O avesso do avesso

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Nelson não acredita na sorte porque a vida só lhe reservou o avesso, o que demonstra um temperamento pessimista. De acordo com a genética, ter nascido já foi muita sorte, ganhando essa primeira maratona contra milhões de adversários. E de acordo com os budistas, as chances de nascer como ser humano são ainda mais difíceis. Daí em diante entramos num jogo de sorte e azar em que cada minuto é uma vitória. Basta olhar em volta, ler jornal e ouvir o noticiário.

 
Nelson dos Anjos porém cansou de tudo – os amores deram errado, não gosta do emprego e com a família nunca se entendeu. Em 28 anos de amarga vida nunca deparou com o que as outras pessoas consideram uma boa comida, um bom fim de noite ou fim de semana, um bom programa na televisão ou no cinema, ou um bom livro: a vida só lhe reservou maus momentos.

 

 

Bom ou boa, aliás, são adjetivos que Nelson já eliminou de seu dicionário pessoal. Que dirá os derivados. Por isso desistiu de tudo e foi pras montanhas, fugiu do mundo. Mas não se hospedou em uma  pousada aconchegante servindo broa de milho no café da manhã e licor de jenipapo no jantar. Vou pro mato, me isolar do mundo e das interações sociais, levando apenas a mochila e o celular. Só volto quando a bateria acabar.

 

 

Então vai demorar, porque não chama nem é chamado. Morando no mesmo andar do mesmo edifício, Zilá sempre evita encontrar o vizinho, como todos os demais moradores. Mas um probleminha técnico no apartamento do indivíduo exige imediata atenção – o rádio ficou ligado a todo volume e ninguém consegue dormir. Embora tenham cortado a energia do apartamento, o rádio continua berrando, portanto funciona com bateria, que provavelmente não morre tão cedo.

 

 

Sendo a moradora mais próxima, Zilá é a que mais sofre, e tanto procura que encontra o número do celular do sujeito – o condomínio exige que todos os moradores preencham uma ficha ao se mudarem. Enquanto isso, uma enquete é feita no prédio para saber a opinião dos residentes sobre o problema: o indivíduo realmente esqueceu o rádio ligado ou foi de propósito? Cem por cento dos votos para ‘de propósito’.

 

 

Ruminando amarguras existenciais nas montanhas, Nelson dos Anjos leva um susto quando o telefone toca. Por que toca se nunca dei o número a ninguém? Nem no sigilo telefônico se pode confiar? Atendo ou ignoro? Ignorou, claro, mas como continuou tocando, atende. Uma voz de anjo denuncia a ocorrência, mas a resposta nada tem de suave, Quando voltar desligo. E quando volta? indaga a voz angelical, mas Nelson desliga.

 

 

Os moradores do prédio fazem um esquema de revezamento, ligando dia e noite para o sujeito – ou ele desliga o celular ou também não dorme. Nelson não desligou; não carregava um celular para falar com ninguém, mas além de ranzinza era também hipocondríaco e temia não ser socorrido caso adoecesse de repente. Portanto atende, e é outra vez a voz de anjo, informando que entrou no apartamento e desligou o rádio. Volte quando quiser ou melhor ainda, não volte.

 

 

Nelson, erroneamente chamado dos Anjos, leva um susto. Tem neura de assaltos e a porta do apartamento tem oito cadeados. Como entraram? Zilá explica que o chaveiro da esquina resolveu o problema num minuto. Nelson fica em estado de choque, vendo sua vida invadida e exposta  – não há mais segurança no mundo dito civilizado? Avisa que vai processá-la por invasão de domicílio, e volta correndo.

 

 

Nelson entra no prédio sob vaias dos moradores, e encontra Zilá esperando na porta do apartamento, com uma nova chave mas sem cadeados. O ar das montanhas lhe fez bem, ele emagreceu e ganhou um bronzeado, ficou quase bonito. Nelson se sente desarmado, talvez por perceber a fragilidade de suas técnicas de segurança, ou talvez pelo sorriso da vizinha… Como não reparou nela antes? A voz de anjo pergunta se não sentiu falta de uma comidinha caseira, Fiz um caldo verde, quer experimentar? O aroma vindo da cozinha é convidativo…

Imagem: Cadeados do amor expostos na Pont des Arts, Paris (Google, TV+)

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