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Uma Harley Davidson rodando pelo interior de Alegre, lá pelos idos da década de 50, já devia ser centenária, mas cumpria sua nobre missão de transportar o feliz proprietário, embora a marca não tivesse a fama que tem hoje… pelo menos naquelas ermas paragens. O uso da moto para transporte não foi uma preferência, era apenas falta de recursos para comprar um carro, mesmo velho. E chegou à aprazível cidade de Alegre vinda sabe-se lá de onde.

Criada em 1906, em Wisconsin, a Harley Davidson está em terceiro lugar na preferência dos motoqueiros, mas tem um charme que as outras não têm, como frequentes reuniões dos adeptos pelo mundo todo, sempre em couro preto e mais das vezes aos pares, e tem até museu. Em 1998 ela chega oficialmente ao Brasil, em Manaus. A primeira fábrica fora dos Estados Unidos, criada para atender o mercado do hemisfério sul.

Mas a moto que marcou minha vida chegou muito antes, e como já revelado acima, era bem velha, com os parafusos se soltando nas estradas cheias de costeletas, como pipoca pulando com o calor do fogo. Além de consumir pouco combustível, a poderosa enfrentava sem problemas qualquer estrada ou a falta de estradas, sendo muito apropriada para a incipiente carreira de caixeiro-viajante do proprietário, que superava qualquer obstáculo para vender seus produtos.

Hoje a profissão é chamada Representante Comercial, e seus adeptos não mais desbravam o interior do estado correndo atrás de possíveis fregueses. As viagens são na Internete. Na peça ‘A morte do caixeiro-viajante’, Tennessee Williams valorizou o ofício; antes tais abnegados eram chamados de mascates num sentido pejorativo, embora fossem uma evolução dessa forma de comerciar. Em mundos opostos, o caixeiro-viajante da peça sucumbe à depressão americana e percebe que vale mais morto do que vivo para a família.

O caixeiro-viajante em terras capixabas tinha dois objetivos: vender seus grampos de cabelo, Brilhantina Royal Briar, Leite de Rosas, Linha Clark, Lâminas de Barbear Gillete, mas também impressionar a namorada alegrense, então professora primária nos confins do município. Mas a moto não andava muito bem das rodas e na cidade havia um exímio mecânico, capaz de consertar qualquer tipo de veículo, de caminhão a carroça.

Sem problema, disse o mecânico, Deixa a moto aí e vem buscar amanhã. Dia seguinte lá vai o viajante, e encontra sua moto na calçada, como se atingida pela ameaça bíblica de Jerusalém – não ficará pedra sobre pedra. Ou seja, totalmente desmontada – peça por peça, parafuso por parafuso, tudo alinhadinho em perfeita ordem de espécie, tipo e tamanho. O moço põe a mão na cabeça, desesperado, Tem certeza que vai conseguir juntar tudo isso outra vez? Claro, volte amanhã.

O ‘Volte amanhã’ se esticou por semanas, depois meses, com as peças arrumadinhas na calçada sob o sol e sob a chuva, vento brando e ventania. O moço explicava que precisava da moto para garantir suas comissões mensais; já havia vendido para todos os comerciantes da cidade e precisava ir em frente. E o mecânico impassível, Pode confiar, volte amanhã. O moço teve que continuar sua romaria profissional da forma mais humilhante, chegando nas cidades e lugarejos de ônibus.

Mas voltava sempre para ver se sua moto, e constatava que as peças na calçada iam sumindo aos poucos – hoje um parafuso ou dois, amanhã um guidão, um pedal de freio… até restar apenas algumas manchas de óleo na calçada. A única a se beneficiar com o triste fim da primeira Harley Davidson a rodar nas ruas de Alegre foi a professorinha – com tantas idas e vindas do infeliz caixeiro-viajante para tentar recuperar sua moto, acabou fisgado para sempre – estamos juntos até hoje.

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