A moça no quadro

 

grito“O Grito”, Edvard Munch

 
No saguão de entrada do Edifício Hertez, onde se instala o Departamento das Ciências Futuras, um quadro em tamanho natural de uma bela jovem enfeita a parede principal, limitado por uma sofisticada moldura dourada. Uma placa de bronze ao pé do quadro informa: Jane Hertez, 1930. Na parede em frente uma poltrona antiga combina com o estilo do quadro, embora tudo mais em volta contraste com a solenidade da pintura – o piso de granito, os móveis futuristas, um mural de avisos com a cortiça encoberta por papéis espetados com alfinetes.

 

Todas as tardes uma velha senhora vem se sentar na poltrona antiga, o brocado quase despido de sua cor original. A bolsa fora de moda esquecida no colo, a sombrinha pendurada no braço, não importa qual seja a previsão do tempo. Nenhum dos muitos funcionários daquele departamento sabe quem é ela, como vem ou como vai embora – velha demais para dirigir e ônibus nessa área são como Lamborghinis no Brasil, raríssimos. Ela fica ali olhando a moça do quadro, que parece olhar de volta agradecida pela honra das  visitas constantes.

 

As pessoas ocupadas  em  ir e vir, subordinadas a horários e tarefas inadiáveis  não reparam no quadro pintado por um pintor primoroso, nem na senhora distraída que com certeza também não repara nelas. A velha fica horas olhando o quadro como se olhasse o passado, os olhos voltando no tempo ou encarando o vazio de uma vida já vivida, esperando o que ainda resta dela. Quando o relógio em neon da recepção marca seis horas ela vai embora, e sua ausência, tal como sua presença diária, não é percebida.  

 

Mas no dia em que não veio a poltrona vazia chamou a atenção de todos como o grito de dor do quadro de Edvard Munch.  O que houve com a senhora que vem todas as tardes? Teria adoecido, morrido ou simplesmente cansou de sua visita inútil? As pessoas mais antigas no departamento se deram conta de ela já estava ali quando elas chegaram, outras perceberam que ela nunca faltou um só dia, outras ainda se comoveram com aquela adoração silenciosa pela pessoa retratada. Por fim alguém chega com a notícia publicada em um jornal local, anunciando o falecimento de Jane Hertez.

 

Aposto que todos apostam que a velha senhora recentemente falecida e a moça do quadro são a mesma pessoa. Mas sempre se pode encontrar um final surpreendente, seja para uma história real ou nem tanto. Jane Hertez, a jovem no retrato, foi uma  emérita filantropa que doou os fundos para a construção do edifício onde se instala o Departamento das Ciências Futuras, ora falecida e devidamente homenageada por um jornal local. A universidade beneficiada a esqueceu, e nenhuma cerimônia ou culto foi programado.

 

Com o mistério resolvido, todos esqueceram a persistente visitante, até que, passadas algumas semanas, lá vem ela de novo – a mesma roupa fora de moda, a mesma bolsa antiquada, a mesma sombrinha sem chuva, o mesmo olhar parado na adoração ao quadro na parede. Indagada quem era ou porque ali vinha, nada respondeu, mas alguém garantiu ter visto uma lágrima rolar de seus olhos cansados quando informada que a moça do quadro havia falecido.

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