A mulher que engolia fogo

Antes de tudo existiam os circos, e nada a ver com a sofisticação do canadense Circo de Soleil. Eram os mambembes, sem pausa e sem pouso, rondando de um vilarejo a outro, e a data da partida era determinada pelo movimento da bilheteria. Ou quando algum participante se metia em encrenca, mor das vezes por um rabo de saia, como alardeava o palhaço. Por onde o circo passava vez em quando alguém ia junto, iludido pelo falso brilho das lantejoulas.

 

 

Zoira, recém-casada, foi das muitas que fugiram na calada da noite atraída pelos olhos negros de Althey, o atirador de facas. Por isso o marido não foi atrás. No mesmo lugarejo ficou Zilza, a mulher barbada, apaixonada pelo barbeiro. O mundo sob a lona não era exigente e sempre cabia mais um… ou duas, desde que soubesse fazer alguma coisa. Zoira fazia uma irresistível galinha ao molho pardo, mas galinhas eram escassas naqueles idos.

 

 

Sendo no entanto formosa e dona de um belo par de pernas, bastou-lhe um maiô prateado e um penacho emplumado para conquistar o distinto público. E porque era a professora do lugarejo deixado para trás, para sempre, criou o papel da paciente professorinha da roça, ensinando o be-a-bá e um-mais-um-dois no picadeiro ao aluno burrinho, ninguém menos que Authey vestido de Pinóquio.

 
A bela nem precisava inventar – repetia para a honrada assistência as mesmas aulas que dava para as crianças do Fundo do Poço, e o público ainda ajudava, repetindo com ela as lições que o aluno-Pinóquio-palhaço não conseguia aprender. Ainda hoje corre pelo interior desses brasís maltratados o boato de que foi assistindo a uma das aulas da Zoira que Chico Anísio criou sua famosa Escolinha do Professor Raimundo. Não posso provar, apenas repito o que ouvi por aí.

 
Nem duvide que existe um lugarejo chamado Fundo do Poço, lá pelo interior de Bumiranga. Nunca estive lá, mas hoje em dia não exijo provas de nada que me contam. Na minha infância ouvia muitas referências a  outro lugar mágico chamado Onde Judas perdeu as botas, muito lembrado quando se perguntava onde está ou onde fica, e o perguntado não queria ou não sabia dar a direção correta, ou queria  indicar que era muito longe. Onde mora aquela Excelência que recusou a propina? Lá Onde Judas perdeu as botas.

 
Ficava eu intrigada com esse local misterioso mas sempre citado… teria Judas andado pelo mundo e veio perder as botas no Brasil? Outra indicação que me encantava era a famosa e nunca bem definida cor-de-burro-quando-foge. Quem nunca a ouviu, pelo menos uma vez por semana? Qualquer coisa que sumia ou que não se conseguia explicar, era definida como tendo a famosa cor de burro quando foge. Minha avó dizia que burro tem mesmo uma cor dúbia, nem preto nem branco, nem marron nem castanho, nem cinzento nem aguento.

 

 

Os mistérios que plantam na alma infantil… Tenho certeza que muitas crianças brasileiras sofriam como eu o maior enígma da nossa história – como D.Pedro II podia ser filho do D. Pedro I, se nos livros escolares o pai era jovem e bonito e o filho era um velho barbudo? O primeiro Pedro tinha fama de mulherengo e o segundo de sizudo, o que talvez explique a barba, para não ser confundido com o  pai mulherengo. Mesmo assim, dizem que o de barba caiu de amores por Anarê, trigueira índia guarani, quando veio ele em visita ao Espírito Santo.

 

 
Fosse Anarê americana, teria  muitos filmes baseados em sua vida, e se vivesse nos dias de hoje estaria casada com um dos Ronaldos e seria madrinha de bateria. Cada terra com seu uso. Naquele tempo, porém,  a glória era ser artista de circo, e Anarê seguiu um circo mambembe, apaixonada pelo dono,futuro fundador da Império Serrano. Com ele aprendeu o ofício de engolidora de fogo, e dela o brasileiro herdou essa capacidade de engolir tudo calado.

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