Komo chegaram aki?

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Houve um tempo em que as  letras  K, Y e W oficialmente não existiam no vocabulário brasileiro, até que um dia o óbvio se impôs e as letrinhas esnobes vieram alegrar nossa linguagem escrita. Claro que o W e eu já nos entendíamos bem, mas não houve grandes mudanças sociais e morais no país com a referida inclusão. Sugiro, portanto, expandir o repertório e torná-los mais efetivos. Por exemplo, para diferenciar casa e kasa – o substantivo concreto com C designando o imóvel que habitamos, e o verbo kasar para indicar kasamento, relacionamentos sacramentados na igreja e/ou no cartório. Ficaria mais elegante nas colunas sociais: Kasam-se nesse final de semana na Ygreja de Wiana, Karlos, funcionário da Korte de Justiça e Yrene, proprietária da Corte e Costura. Ficou mais claro, não?

 

Quem recebe a cidadania americana pode mudar o nome, e o personagem mais famoso a aceitar o privilégio foi Kal-El, que migrou do planeta Krypton.  Até hoje o nome Clark é o mais adotado pelos novos cidadãos estadunidenses, principalmente os oriundos dos países de linguagem hieroglífica, como Japão, Coréia, etc. Meu nome aqui é pronunciado Uanda, que lembra Uganda,  um país triste. Quando recebi minha cidadania o funcionário me aconselhou a mudar de nome. Pensei em trocar para Vanda, mas ele se referia ao Sily, que soa mal aqui. Poderia trocar para Wanda King ou Vanda Rowling, nomes que me dariam grande vantagem com o público leitor. ‘Parente do Stephen King?’ Mas pensando na dor de cabeça que seria trocar toda a papelada oficial recusei o conselho. Ele ficou decepcionado.

 

Os nomes com K, Y, W eram mal-vistos entre nós – por que Yara se temos o I com o mesmo som, e o Y não consta do alfabeto? Devia ser proibido. Meu segundo nome, Eduvirges,  homenageia minha avó materna, mas os oficiais dos cartórios de registro civil frequentemente alteram os nomes, por maldade ou ignorância, sei lá. Minha avó se chamava Edwiges, e o sujeito ignorou o nome que meu pai lhe deu por escrito em uma folha de papel, em letras garrafais. Depois de registrado no livro sagrado de todos os nomes, é quase impossível corrigir ou alterar. Talvez o sujeito fosse nacionalista ferrenho e abominava estrangeirismos.

 

Yris Kardoso também era contra a intromissão dos alienígenas no vocabulário, e odiava o nome que os pais lhe impuseram – ofensa dupla, num tempo em que essas letras eram ainda invasoras inúteis. Quando se apaixonou por Nesio Walparaiso, o promissor romance foi frustrado quando Yris viu como o nome do namorado era escrito. A jovem já sofria com o Y e o K, e adicionar um W seria demais para ela. Tentando salvar o relacionamento, Nesio sugeriu que ela não adotasse o Walparayso, mas Yris recusou, pensando nos futuros filhos chamando-se Kardoso Walparayso. Mesmo sofrendo desesperadamente, Yris preferiu continuar solteira.

 

Quando as três letras desprezadas foram oficialmente incorporadas ao abecedário tupynikim, Yris se arrependeu de seus exageros linguísticos e foi procurar o Nesio, que infelizmente já estava casado com uma Keyla Kouto. Sabendo bem como andam os casamentos hoje em dia, Yris não se desesperou, e quando soube do divórcio, voltou a apostar no antigo romance. Deu certo – eles se kasaram na Ygreja de Wiana e o filho se chamou Yldo Kardoso Walparaiso.  Não tiveram outros, pois infelizmente logo se divorcyaram.

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