Era meia-noite e chovia…

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Era meia-noite e chovia

Bate o relógio as 12 horas, mas não há sol nem céu azul. A claridade que me ofusca vem de lâmpadas VR-Ióden equilibradas no topo de altos postes de alumínio, eretos feito soldados prestando continência ao chefão do quartel. Dia da revista. Mas não há soldados nem policiais me acompanhando nessa jornada noite a dentro, e as 12 horas batendo no relógio indicam a meia-noite, que por algum erro de adaptação coletiva não consideramos o meio da noite.

Se estivesse em Londres, o perigo se esconderia sob o denso nevoeiro que cobre a cidade mal iluminada – tal como acontece nos romances policiais, onde figuras encolhidas, imprecisas, com nomes impronunciáveis pela escassez de vogais varam a noite na esperança de se tornarem personagens de um filme noir. Mas o noir, do francês noite, se aplica melhor a filmes americanos com tramas nunca bem explicadas. Só sabemos que tudo deu certo porque o filme acabou.

Mas não estou na Inglaterra nem falo francês, e apenas o tamborilar da chuva acompanha meus passos apressados, e o perigo se esconde nos becos de portas fechadas se sucedendo sob marquizes arruinadas, cada uma abrigando uma sombra – que pode ser um mendigo tremendo de frio ou um assassino à espreita. Mas não faz frio, apenas a chuva dá o toque de mistério na noite sombria. Carros não passam, vozes não soam, e o medo é mais tangível do que meus passos ressoando nas calçadas quebradas. Ou meu coração acelerado. Ou estou imaginando coisas.

Mas de repente uma figura escura emerge das sombras, os braços agitados no ar como a manusear cimitarras, emitindo sons guturais. A tremedeira não me deixa distinguir se é um fantasma ou um assassino, e o terror me assalta. O vulto corre em minha direção e preciso reunir todas as minhas forças para fugir, embora ninguém entenda como se pode reunir todas as forças ou definir que forças ocultas são essas. Fujo desesperada para algum lugar onde os postes clareiem a noite e a chuva incessante não me congele a alma.

Onde o perigo antes pressentido e agora se materializando ao meu redor seja apenas uma projeção insana da minha mente idem. Mas a voz gutural me acompanha, me persegue, e fujo em desespero. De repente o chão desaparece de sob meus pés – é um terremoto ou virei passarinho. Antes de ser devorada pelo negro abismo ouço um grito avassalador saindo da minha própria boca. Não lembrei de pedir a Deus perdão pelos meus crimes, mas pude ver perfeitamente meu nome na sessão policial dos jornais da manhã. Morte deprimente.

Ana Ruga já passou dos oitenta, mas ainda é temida pelos outros mendigos e respeitada pela polícia que ronda o centro – ninguém mexe com ela. Mas de vez em quando faz o bem sem ver a quem – as obras do viaduto ali do lado estão paralizadas, as verbas desviadas sabe-se bem por quem, as placas de trânsito-interrompido roubadas pra fazer barracos, e vez ou outra um bêbado despenca no vazio. Ela bem que tentou avisar, mas o defunto da vez não lhe deu ouvidos.

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