Manual de classificação

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Lando trabalha como classificador de café. Parece simples, afinal não são muitos tipos, mas não é fácil passar o dia todo bebericando café, ou mesmo classificar grãos que a natureza criou tão diversos. O consolo é a vista que se descortina da janela do 30º andar do escritório. Como classificá-la? Exuberante? Magnífica? Perfeita? Mais complicado, porém, é classificar relacionamentos.

Fulano é meu vizinho e nos falamos de vez em quando; Beltrano é meu conhecido, mas não diria que é meu amigo; Ciclano foi amigo na faculdade; hoje apenas nos cumprimentamos; Aqueloutro trabalha na sala ao lado e sempre trocamos notícias sobre café e futebol, mas não passa disso. Assim como tais expressões de há muito caíram em desuso, as amizades vão também se desgastando, perdendo as características, se enfraquecendo na pressa das atribuições diárias.

Com 30 andares, o edifício é quase uma cidade vertical. É, pois, inevitável encontrar vez por outra no mesmo elevador as mesmas pessoas. Por uma estranha coincidência de horários, visto que ninguém ali é muito pontual, Lando encontra a lourinha do 22º andar todos os dias subindo e descendo, na chegada e na saída. Em dois anos que ali trabalha, sempre deparando com ela no ascensor de números pares, não decidiu ainda como classificá-la… Exuberante? Magnífica? Perfeita?

Outra expressão que não resistiu ao dicionário digital, ascensor caiu em desuso porque o veículo não apenas ascende, mas também descende. Mudou para elevador, mas outra vez erraram na classificação, visto que ele não apenas eleva, mas também baixa, ou traz de
volta. Ainda bem. O ascensorista continua sendo ascensorista, deveriam ter mudado para elevadorista. Mas o salário continua no andar mínimo.

Nesse encontro de todos os dias, na subida e na descida, manda a boa educação que Nando e a lourinha se cumprimentem, “Oi, como vai?”/ “Que chuva, hem?” / “O trânsito hoje estava um horror!” Dois anos seguindo essa rotina, enclausurados numa caixa
2X2 sem janelas, como classificar esse relacionamento? Amigos? Conhecidos? Nem um nem outro, muito pelo contrário.

Um dia por acaso eles se encontram num restaurante, Nando com a namorada, ela com uma amiga. Oi, como vai? falam ao mesmo tempo. E riem. Quem é? pergunta a amiga, Ah, um conhecido do elevador… A amiga estranha, Como assim? Vocês moram no mesmo elevador? Como explicar? Não somos amigos nem trabalhamos juntos, mas nos cumprimentamos e trocamos educadas expressões corriqueiras. Nem sei o nome dele. Por que não pergunta?

E nada mudaria nessa rotina, se por acaso não se encontrassem uma segunda vez, em outro restaurante. Quem é? pergunta a mesma namorada. Uma amiga de condução, ele diz. Que condução? Você não anda de ônibus. Pouca gente sabe, mas o elevador é o veículo mais usado no mundo. Ah, é? Mas nunca ouvi falar em amizade de elevador. Embora especialista em classificação, Lando não sabe classificar esse relacionamento de dois anos.

Mas repara que ela agora está com outra amiga… Solteira? Sozinha? Nota que o cabelo é castanho dourado, a luz do elevador faz parecer mais claro. Que os olhos dela são cor de avelã… E se dá conta de que o melhor momento de seu dia é encontrar com ela no elevador. E que apesar da namorada, vive solitário e infeliz. No dia seguinte, depois do Oi, como vai? de sempre, Lando decide fazer a classificação correta. Não é estranho? Nos conhecemos há tanto tempo e não sei seu nome. Ela sorri, Já ia perguntar o seu.

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