Sopa de Letrinhas

Entre o A e o Z se concentram todos os mistėrios da mente humana, no que chamam de síndrome do arroz: nossa mente comprimida entre esses dois extremos, como uma caixinha de comida chinesa. Esse complexo emaranhado de hieroglifos tem a capacidade de se esticar indefinidamente, criando – pasmem, com apenas 26 figuras, uma ode ao gênio humano ou um festival de burrice. Humana, claro, que o burro não sabe escrever. Na pegadinha, Qual a maior palavra do idioma português? a resposta correta é arroz, porque inicia no A e termina no Z.

Alinhadas como formigas a caminho do formigueiro, elas parecem uma despretensiosa sopa de letrinhas. No entanto, unindo-se e atando-se umas às outras, carregam a mastodôntica responsabilidade de preservar a cultura, a história, o conhecimento, as artes, a ciência e, obviamente, as letras. Têm ainda o dom de se embaralhar e trocar de posição e estilo, como ginastas em corrida de revezamentos, adaptando-se a todas à maioria das línguas escritas ou traduzidas no planeta.

Nós, mortais ditos letrados, temos uma relação de amor e dio com as letras, que hora posam de amigas fiéis e companheiras imprescindÌveis, hora são algozes que nos torturam. Pois as mesmas letras, trocando de posição trocam também de sentido, e tanto podem enunciar um prêmio da loteria como a cobrança de uma dívida; o auspicioso nascimento da primeira filha ou a morte de um ente querido.

Um ‘Seja benvindo ‘ ou um ‘Some da minha vista’. Graças a elas nos tornamos civilizados, ilustrados, eruditos. Mas quanto mais evoluÌmos, mais tentamos nos libertar desse jugo. Uma emocionada mensagem amorosa, por exemplo, em tempos remotos era transmitida em uma carta cheia de floreios e subentendidos. E havia as mensagens cifradas, sem letras mas cheias de encanto, com o abano de um leque ou na cor da flor oferecida.

Aí criaram o cartão postal e a mensagem escrita foi encolheu, não apenasa redução do espaço disponivel mas também na essência, pois um cartão não viaja sob a proteção de um envelope. Nesses tempos de alta tecnologia, reduzimos ainda mais o uso das letras na interação social. Uma foto vale mais que mil palavras, disse o fotógrafo. A velha carta hoje se comprime em 14 palavras; ou em uma cifrada mensagem de texto, reduzida em tempos de pressa. Entendemos, comprovando o milagre que, tal como a transformação da água em vinho, transforma 26 letrinhas no incalculável manancial do saber humano.

Com elas escrevo essa coluna, e se o conteúdo difere de tantas outras escritas por tantos outros colunistas, cada uma e cada um tem seu estilo e seus motivos, que serão expressos por essas mesmas figurinhas mágicas, que se tornaram a base de toda interação necessária para nossa sobrevivência na terra e no espaço. Esse poder de transmutação e adaptação afeta os nomes aos quais estamos atados e se tornaram nosso crachá social – Ana ou Zé, Bernardo ou Yara. Para facilitar ou complicar, criaram a famigerada ordem alfabética, causando transtornos emocionais e injustiças culturais. Na fase escolar, nomes começados com as primeiras letras são desastrosos para quem não estudou a lição ou não fez o dever de casa. Pior ainda, são os primeiros nas provas e apresentações orais.

Na vida real a situação se inverte, e nomes começados com as últimas letras deixam seus usuários em desvantagem qualitativa, pois nem sempre é pos[‘0,osível informar, como nos filmes, que os nomes estão em ordem alfabética. Quem se identifica com a inicial W fica por último. Parece que o alfabeto estancou nessa letra – ninguėm mais se chama Xidila ou Zukira. Os nomes das novas gerações no Facebook são estrangeirismos, começam com as primeiras letras. Quando assino Wanda estou informando não apenas meu nome, mas minha idade provável.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *