Versos misteriosos

 

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O verso apareceu na limpeza anual dos arquivos do irmão, em letras cursivas que, tal como as máquinas de datilografia, estão caindo em desuso: “Voltarei, tu me falaste; Respondi, Não esperarei. Mentiste, nunca voltaste, Menti, sempre esperei”. Foi preservado em um  amarelado caderno de poesias da irmã metida a escritora e chegou à era tecnológica. Compartilhado com o grupo familiar no WhatsApp, ganhou muitos elogios e foi repassado para amigos de outros grupos na usual reação em cadeia da Internete.

 

Lamentavelmente, porém, e embora o caderno e a elaborada letra sejam comprovadamente meus, o verso não é de minha autoria. A família recusou-se a acreditar, alegando que tendo provavelmente se passado um século desde que ali o registrei, devo ter esquecido. Buscando provas para me defender vou ao Google, mas não encontro qualquer referência ao adorável versinho que parece ter sido escrito numa previsão ao Twitter: uma história completa de amor e perda concentrada em apenas 13 palavras. Lindo!

 

Lá pelos meados do século passado, num tempo sem televisão, telefone, Internet e tudo mais que se seguiu, numa cidade muito alegre mas com parcas opções de leitura, era comum as jovens sonhadoras – e qual não era? –  manter os chamados ‘cadernos de poesias’, onde registravam não apenas suas modestas incursões literárias mas também tudo que achavam  em revistas e livros. Quando gostavam, claro. Usava-se também copiar os ‘achados’ umas das outras. No entanto, ninguém julgava necessário atar o nome do autor ou autora à obra escolhida.

 

O verso mais popular e presença obrigatória em quase todos os cadernos era uma ode ao pessimismo: “Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera.Somente a ingratidão – esta pantera – Foi tua companheira inseparável!”  Demorei a descobrir que eram versos de Augusto dos Anjos, e sua inclusão nos cadernos de adolescentes sonhadoras era um mistério, visto que usualmente gostávamos apenas das obras românticos. Mesmo se trágicos.

 

Nos dias de hoje, porém, vivemos assolados por outros trágicos, tanto na literatura como nas demais expressões artísticas, principalmente o cinema. Nos sites como Netflix e HBO, 9 entre 10 chamadas dos filmes disponíveis mostram uma arma apontando para alguém. E se os joguinhos eletrônicos tão do agrado da nova geração são incentivos à violência, não sei porque se surpreendem quando mais um maluco deixa a toca e sai matando todo mundo.

Quanto ao belo verso da mentirosa no início da coluna, o mistério persiste, e continuo procurando quem foi o autor, embora possa também ser uma autora. Isso de esperar em vão por alguém que não vem parece mais feminino mesmo. Se você sabe quem escreveu ou quem não voltou, por favor me conta. A foto de hoje lembra a Black Friday, que em 2017 teve a maioria das vendas  online. A corrida às lojas depois do jantar de Thanksgiving está virando folclore?

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