Apagou

eclipse

“E no entanto, ela se move,”  Galileu Galilei

Houve um tempo que se acreditava que o sol girava em torno da terra, que ficava parada, a soberana no centro do mundo. Galileu tentou provar o contrário e se deu mal. Aparentemente desistiu, mas elaborou a frase acima, que entrou para a história. E no entanto, dizem que ele não disse, mas por que não acreditar? Quando essa verdade elementar foi finalmente aceita, muito do orgulho humano caiu por terra, mas nos restou ainda o consolo de um satélite girando submisso ao nosso redor. Nossa dama da noite, a lua, tem sido desde sempre alvo de nossas ilusões e fantasias.

Embora sem brilho próprio, a lua é uma guerreira que soube tirar proveito da luminosidade do sol para se destacar, no que não deve ser censurada, porque essa subtração em nada afeta a exuberância do nosso astro-rei, que continua nos mantendo vivos com sua luz e calor. Outra improbidade dos humanos, chamar de astro-rei o sol que nos aquece, que não é rei de nada – o incógnito infinito está cheio de astros muito maiores.

De vez em quando a lua sai de sua passividade e nos surpreende, como aconteceu agora com o eclipse solar. Uma festa aqui no hemisfério norte, embora em Miami não tenha sido tão exibido como em outras cidades do norte. Houve grande expectativa, e muitos pararam para ver, embora poucos tenham visto. Não fui assistir ao show, mas alguns dos departamentos da universidade onde trabalho ofereceram óculos especiais para que estudantes, professores e funcionários pudessem ver.

Esse foi um eclipse raro e não deveria mesmo ser desperdiçado. Na minha infância alegrense ocorreu um eclipse lunar total e lembro da população local acorrendo em massa para prestigiar o evento. Claro, nesse tempo não tínhamos óculos especiais para proteger os olhos, mas usava-se o truque de passar a fumaça de uma vela sob um vidro, tornando-o fosco. E toda a cidade estava nas ruas, de vidro no rosto, olhando para o céu. Dizem que radiografias fazem o mesmo efeito, mas não vi ninguém olhando para o sol com a foto do pulmão ou de uma perna quebrada.

O próximo só vai ocorrer daqui a 70 anos, portanto, não estarei aqui para escrever outra coluna. Quem viver verá. Como estou apostando que essa nova geração vai chegar aos cem anos com saúde e vigor, espero que meus netos o vejam. E provavelmente vão contar aos colegas que os pais deles viram o último eclipse com óculos especiais, e a avó viu o penúltimo através de um vidro enfumaçado.

Para nossa decepção, em Miami o dia não escureceu de repente, como muita gente esperava, mas lá no Oregon isso aconteceu, e os grilos começaram a cricrilar, pensando que tinha anoitecido. Suponho que as galinhas puseram mais um ovo, coitadas. Embora tenha sido aventada essa possibilidade, nenhuma catástrofe ambiental ocorreu durante as três horas em que a lua, sempre tão submissa, finalmente se encontra com o senhor da Via Lactea.

Que segredos teriam trocado nesse encontro jamais saberemos, mas por certo eles não iam desperdiçar o auspicioso encontro falando que a terra vai de mal a pior. Aposto que os eclipses são mais que simples ocorrências astrais, e portanto assistimos ao encontro amoroso dos dois astros que nos guiam, e nossa vã filosofia e tola incredulidade não alcança. Somos pequenos demais para tanta beleza.

Ele e ela vagam nos céus sem poder se encontrar, como nos antigos romances de amor, cheios de impedimentos para tornar o romance mais valorizado. Talvez uma terrível maldição celeste esteja separando os sol e a lua, mas permitindo um encontro a cada 70 anos, mais ou menos. E assim nascem as estrelas. P.S. Foto do sol quase encoberto pela lua, tirada por  Julia Marques no celular.

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