Dois milagres de Natal

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1 – Natal não é sinônimo de milagre

Baltazar odeia o Natal e não acredita em Papai Noel. A mãe morreu cedo e o pai nunca se deu ao trabalho de lhe dar amor, muito menos um presente, seja no natal ou em qualquer outra época do ano. O pouco que ganhava gastava em bebida, e desde muito cedo Baltazar aprendeu a fazer biscastes pela vizinhança em troca de um prato de comida. O tempo passou, o mundo deu voltas, mas uma vida estável não mudou o menino infeliz que ainda se revolta dentro dele.

 

Baltazar nunca teve a quem dar ou de quem receber um presente, e continua odiando os muitos natais que passam por sua vida. Nas festinhas de Amigo Oculto no trabalho sempre se omite, não vê motivos para participar de um troca-troca de coisas inúteis com valor estipulado, e não se insere na falsa alegria dos brindes e votos de boas festas. Esse ano, porém, Natal pode ser sinônimo de milagre.

 

Maria surgiu do nada, justo o nome da mãe de Jesus, e não falta nada para ser mais santa, até um filho ela sustenta sozinha. Está sempre sorrindo, apesar da vida difícil e do dinheiro esticado para cobrir as despesas até o fim do mês. Não mais que de repente, ela o convida para a ceia na casa dos pais, quer que conheça o filho e a familia. Pela primeira vez Baltazar entra numa loja para comprar presentes, e talvez até ganhe também seu primeiro presente de natal.

 

2 – Natal pode ser sinônimo de milagre.

 

 

Maria trabalha no Walmart e sustenta sozinha um filho de 7 anos em Pompano Beach, o reduto de brasileiros na Florida. Apesar da vida dificil, Maria é alegre e sempre gentil com os colegas e paciente com a freguesia. Ver gente com dinheiro fazendo compras é até divertido – no âmbito do restrito orçamento de Maria, qualquer um que chega no caixa com o carrinho cheio é rico. Em dezembro o ritmo acelera, mas as horas extras permitem comemorar o Natal do jeito que deve ser – com uma boa ceia e presentes para todos.

 

Maria divide o pagamento extra com a precisão de um cientista partindo um átomo – o presente do filho, os presentes dos pais,  um sapato para si mesma. Mas esse ano o natal será um pouco diferente. Baltazar apareceu do nada, justo o nome de um dos reis magos, e só falta o camelo para ser mais mágico. Maria teve que mudar sua lista para incluir um presente para ele, que aceitou, ou melhor, insinuou um convite para passar o natal com ela.

 

O pai ia ganhar uma camisa mas vai ganhar um par de meias; a mãe sonhava com algo pessoal, mas já ganhou uns pratos decentes para a ceia. Em vez do iPad o filho vai ganhar uma calça jeans, e o sapato foi eliminado do esquema. Baltazar chega distribuindo sorrisos e embrulhos – uma camisa para o pai, um perfume para a mãe,  o iPad para o menino, e um sapato com bolsa combinando para Maria. A noite não poderia ter sido mais feliz.

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