Turista acidental

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Retorno de meu exílio forçado de uma semana, no que posso chamar de turismo acidental. Embora as informações obtidas durante a ausência fossem tranquilizantes, encontro um desolador cenário de ruas sujas e outdoor destruídos, os farrapos dançando ao vento feito velas de navio fantasma. As mais afetadas são as árvores, coitadas, tombadas por toda parte, guerreiras derrotadas. Nas calçadas e estacionamentos, pilhas de troncos e galhos ressecados esperam seu destino final – serem tritutados e virar munch de jardim.

 

Quando um furacão enfurecido é detectado, os residentes em sua rota provável têm que fazer a difícil escolha – fugir ou enfrentar? A não ser que haja uma ordem de retirada, claro. Mesmo tendo, há os que teimam e ficam. Com o Irma a ordem foi de alerta, mas quem ficou teve que se fechar em casa: se saísse a polícia levava para os abrigos comunitários. Na esteira do furacão faltou água, luz e gasolina, poucos estabelecimentos abriram, e apenas durante o dia. Quase uma cidade sitiada.

 

Meu pequeno núcleo familiar decidiu pela retirada, e partimos para Navarre Beach, no Golfo do México, uma pontinha estreita no extremo noroeste da Flórida, que promete ser a praia mais sossegada do mundo. Quer dizer, sem badalação, com lojas e restaurantes fechando às 9, e tão distante que muda o fuso horário – são 10 a 11 horas em belas estradas muito bem cuidadas. No entanto, em nossa viagem pré-furacão, gastamos de 20 a 22 horas para chegar, tal o engarrafamento. Isso com postos de gasolina fechados e hotéis sem vagas.

 

Navarre e Navarre Beach, cidades irmãs, estão perto de Pensacola, a última cidade ao oeste na geografia do estado. Na história, porém, reclama o título de primeira cidade americana, fundada pelo espanhol Tristán de Luna em 1559. Mas teve vida curta, e Santo Agostinho, fundada em 1565 no leste da Flórida levou a fama, sendo considerada o primeiro núcleo permanente dos States. Os sacolenses acham uma injustiça.

 

Se a longa retirada foi uma via-crucis, o retorno foi mais rápido e mais tranquilo, mas ainda com muito movimento nas estradas e hotéis lotados. Entre a ida e a vinda, as férias forçadas foram um maravilhoso descanso num local paradisíaco e cheio de charme. Mas não devo me regozijar com nossa boa sorte, com tantos afetados pela fúria do tenebroso Irma.

 

A região do extremo sul, onde fica Key West, foi a mais atingida, com 25% dos imóveis destruídos. As estradas de acesso ainda estão fechadas e sem data de reabertura. Quem saiu não pode voltar tão cedo, mas quem teimou e ficou está em situação ainda pior, amargando falta de tudo. A pitoresca cidadezinha de Hemingway vai ter que renascer das cinzas, como aconteceu com Nova Orleans.

 

 

A foto que ilustra esse relato é de Navarre Beach, com um belo pier adentrando o golfo.  Na entrada tem um aviso: ‘$1,00 para caminhar; $7,00 para pescar. Pague na volta’. Fui com meu marido, que disse ter os dois dólares no bolso (estávamos caminhando na praia, que não tem vendedor de nada). Na volta, depois de intensa pesquisa para descobrir a quem pagar, Michel percebe que tem no bolso 2 reais. A cobradora aceitou o pagamento e pôs a nota sob o vidro do balcão – porque achou bonita e porque não existe nota de 2 dólares.

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