O presente

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Após recebermos o primeiro e mais valioso presente – o dom da vida, muitos outros se sucedem, alguns poderosos como um bom genes, alguns corriqueiros, como um bom-dia de um estranho no elevador; alguns preciosos, como o sorriso de um filho, alguns singelos, como uma sabiá cantando na janela do vizinho. E os que mudam o rumo da vida, como deparar numa esquina com a outra-metade que nem estava procurando. Um presente pode vir com papel colorido e laço de fita, ou disfarçado num embrulho despretencioso.

Um dos melhores presentes que recebi na vida chegou assim, numa sacola amassada do Kmart, na época a maior cadeia de lojas da América, depois massacrada pelo Walmart. Para entender o valor desse presente, retrocedo no tempo como num flash back de filme. Ano da graça de 1975, minha primeira viagem internacional com grandes espantos, como o tamanho do Boeing, e grandes problemas, como não falar inglês, com três filhos doentes em terra estranha, recusando-se a comer tudo que a culinária americana oferecia.

Descobrir o McDonalds foi também um presente, e se hoje filhos e netos desprezam o rei dos fast-foods, informo que sem ele teriam todos ido parar num hospital, desidratados. Na época, foi uma festa e um luxo. Indo passar dois anos em Columbia, na Carolina do Sul, na sacola dos remédios imediatos levei pílulas anticoncepcionais na quantidade que os prazos de validade permitiam, mas que não cobriam o tempo da estada. Portanto, quando o estoque estava para acabar, marquei consulta médica para obter uma receita. Por algum motivo a consulta foi adiada.

A própria viagem foi um presente da sorte – Michel terminou o curso de direito na Ufes e conquistou uma bolsa para fazer mestrado numa faculdade internacional com estudantes de todas as raças, cores e credos – o que na época foi também um grande espanto. Morávamos nos apartamentos da faculdade, e a vizinha mais próxima era uma bela francesa liberada, mãe solteira, e a única pessoa do sexo feminino com quem se relacionava era eu – todas as outras a evitavam, temendo a estabilidade de seus lares.

Um dia ela me aparece com o primeiro presente: uma velha máquina de costura para reajustar as roupas dos filhos se esticando a olho nu. E me avisou, É sua, mas com uma condição, não empreste a nenhuma delas. ‘Elas’ eram as amigas brasileiras, que a odiavam. Algum tempo depois, não sei como, descobriu que fiz um remendo na roupa de uma delas, e mesmo com minhas desculpas de que não emprestei o instrumento, usei-o eu num breve cerzido, a preciosa máquina foi retirada para sempre.

No entanto, antes de voltar para a França, ela me deu um dos melhores presentes que recebi na vida – uma sacola de supermercado com alguns vidros de pílulas anticoncepcionais. Com um sorriso irônico, ela diz, Como vê, suas amigas não precisavam ter se preocupado tanto. O presente foi uma boa economia – cancelei a consulta médica e não precisei comprar o remédio, caro e em dólares. Verifiquei as datas de validade dos vidros, mas não todos. Foram doados por uma pessoa esclarecida, e se dois ou três estavam com bastante prazo, todos os demais estariam.

Graças a esse descuido, voltei ao Brasil com Jennifer nos braços, com um mês de idade, passaporte tirado às pressas e sem visto de entrada no Brasil. Quase se chamou Carolina, numa homenagem ao estado em que nasceu. As autoridades americanas tentaram barrar minha retirada, alegando que não permitiriam a entrada da menina no país sem o visto e eles não me aceitariam de volta, pois meu passaporte já estava vencido. Teimei, arrisquei e venci – deu trabalho, horas retida nos portões do paraíso, e por fim autorizaram uma entrada temporária, devendo regularizar a situação da criança imediatamente.

Levou anos para a situação de Jennifer ser legalizada no Brasil, mesmo tendo frequentado escolas e voltado várias vezes aos Estados Unidos, simplesmente porque ninguém sabia como proceder. Somente 20 anos depois, querendo atravessar a fronteira Foz do Iguaçu e Paraguai, encontramos um competente agente da alfândega local que soube resolver o problema. E serei sempre grata pelo presente enviado por Deus numa sacola do Kmart – um vidro com a validade vencida entre os dez que ela me deu.

Era meia-noite e chovia…

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Era meia-noite e chovia

Bate o relógio as 12 horas, mas não há sol nem céu azul. A claridade que me ofusca vem de lâmpadas VR-Ióden equilibradas no topo de altos postes de alumínio, eretos feito soldados prestando continência ao chefão do quartel. Dia da revista. Mas não há soldados nem policiais me acompanhando nessa jornada noite a dentro, e as 12 horas batendo no relógio indicam a meia-noite, que por algum erro de adaptação coletiva não consideramos o meio da noite.

Se estivesse em Londres, o perigo se esconderia sob o denso nevoeiro que cobre a cidade mal iluminada – tal como acontece nos romances policiais, onde figuras encolhidas, imprecisas, com nomes impronunciáveis pela escassez de vogais varam a noite na esperança de se tornarem personagens de um filme noir. Mas o noir, do francês noite, se aplica melhor a filmes americanos com tramas nunca bem explicadas. Só sabemos que tudo deu certo porque o filme acabou.

Mas não estou na Inglaterra nem falo francês, e apenas o tamborilar da chuva acompanha meus passos apressados, e o perigo se esconde nos becos de portas fechadas se sucedendo sob marquizes arruinadas, cada uma abrigando uma sombra – que pode ser um mendigo tremendo de frio ou um assassino à espreita. Mas não faz frio, apenas a chuva dá o toque de mistério na noite sombria. Carros não passam, vozes não soam, e o medo é mais tangível do que meus passos ressoando nas calçadas quebradas. Ou meu coração acelerado. Ou estou imaginando coisas.

