O tempo entre as vírgulas

aalivro

Revendo as duas mil colunas que já publiquei nesse valente século diário, concluo que nesse auspicioso dia 25, final de julho, estou autorizada a abrir uma garrafa de champanhe e comemorar o dia do escritor. Na fila dos anônimos, mas persistente. Comigo, virtualmente, comemoram milhões de outros operários da palavra, que como eu se orgulham de espremer os miolos e tirar leite de pedra para produzir alguma coisa que vá além dos relatórios mensais nas empresas em que nos disfarçamos de operário-padrão.

Nos intervalos, ou enquanto o chefe confere emails, brota um poeminha singelo para comemorar o primeiro beijo, para chorar o primeiro fora, ou a sementinha de uma obra que vai mudar os rumos da literatura ou do mundo. Que sem sonhar nenhum escritor consegue ir além do primeiro parágrafo, com a vírgula plantada no lugar errado. As variações entre os profissionais da palavra são tão vastas quanto o número de livros já impressos.

Enquanto rabisco essa página, a televisão me informa que Harry Potter é o campeão dos fabricantes de sonhos – o livro mais vendido de todos os tempos, e com mais dois rebentos em breve nas bancas. Os fãs se ufanam. A maior mágica do pequeno mágico foi fazer o mundo voltar a ler. Correndo na raia oposta, um novo aplicativo inventado em 2013 está criando o milagre oposto: fazer as pessoas lerem menos, e não estou falando do Twitter.

Após intensas pesquisas, uma editora de livros digitais descobriu que o cidadão comum tem apenas 15 minutos por dia para ler. Portanto, criou um aplicativo para baixar leituras compactadas – resumos e comentários de 2.000 livros, por enquanto apenas não-ficção, para serem lidos em 15 minutos. E já alcançaram 2 milhões de leitores por dia. As chamadas do brinquedinho dizem, “Você já leu quatro livros em um só dia?” Ótimo para nossos vestibulares e concursos públicos, e que eu chamaria de literatura anã.

Se a moda pega e a editora invadir as demais áreas da criatividade literária, por que vamos perder anos suando e perdendo o sono escrevendo um romance épico de 590 páginas sobre a guerra dos banquinhos, se posso resumir minha obra antes mesmo de criá-la? Andy Warhol disse que no futuro, cada um terá seus 15 minutos de fama. Agora que o futuro chegou, nada mais lógico que investir nos 15 minutos de leitura.

Quando perguntados sobre a fonte de sua inspiração, os escritores enumeram tantos modos de criar uma obra de ficção quanto há palavras impressas no mundo. Bram Stoker, criador do Drácula, o personagem mais explorado no cinema e na literatura, comeu uma carne estragada no jantar e teve pesadelos horríveis com seu futuro personagem. Muitas obras famosas nasceram de uma frase ouvida ao acaso, ou como aconteceu com Saramago, da manchete de jornal que ele leu errrado. E como hoje em dia tudo é massificado, as editoras mudam tanto o livro que o autor, ao final, nem o reconhecem.

Grandes obras famosas foram baseadas ou inspiradas em frases e obras alheias, tipo Hollywood, que atualmente investe mais nos remakes do que já deu certo. Mais um livro do Drácula? J. K. Rowling havia decidido parar com as aventuras do Potter, mas lá vem mais um… e dois. E por que não? Se continua faturando horrores, parar por quê? Muitos críticos insistem que a maioria das grandes obras nasceram de grandes tragédias pessoais, mas há grandes livros cujos autores são almas pacatas, que nada viveram de interessante ou trágico na vida.

Para comemorar a data, algumas frases que eles disseram entre as vírgulas de suas grandes criações: “Quando eu digo trabalho, estou me referindo a escrever. Tudo mais é mera ocupação” —Margaret Laurence; “A diferença entre uma palavra quase-certa da palavra certa é como a diferença entre o vagalume e um raio”—Mark Twain; Não é da conta de ninguém se você precisou aprender a escrever; deixe que pensem que você já nasceu escritor” —Ernest Hemingway. E Augusto dos Anjos disse tudo, ‘Eu’.

(Imagem: leitura.com)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *