A sombra

Enquanto uns sonham com um lugar ao sol, outros querem apenas sombra e água fresca. Os que estão sempre tentando ficar em baixo de uma árvore são vistos como preguiçosos, mas nada mais injusto, considerando-se as ameaças de câncer de pele e envelhecimento precoce. Assim pensa Jandira, mais conhecida nas redes sociais como Jajá, não apenas para abreviar o nome, mas porque tudo que lhe pedem responde, Mas já? Jamais diz É pra já.

No trabalho ou no lar, Jajá está sempre protelando. Diz um ditado, quando quiser alguma coisa feita, peça a quem está mais ocupado. Portanto, ninguém pede nada a Jandira, que de tanto não fazer nada, ganhou outro apelido: a sombra. Em havendo sol há sombra, fiel seguidora de sua forma real e onde você vai sua sombra vai atrás. Também pode ir na frente, mudar de lado, de posição e até de formato, mas sempre grudada em você. No entanto, alguém já viu a sombra fazer alguma coisa, simples que seja, como te avisar que tem um buraco na calçada?

Posta no cargo de agente fiscal graças a bons relacionamentos – leia-se um bem votado tio deputado, Jajá não veio ao mundo para multar ninguém. Questão de princípios, uma vez que tem bom coração e decidiu, se os políticos roubam e nada fazem, por que prejudicar quem rouba mas está servindo à sociedade, seja no comércio ou na indústria? Como vou comprar meu perfume francês se o comerciante pagar todos os impostos exigidos para importá-lo?

Mesmo porque, tendo a chance, todo mundo sonega. O acusado de suborno sonega informação, a dona de casa que compra na barraquinha da economia informal é conivente no mesmo crime. Quem vai fazer compras em Miami porque está mais barato do que na loja do shopping também sonega. Todos compram mais do que a cota permitida e declaram um preço menor pago pelo celular. Pra onde vai o dinheiro do imposto? pergunta Jandira, quando a acusam de incompetente.

Jajá também comete crimes de lesa pátria nas frequentes viagens a Orlando. Só em vinhos da Califórnia gasta mais de 500 dólares. Fora os perfumes, que ninguém checa uns vidrinhos tão pequeninos… E passa tranquila pela alfândega, arrastando o excesso de bagagem pelo qual também nada pagou – o tio deputado tem regalias que ela utiliza em benefício próprio. Se ele pode, por que eu não posso?

Jajá se considera honesta, pois não multa mas também não aceita subornos. E jamais sofreu da chamada dor de consciência por defender seu lugar à sombra. Se usando sua influência política para colocá-la no cargo o tio prejudicou alguém mais habilitado mas sem pistolão, a culpa é do sistema. Se não fosse eu, algum outro afilhado pegaria meu cargo. E como iria aos States com o mísero salário de professora que ganhava antes? Não compraria os vinhos que o marido tanto aprecia.

Jandira vai e volta acompanhada por sua sombra, fiel escudeira; nada faz mas também não atrapalha. De sombra vem sombria/sombrio, que indica um lugar ou situação onde o sol não brilha. Mas também define lucubrações, sonegações, maracutaias, e desvios outros. A diretora adverte Jajá que ela está seis dias atrasada com o relatório mensal. Mas já? Cheguei de viagem e trouxe um Chandon pra você… A diretora aceita o suborno, porque se punir o tio mexe os pauzinhos e tudo fica na mesma.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *