Voto em branco

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Numa pesquisa recente para saber quem o vulgo considera a classe mais mentirosa do mundo, o primeiro lugar foi para os políticos, seguidos de perto pelos advogados. Não sei porque os políticos levam a culpa de tudo, mas a pergunta deveria vir acompanhada de uma certa advertência: Quem dentre vós não mente, que jogue o primeiro voto. E já sabemos que não haveria voto nem pesquisa – na vida como na arte, quem não mente?

 

O diretor da revista Vida Saudável conquista um anúncio de página inteira, contrato de um ano, mostrando as qualidades do novo leite em pó Vaquinha Risonha, com o slogan, ‘O que é bom pode ser barato’. Não tendo sido informada do vantajoso contrato, Eduarda, repórter da revista, escreve um artigo provando que o referido leite, além de não ter as qualidades que anuncia, também dá dor de barriga. Qual o diretor vai descartar?

 

Mas não chore as dores da Eduarda, que demitindo-se do emprego adere à economia informal vendendo saudáveis bolos caseiros cuja receita está na família há várias gerações. Slogan: ‘Feito com carinho com os melhores ingredientes’. Vendem feito celulares, e Eduarda está faturando mais do que ganhava na Vida Saudável. Segredos bem guardados: a receita foi tirada da Internet, e na compra dos ingredientes, adivinha qual leite em pó ficou mais em conta?

 

Os meios justificam o fim ou o fim justifica os meios? Nas sextas-feiras, quando Eduarda vai suar na academia, o marido aproveita para fazer serão até tarde. Segredo mal guardado: ele vai se encontrar com a amante Bilu, que por sua vez jura que ele é o único, e o pressiona para deixar a Eduarda e ficar com ela. O que ambos não sabem é que a Eduarda sabe, mas pra quê fazer escândalo? Divórcios custam caro e a mulher sempre leva a pior.

 

O que os amantes não sabem é que a Bilu pressiona os dois a abandonar as traídas, e faz apostas com as amigas sobre qual vai jogar a toalha primeiro. Não tem preferência, os dois estão no mesmo piso salarial. A família da Eduarda tem outros segredos bem guardados: a mãe usa peruca; a filha diz ter um ótimo emprego mas vive às custas do ficante, outro bem casado; o filho compra artigos usados e em bom estado e vende como novos em um blog muito popular.

 

Alda, irmã da Eduarda, diz que o marido trabalha em casa, o que não deixa de ser verdade; dá trabalho mudar de posição na poltrona e o canal da televisão o dia inteiro. Tem um filho na faculdade, mas não diz qual nem onde. Cadê o  menino? No tempo em que as ruas eram calçadas com paralelepípedos, diriam que ele era contador da prefeitura – o dia todo pra lá e pra cá contando os paralelepípedos. Agora que as ruas estão asfaltadas, acusam o rapaz de estar metido com drogas.

 

Existem mentiras de todo tipo e calibre, e na calada da noite todos os gatos são pardos. Os pais mentem para os filhos que se não comerem verduras não vão crescer; os filhos mentem para os pais dizendo que terminaram o dever de casa. Maria mente para José que o feijão é de hoje; José mente para Maria que o aumento não saiu. Fazer o quê? Quem tem seu estoque de mentirinhas na manga que vote em branco.

Nós, fantoches

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Uma chuvinha incessante atrapalha a programação do fim de semana e nos deixa sem Internet. Isso no sábado, quando os netos passam o dia, às vezes também a noite, com pizza obrigatória. E para comprovar nossa total e absoluta dependência da alta tecnologia, ficamos num barco sem remo e sem rumo – sem televisão, telefones celulares e fixo, joguinhos eletrônicos, e-mails, Netflix, HBO; e tudo mais que se conecta nas ondas virtuais. A turminha parece formiga que perdeu o caminho do formigueiro, se é que isso pode acontecer.

 

Ofereço meus dons criativos para contar uma história – aos netos, não à formiga. Era uma vez um tempo em que eles adoravam, desde que fossem os protagonistas principais. Mas neste sábado com cachoeiras escorrendo pelos vidros das janelas, a resposta é Não obrigado. Então vamos ler um livro, Não obrigado, já lemos os livros do mês na escola. E aí fico pensando se o tiro não está saindo pela culatra, e ao invés de estimular o hábito da leitura, as escolas estão tornando-o uma obrigação. Portanto, Não obrigado. Mas o mundo já girava antes da explosão virtual e sempre há o que fazer sem estar conectado a algum fio.

 

Com os festejos do Halloween ainda recentes e o excesso de balas ainda entulhando potes e cestos, sugiro escreverem uma história de fantasmas em homenagem ao Dia de los Muertos dos mexicanos. Não foi assim que Mary Shelley bolou o Dr. Frankestein? Ficaram famosos, e nem existia o Kindle. Mesmo feio de cara e péssimo de caráter, desenvolvendo hábitos assustadores, no próximo ano nosso monstro favorito completa  200 aninhos.

 

Espalho sobre a mesa pincéis e tintas, lápis de todas as cores e crayons ídem, uma pilha de papel branco como sorvete de coco, e nada funciona além das frequentes visitas à geladeira. Até que finalmente faz-se a luz, ou melhor, a rede ressuscita. E se tudo está de algum modo conectado nas nuvens como fios invisíveis movendo fantoches, fico imaginando um futuro distópico, talvez não muito distante, em que tudo estará subordinado a essa nova força motriz que nos controla – Dona Internet.

 

Para dor de cabeça ou  mal de amor, para veias entupidas onde outrora o sangue fluía, para o Parkinson e a calvície, chegará o tempo em que a Internet que nos mantém catatônicos na frente de telinhas e telonas vai curar todos os males e resolver todos os problemas. O carro não precisa de gasolina, o fogão dispensa o gás, a comida não tem calorias. Dela virá a energia que faz motores, elevadores e computadores funcionarem, que clareia a escuridão e controla os sinais de trânsito. Hospitais sem médicos, tudo robotizado, da consulta à cirurgia.

 

Exagero? Uma pesquisa recente entre adolescentes apurou que 63% dos jovens consultados disse que não viveriam sem seus celulares; 30% disse que o mundo tornaria o caos; e a minoria restante disse que a vida perderia a graça. E falando em caos, um recente estudo apurou que a maioria dos jovens viciados em drogas vêm de famílias com bom poder aquisitivo e com as melhores notas nas faculdades. Também são os que continuam no vício depois dos 26 anos. O estudo foi feito nos Estados Unidos e na Inglaterra.