A árvore da via

A árvore da via

Retorno aos States depois de merecidas e revitalizantes férias no Brasil, mais precisamente, Vitória, cheia de glória, por falta de rima melhor, com muita chuva e as constantes preocupações com balas perdidas e febre amarela. Tudo correu sem transtornos, ou quase, que se escapamos dessas, somos atacados pela cachumba, ou assim pensamos. Foi alarme falso, felizmente, mas corremos o risco de disseminar a doença no país. Imagina se o Trump descobre.

Outra doença que já deveria estar erradicada, tal como dengue e febre amarela, uma vez que tem vacina. Só falta mesmo criarem vacinas contra balas perdidas. Mas de balas também não nos livramos, pois as malas voltam cheias delas, para alegria dos netos. Uma festa para os olhos, apenas – a gente traz, deixa saborear umas poucas, e logo desaparecem na calada da noite. Alta traição, eu sei, mas criança esquece depressa.

Miramar, de beleza sem par, voltei! No retorno também nos aguardam surpresas desagradáveis. Nem no primeiro mundo nos livramos delas. Pois ao retornar ao local onde labuto diariamente por um punhado de dólares, deparo com um vazio inexplicável, ou melhor intolerável. Pior, abominável – a bela e frondosa árvore que hoje ilustra essas fúnebres lucubrações filosóficas, desapareceu do cenário da minha varanda
.

E da minha vida. Bela e frondosa, a preciosidade foi sumariamente abatida na calada da noite, para evitar protestos e atos agressivos. Ficava ao lado do prédio de dois andares onde uma pequena varanda dá acesso à escada dos fundos. Ali tem um banco de madeira para quem quiser desfrutar dos 15 minutos de descanso que a lei permite no horário de trabalho. Como poucos usam essa entrada, o lugar é sossegado, e ali eu me sentava para apreciar a imensa matrona impoluta. Tinha o efeito repousante de uma meditação.

Na farta galharia apontando o céu aos apressados bípedes que sob ela transitavam morou uma pequena raposa, até que o serviço de desproteção aos animais a removeu, também sem explicações plausíveis, pois não havia atritos entre ela e os humanos. Pelo contrário, paravam todos para tirar fotos e até traziam os filhos para vê-la. Em todo caso, acho que a carnivora animalia estava acabando com a população de esquilos do campus, mas isso é parte da lei da natureza, na qual não devemos nos intrometer.

As raposas das áreas urbanas são chamadas de residentes urbanos carnívoros, e vivem mais que as raposas do mato. São muito comuns na Europa, onde demonstram hábitos modificados, com bandos maiores sobrevivendo em áreas menores. Nossa raposa vivia sozinha, e era meio exibida, acho mesmo que posava para nossas fotos. Foi-se, que a natureza humana tem estranhas vilanias, como derrubar minha velha amiga. Mas não morreu em vão – foi sacrificada para nos dar mais vagas no estacionamento. Viva o homem, gente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *