mas quando Alexander Grahan Bell foi ao banco pedir financiamento para seu ‘mecanismo para transmitir voz e outros sons telegraficamente’, o motivo da recusa foi, “Por que usar um aparelho se posso falar pessoalmente? Frase essa listada entre os grandes erros da história.

A sombra

Enquanto uns sonham com um lugar ao sol, outros querem apenas sombra e água fresca. Os que estão sempre tentando ficar em baixo de uma árvore são vistos como preguiçosos, mas nada mais injusto, considerando-se as ameaças de câncer de pele e envelhecimento precoce. Assim pensa Jandira, mais conhecida nas redes sociais como Jajá, não apenas para abreviar o nome, mas porque tudo que lhe pedem responde, Mas já? Jamais diz É pra já.

No trabalho ou no lar, Jajá está sempre protelando. Diz um ditado, quando quiser alguma coisa feita, peça a quem está mais ocupado. Portanto, ninguém pede nada a Jandira, que de tanto não fazer nada, ganhou outro apelido: a sombra. Em havendo sol há sombra, fiel seguidora de sua forma real e onde você vai sua sombra vai atrás. Também pode ir na frente, mudar de lado, de posição e até de formato, mas sempre grudada em você. No entanto, alguém já viu a sombra fazer alguma coisa, simples que seja, como te avisar que tem um buraco na calçada?

Posta no cargo de agente fiscal graças a bons relacionamentos – leia-se um bem votado tio deputado, Jajá não veio ao mundo para multar ninguém. Questão de princípios, uma vez que tem bom coração e decidiu, se os políticos roubam e nada fazem, por que prejudicar quem rouba mas está servindo à sociedade, seja no comércio ou na indústria? Como vou comprar meu perfume francês se o comerciante pagar todos os impostos exigidos para importá-lo?

Mesmo porque, tendo a chance, todo mundo sonega. O acusado de suborno sonega informação, a dona de casa que compra na barraquinha da economia informal é conivente no mesmo crime. Quem vai fazer compras em Miami porque está mais barato do que na loja do shopping também sonega. Todos compram mais do que a cota permitida e declaram um preço menor pago pelo celular. Pra onde vai o dinheiro do imposto? pergunta Jandira, quando a acusam de incompetente.

Jajá também comete crimes de lesa pátria nas frequentes viagens a Orlando. Só em vinhos da Califórnia gasta mais de 500 dólares. Fora os perfumes, que ninguém checa uns vidrinhos tão pequeninos… E passa tranquila pela alfândega, arrastando o excesso de bagagem pelo qual também nada pagou – o tio deputado tem regalias que ela utiliza em benefício próprio. Se ele pode, por que eu não posso?

Jajá se considera honesta, pois não multa mas também não aceita subornos. E jamais sofreu da chamada dor de consciência por defender seu lugar à sombra. Se usando sua influência política para colocá-la no cargo o tio prejudicou alguém mais habilitado mas sem pistolão, a culpa é do sistema. Se não fosse eu, algum outro afilhado pegaria meu cargo. E como iria aos States com o mísero salário de professora que ganhava antes? Não compraria os vinhos que o marido tanto aprecia.

Jandira vai e volta acompanhada por sua sombra, fiel escudeira; nada faz mas também não atrapalha. De sombra vem sombria/sombrio, que indica um lugar ou situação onde o sol não brilha. Mas também define lucubrações, sonegações, maracutaias, e desvios outros. A diretora adverte Jajá que ela está seis dias atrasada com o relatório mensal. Mas já? Cheguei de viagem e trouxe um Chandon pra você… A diretora aceita o suborno, porque se punir o tio mexe os pauzinhos e tudo fica na mesma.

Vitamina C e ingratidão

Vitamina C e ingratidão

Apesar de todos os avanços da tecnologia, a gripe continua desafiando a decantada sabedoria humana. Pisamos na lua, já descobriram até as causas do mal de Alzeihmer, quase tudo no corpo humano pode ser trocado por outro órgão em melhores condições, mas a gripe continua desmoralizando a ciência, inabalável e teimosa. A prateleiras das farmácias estão cheias de ofertas tentadoras, que aliviam mas não evitam, e todas as vacinas já inventadas previnem a doença, menos a da gripe.

Vitamina C e cama, diz o povo, e os antigos diziam que canja de galinha era um santo remédio. No tempo da famigerada gripe espanhola, que nem espanhola era, os médicos apelaram para o caldo de galinha, por falta do que receitar. Em pouco tempo já não havia galinácio disponível, até galo virava sopa. Hoje a medicina moderna confirma a sabedoria popular: sopa de galinha é, de fato, um santo remédio para encurtar e amenizar os efeitos da gripe. E mais zinco e probióticos, mas só no começo.

Se gripe é ruim em todos os dias do ano, imagina no dia do casamento do filho único, quer dizer, nunca mais outra chance de brilhar na passarela. Foi o que aconteceu com Gladys, e embora todos acorressem com fórmulas mágicas infalíveis, nada conseguiu desligar o chafariz do nariz e interromper a tosse constante, que seriam agravados pelo excesso de flores no altar. A sugestão de remover as flores quase acabou com o noivado pouco antes de virar vida-a-dois.

De jeito nenhum, onde já se viu casamento sem flores? grita a noiva. Onde já se viu casamento sem a mãe do noivo? Vamos ter que adiar, ameaça o noivo. Tô indo pra igreja, quem quiser que me siga, ela determina. E todos a seguiram, a mãe sob uma dose cavalar de alguma poção que a deixou meio grogue, levando o filho para o altar sem tossir e assoar o nariz. Melhor dizendo, sendo arrastada. Gladys esperou o padre declarar diante de 200 testemunhas que o filho estava definitivamente casado, e desmaiou.

O filho a levou para o hospital e a festa se realizou num clube elegante, afinal já estava tudo pago e sem direito a reembolso. Sem o noivo, mas a noiva se divertiu bastante. Por pouco, esse seria o primeiro casamento desfeito por causa de uma gripe. O filho quis cancelar a lua de mel, Não posso deixar minha mãe no hospital com pneumonia, sou filho único. Outra vez a noiva fica irredutível, O hotel tá pago e sem direito a cancelamento, portanto, vou sozinha. Foi, e se divertiu bastante.

Assim como a gripe tem resistido aos avanços da medicina, o amor também tem resistido a muitos desafios. O casamento do filho da Gladys vai indo bem, e embora ela tenha pago a lua de mel do casal, não guardou rancores. Talvez no futuro criem uma vacina que erradique a gripe definitivamente, ou que elimine a ingratidão no coração humano. Difícil decidir qual das duas é pior. Gladys nunca reclamou da nora, mas comenta lá com seus bordados, Se fosse a mãe dela, meu filho teria ido sozinho pra lua de mel?