Atrasada, como sempre

Desde que o homem entendeu que o sol sumia do céu mas voltava com uma certa frequência, medir e contar esse período de tempo passou a ser uma necessidade básica das sociedades em formação. Os relógios apareceram há 3.500 anos AC – de sol, de água, de flor, de vento, a ampulheta, e singelezas outras. Era um tempo em que medir o tempo era uma necessidade apenas para sábios, religiosos e governantes. “Por que contar o tempo? perguntavam os práticos.

O primeiro relógio foi o de sol: sombra para um lado é de manhã; sombra muda de lado é de tarde; sem sombra é meio dia; não vê o relógio é noite. A ampulheta desbancou o relógio de sol e se tornou tão popular que ainda hoje representa o Senhor Tempo. Consiste de um vidro de cintura fina, ou um ralo estreito no meio, com areia em um dos lados. Vira de um lado e a areia escorre lentamente durante uma porção de tempo equivalente a uma hora… aí vira para o outro lado.

Se hoje com toda a tecnologia moderna esquecemos de carregar o celular, imagina virar a ampulheta a cada duas horas – ou doze, pois havia ampulhetas em vários tamanhos para atender a todas as necessidades: amamentar o bebê a cada 3 horas; tomar o remédio contra verme a cada 4 horas; dar milho às galinhas a cada 6 horas; tirar o pão do forno em uma hora. Sempre havia vagas para o cargo de virador de ampulheta.

Atração turística na Irlanda, a pedra do tempo consiste de uma pequena pedra pendurada por um fio e ao relento – se está seca, não chove; molhada, está chovendo; se faz sombra no chão, tem sol; se está branca no topo, tem neve; se não vê a pedra, tem neblina; se balançar, tem vento; se pular pra cima e pra baixo, tem terremoto; se desaparecer, tem furacão. Faria inveja aos incas.

Se essa pedra estivesse no Brasil e desaparecesse, seria porque foi vendida por algum político pelo dobro do preço; se desaparecesse nos Estados Unidos seria mais um complô pra derrubar o Trump. Os relógios modernos, ao contrário dos seus criadores, nasceram grandes e foram diminuindo até caberem no bolso. Dos homens, que nesse tempo não era de bom tom mulher usar relógio. Não precisavam, diziam, e os poucos relógios femininos eram apenas decorativos; não tinham que ser exatos.

Aí Santos Dumond inventou um jeito de prendê-los no pulso, e nos tornamos escravos do tempo. É como um filme de ficção científica em que um gigantesco olho onipresente controla tudo e todos: tictac, tictac. Ao invés de ajudar, essa pressão constante atrapalha, e estamos sempre atrasados. Culpamos o mau tempo, a highway engarrafada, o carro que não pegou ou precisou abastecer. Ou a vizinha que veio perguntar as horas – Faltou energia e os relógios caducaram.

A casa da minha infância tinha apenas um relógio, suficiente para controlar o tempo de uma família de seis pessoas. Na minha casa em Miramar nem sei quantos são, pois vêm embutidos em tudo, que nem gordura: no fogão, no microondas, na geladeira, na televisão, nos computadores e celulares, no carro. Mesmo assim usamos o relógio do sol, como na pré-história: se brilha no céu é dia, se desaparece é noite; se deu praia é tempo bom; se brinca de esconde-esconde é tempo chuvoso; quente até na sombra é verão; se não estou suando é inverno.

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