Couve e caipirinha

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Estando a Flórida rodeada de mares e lagos por todos os lados menos um, é da natureza geográfica deste globo conceder-lhe belas praias nesses três lados. Quem disse que só os humanos concedem privilégios? E seria injustiça não dedicar pelo menos uma delas aos brasucas que a elegeram como segunda pátria – Pompano Beach, também conhecida como Little Brazil.  Passando por perto, resolvi matar as saudades almoçando em um dos muitos a-quilo da área. Simples, mas tudo fresquinho e gostoso, com o churrasco incluído no preço: $8,00 a libra. O que daria o preço dos mais sofisticados no Brasil, não?

 

Alegria maior: couve no prato e suco de maracujá no copo. Sobremesa de papa de milho verde. Por mais que tentem incrementar, a couve não consegue chegar à mesa dos  americanos. Amiga almoçando na minha casa: ‘Isso é couve? Comi pensando que era kale.’ Comeu, mas não repetiu na segunda rodada. A-seguir, passagem obrigatória por um dos supermercados brasileiros, que por acaso é de portugueses. Em sendo longe de onde habito, ligo para os filhos perguntando o que querem. Os mais solicitados: bom-bom Garoto, ‘Mas confere a validade’, guaraná litrão, Panettone Bauduco na metade do preço do Publix, requeijão cremoso, suco de maracujá, farinha de mandioca.

 

Informo que tem ainda uma montanha de ovos de páscoa, o que indica que não venderam bem. Ninguém pediu. Captado em um filme no canal da Amazon: ‘Li a Bíblia todinha duas vezes e não achei nenhuma indicação de que coelhos e ovos de chocolate são símbolos da Páscoa’. Embora Pompano Beach seja considerada território brasileiro, toda a região litorânea entre Pompano e Deerfield Beach tem grande concentração de brasucas. Dos 3 milhões de brasileiros vivendo fora do Brasil, ⅓ estão nos US e Miami é a região preferida, com cerca de 300 mil. Entre esses, meu pequeno núcleo familiar, que se compunha de 9 deslocados, agora são 13. E prometendo crescer: mais 2 esse ano.  

 

Nos anos 80 e 90, a maioria dos imigrantes brasileiros era de classe média baixa tentando melhorar de vida. Atualmente, os ricos formam a maioria dos que estão chegando. Se antes vinham em busca de uma vida melhor, hoje a segurança é o fator mais importante. Quanto a preferirem o sul da Flórida, a razão é o clima, muito parecido com o nosso. Mas um novo atrativo cresce com essa mudança de status no perfil do novo imigrante: o setor imobiliário. Os super-brasucas estão no terceiro lugar entre os estrangeiros que compram propriedades de alto nível na florida Flórida. As de mais de um milhão de dólares.

 

Embora ainda não esteja aparecendo nas estatísticas, acredito que um outro motivo esteja atraindo os muito ricos para as benesses do primeiro mundo: a cidadania americana pode livrar muita gente boa da cadeia. Pense nisso se você está perdendo o sono com tantas delações e investigações e CPIs abundando por toda parte. Mas se você está na base da pirâmide e quer vir sem documentos, em busca de segurança e um empreguinho na economia informal, cuidado. Mr. Trump aboliu o espanhol do site oficial da Casabranca. O que isso tem a ver conosco? Ah, tem.

Yes, nós também!

chuva

Com o  aguaceiro que desabou sobre o Rio na quinta-feira, precisamos admitir que o Brasil já tem até furacão. Yes, nós também! Afinal, sempre gostamos de imitar todo mundo. Imagina se fosse na terça-feira gorda, plena euforia carnavalesca, cidade lotada de turistas. Cadê o prefeito? Parece até que foi encomenda da oposição. Cidade alagada, falta de energia elétrica, trânsito interrompido, caos generalizado. Vamos em frente que domingo tem futebol.