Mas de repente uma figura escura emerge das sombras, os braços agitados no ar como a manusear cimitarras, emitindo sons guturais. A tremedeira não me deixa distinguir se é um fantasma ou um assassino, e o terror me assalta. O vulto corre em minha direção e preciso reunir todas as minhas forças para fugir, embora ninguém entenda como se pode reunir todas as forças ou definir que forças ocultas são essas. Fujo desesperada para algum lugar onde os postes clareiem a noite e a chuva incessante não me congele a alma.

Onde o perigo antes pressentido e agora se materializando ao meu redor seja apenas uma projeção insana da minha mente idem. Mas a voz gutural me acompanha, me persegue, e fujo em desespero. De repente o chão desaparece de sob meus pés – é um terremoto ou virei passarinho. Antes de ser devorada pelo negro abismo ouço um grito avassalador saindo da minha própria boca. Não lembrei de pedir a Deus perdão pelos meus crimes, mas pude ver perfeitamente meu nome na sessão policial dos jornais da manhã. Morte deprimente.

Ana Ruga já passou dos oitenta, mas ainda é temida pelos outros mendigos e respeitada pela polícia que ronda o centro – ninguém mexe com ela. Mas de vez em quando faz o bem sem ver a quem – as obras do viaduto ali do lado estão paralizadas, as verbas desviadas sabe-se bem por quem, as placas de trânsito-interrompido roubadas pra fazer barracos, e vez ou outra um bêbado despenca no vazio. Ela bem que tentou avisar, mas o defunto da vez não lhe deu ouvidos.

Manual de classificação

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Lando trabalha como classificador de café. Parece simples, afinal não são muitos tipos, mas não é fácil passar o dia todo bebericando café, ou mesmo classificar grãos que a natureza criou tão diversos. O consolo é a vista que se descortina da janela do 30º andar do escritório. Como classificá-la? Exuberante? Magnífica? Perfeita? Mais complicado, porém, é classificar relacionamentos.

Fulano é meu vizinho e nos falamos de vez em quando; Beltrano é meu conhecido, mas não diria que é meu amigo; Ciclano foi amigo na faculdade; hoje apenas nos cumprimentamos; Aqueloutro trabalha na sala ao lado e sempre trocamos notícias sobre café e futebol, mas não passa disso. Assim como tais expressões de há muito caíram em desuso, as amizades vão também se desgastando, perdendo as características, se enfraquecendo na pressa das atribuições diárias.

Com 30 andares, o edifício é quase uma cidade vertical. É, pois, inevitável encontrar vez por outra no mesmo elevador as mesmas pessoas. Por uma estranha coincidência de horários, visto que ninguém ali é muito pontual, Lando encontra a lourinha do 22º andar todos os dias subindo e descendo, na chegada e na saída. Em dois anos que ali trabalha, sempre deparando com ela no ascensor de números pares, não decidiu ainda como classificá-la… Exuberante? Magnífica? Perfeita?

Outra expressão que não resistiu ao dicionário digital, ascensor caiu em desuso porque o veículo não apenas ascende, mas também descende. Mudou para elevador, mas outra vez erraram na classificação, visto que ele não apenas eleva, mas também baixa, ou traz de
volta. Ainda bem. O ascensorista continua sendo ascensorista, deveriam ter mudado para elevadorista. Mas o salário continua no andar mínimo.

Nesse encontro de todos os dias, na subida e na descida, manda a boa educação que Nando e a lourinha se cumprimentem, “Oi, como vai?”/ “Que chuva, hem?” / “O trânsito hoje estava um horror!” Dois anos seguindo essa rotina, enclausurados numa caixa
2X2 sem janelas, como classificar esse relacionamento? Amigos? Conhecidos? Nem um nem outro, muito pelo contrário.

Um dia por acaso eles se encontram num restaurante, Nando com a namorada, ela com uma amiga. Oi, como vai? falam ao mesmo tempo. E riem. Quem é? pergunta a amiga, Ah, um conhecido do elevador… A amiga estranha, Como assim? Vocês moram no mesmo elevador? Como explicar? Não somos amigos nem trabalhamos juntos, mas nos cumprimentamos e trocamos educadas expressões corriqueiras. Nem sei o nome dele. Por que não pergunta?

E nada mudaria nessa rotina, se por acaso não se encontrassem uma segunda vez, em outro restaurante. Quem é? pergunta a mesma namorada. Uma amiga de condução, ele diz. Que condução? Você não anda de ônibus. Pouca gente sabe, mas o elevador é o veículo mais usado no mundo. Ah, é? Mas nunca ouvi falar em amizade de elevador. Embora especialista em classificação, Lando não sabe classificar esse relacionamento de dois anos.

Mas repara que ela agora está com outra amiga… Solteira? Sozinha? Nota que o cabelo é castanho dourado, a luz do elevador faz parecer mais claro. Que os olhos dela são cor de avelã… E se dá conta de que o melhor momento de seu dia é encontrar com ela no elevador. E que apesar da namorada, vive solitário e infeliz. No dia seguinte, depois do Oi, como vai? de sempre, Lando decide fazer a classificação correta. Não é estranho? Nos conhecemos há tanto tempo e não sei seu nome. Ela sorri, Já ia perguntar o seu.