Admirável mundo novo

 

 

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Há muitos e muitos anos um jatinho caiu na Amazônia e os cinco ocupantes supostamente morreram. Supostamente indica que não houve total comprovação do fato,  pois apenas quatro corpos foram encontrados. Maria Eneida desapareceu sem deixar vestígios, e após longas buscas, a polícia decretou oficialmente sua morte. Piranhas e anacondas abundam na área, bem se sabe, e o pouco que sobra de seus banquetes somem no fundo dos muitos afluentes e confluentes do grande rio. Fora igapós e igarapés e tantos mais.

 

O tempo passou e um belo dia Maria Eneida aparece, vivinha e vendendo saúde. Foi salva da morte por uma tribo inculta e nao registrada nos arquivos oficias – os patatis, e com eles viveu por muitos anos. Foi muito bem tratada, aprendeu coisas do mundo primitivo e ensinou outras do mundo moderno, sem porém poder voltar ao convívio das pessoas civilizadas. Um dia a tribo foi descoberta, devidamente educada e catequizada nos princípios da modernidade,  e a antes jovem e agora senhoril pessoa volta para casa. Imaginemos  o choque, pois nosso rotundo globo mudou mais nesses últimos 50 anos que em toda sua trajetória anterior. Ou  melhor dizer, rotatória anterior.

 

A casa não tem telefone? Preciso voltar ao meu antigo emprego. Decepcionada, Maria Eneida descobre que ninguém mais trabalha como telefonista. Como assim? Quem faz as ligações? Ninguém usa telefone, mãe. Objeto obsoleto e fora de moda. Onde tem lenha pro fogão? Quem encera o piso de madeira? Não tem tanque pra lavar a roupa? Os três filhos que deixou ainda jovens, tão unidos, não se falam mais, e só se comunicam por pequenos aparelhos que carregam para toda parte, até  mesmo no banheiro. O que houve, por que brigaram? Ninguém brigou, mãe, é assim que as pessoas se comunicam hoje em dia. O marido, por quem morria de ciúme por causa das colegas do escritório, considerando-se viúvo casou de novo. Com um colega do escritório.

 

Nos tempos que viveu como imigrante ilegal em Miami, Maria Eneida acompanhou  na imprensa o caso de um milionário que a esposa pegou em flagrante delito de traição explícita com uma certa atrizinha chamada Marla não sei das quantas. As consequências foram drásticas – divórcio, escândalo, execração pública. A carreira do executivo acabou, faliu. Esse nunca mais se refaz. Qual não é o espanto quando Maria Eneida vê o sujeito cheio de pompa e circunstância, a mesma pose e o mesmo topete, aos berros na televisão. Quem? O novo presidente da república?

 

Maria Eneida descobre um novo mundo dominado pelas ondas virtuais, todo mundo antenado na tal nuvem que envolve o planeta. Isso é espionagem, não existe privacidade, todo mundo sabe da vida de todo mundo! Grita, mas ninguém se importa. Dinheiro, que era bom, sumiu – todos pedem o cartão de crédito… ou não leva a mercadoria.  Os russos não são mais a grande ameaça do planeta e todo produto que compra vem da China. Os patatis viviam de forma primitiva e até praticavam o canibalismo, mas só comiam os inimigos. Maria Eneida já comprou a passagem de volta – vivia muito mais tranquila entre eles.

Amor no Reveillon

 

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Nada melhor para adentrar um novo ano que um novo amor. Ou nada melhor que achar um novo amor no Ano Novo. Dependendo dos parâmetros, naturalmente. Se Bia ama o Dino mas no reveillon de Copacabana esbarra no Tito e se  apaixonam, não será um bom início de ano para o que virou passado. Tudo porque o Dino perdeu o bonde  e não chegou na praia. Também insatisfeita ficou a Lurdinha, que amava o Tito e esperava uma declaração de reciprocidade no pipocar dos fogos dessa noite festiva.

 

O trânsito engarrafado fez Lurdinha perder os fogos e o namorado – quando chegou ambos já tinham desaparecido.  Tito passaria a noite triste e solitário, mas já sabemos que houve um esbarro, e a vida de quatro pessoas mudou de rumo. Os descuidos do acaso atrapalharam ou os astros favoreceram? Talvez os desprezados não representassem o amor puro e verdadeiro cantado pelos poetas e com o qual todos sonham. Ou quem sabe os caprichos do coração tenham regras próprias e não se curvam diante das manifestações do acaso… Por certo o esbarro foi programado nas estrelas.

 

Nada melhor para aquecer o inusitado frio que assola a terra de eterno verão do que ver o amor surgir de situações inesperadas.  Adriana e Marcos se encontraram no reveillon de Miami Beach apenas porque coincidentemente usavam camisas iguais – a mesma cor verde, a mesma marca e o mesmo Happy New Year em letras douradas. Quer dizer, se não existissem roupas unissex, eles passariam um pelo outro e seguiriam seus rumos na vida. Tal e qual linhas paralelas,  jamais se encontrariam. Marcos nem gostou da camisa, mas a namorada deu de presente e ficava chato passar adiante. Marcos e Adriana estão casados há 20 anos,  mas a ex-namorada continua sozinha, até hoje lamentando o presente dado, ‘Devia ter comprado a de cor azul’.

 

Melhor ainda quando o amor de reveillon derruba impedimentos e ressentimentos arraigados, mesmo que absurdos. Os donos do Supermercado Estrela eram inimigos figadais dos donos do Supermercado Romano, acintosamente  instalado na esquina oposta, embora os Romanos garantam que chegaram primeiro. Tal proximidade provocou um feudo entre as duas  famílias que perdurou por três gerações. Ferrenha rivalidade, porém, não impediu Romeu Estrela de se apaixonar por Julieta Romano no reveillon de Camburi. Iemanjá estava de bom humor e a paixão foi correspondida, mesmo que proibida.

 

As forças ocultas que manipulam os mesquinhos interesses humanos tudo fizeram para impedir o romance, condenado a um final infeliz e trágico. Mas a decisão é minha – morrem os dois de paixão no final dessa história e eu fico famosa, ou deixo o amor vencer e continuo na obscuridade? Melhor deixar os dois pombinhos serem felizes para sempre, envelhecendo cercados de filhos e netos. E como o amor é cego mas não é burro, os supermercados também se uniram, mudando o nome para Estrela Romana.