 

Dia seguinte, pelo menos metade da cidade restabelecida em seus direitos inalienáveis de brilhar com luz artificial, mano JC resolve cortar o cabelo. Morador da velha Tijuca e carioca por adoção e coração, por favor não falem mal do Rio perto dele. A barbearia de sua total fidelidade fica na Praça Cruz Vermelha, onde ele vai a pé há exatamente 40 anos para essa obrigação estética mensal. Por sorte, com todo esse tempo corrido, JC ainda tem o que cortar na cabeça. Mais sorte ainda, em lá chegando ele percebe que apesar de todo o bairro ainda estar sem luz, a barbearia é o único estabelecimento comercial aberto na área.

 

São sete da noite e embora na rua ainda esteja claro, dentro já está um pouco escuro. JC resolve desistir do corte e voltar para casa, mas o barbeiro, um senhor de 90 anos completados no último carnaval, vê o cliente e não vai deixar escapar, Vamos entre, dá pra cortar, não vá embora. Sem água e luz, quase nenhum cliente hoje. Mesmo nessa vetusta idade, o simpático senhor abre a barbearia de 7 da matina às 9 da noite, de segunda a sábado. JC fica meio preocupado, mas como recusar? Entra e o barbeiro começa a afiar a navalha, devagar se tem o melhor corte. Depois escolhe e arruma as tesouras por ordem de tamanho…

 

O salão vai ficando cada vez mais escuro e o barbeiro sem pressa nenhuma. Quando o corte começa JC só vê um avental branco se movendo em volta dele. Espelho? Tudo preto. O que o barbeiro está vendo ele não sabe nem pergunta, mas com 70 anos de ofício e cortando seu cabelo há 40, não precisava de muita luz – conhece de cor o cabelo e o cliente. Quando finalmente ele chega no arremate o salão já está completamente escuro e JC sente calafrios com a navalha afiadíssima desfilando tranquila em sua  nuca. Na maior escuridão, nem vela o homem tinha.

 

O resultado final? Já se passaram vários dias e ele ainda não olhou no espelho para verificar. E como gosta de usar boné, não sai mais de casa sem ele. Mas cortar cabelo é como podar uma planta, por pior que fique, vai crescer de novo. Demora mas volta ao que era antes, principalmente para quem não está antenado nos modismos que se vê nas ruas. Fui com a filha cortar o cabelo do neto num vasto salão masculino com 20 cadeiras na ativa, e mais gente esperando a vez,  e o neto era o único cabelo loiro – tudo cabelo preto e no mesmo corte: máquina zero em volta deixando no alto um farto topete, que alguns pintam de cores berrantes.

 

Acho que chama crista de galo, sei não. Pelo menos parece. E me pergunto, estamos na América ou Miami se mudou pra Cuba?  De acordo com o último senso, 70% da população de Miami é latina, e destes 54% são cubanos. E continuamos crescendo. Quanto ao Rio, sugiro que os próximos candidatos a cargos políticos sejam mais específicos em suas qualificações: “Votem no Amaral, que gosta de carnaval”.

Estranho mundo velho

HardRock

Antigamente dizer que alguém andava nas nuvens era ofensa. Hoje, quem vive nas nuvens está antenado, na moda, atualizado. Tela grande indicava cinema, telinha é a da TV da sua casa. Não mais. A empresa especializada em eletrônicos de luxo, C SEED , criou a maior TV residencial do mundo, medindo 61 metros de comprimento por 25 de largura. Preço? $500 mil dólares. Conforto é na poltrona da sala, cinema é pra ver filme sentado, mas os cinemas de hoje não cochilam em serviço. Com poltronas estofadas para maior conforto, e cada vez mais reclinadas, se o filme não for de muita ação, muita pancadaria, todo mundo dorme.

 

Filho de 10 anos reclamando com o pai: O iPad do Pedrinho é muito melhor que o meu, e ele só tem dois anos. A necessidade de impressionar os outros começa cedo. Esposa briga com o marido por comprar o novo iPhone, que está custando mais de mil dólares, Qual o problema com o outro celular? Todos os meus amigos já compraram o novo. E assim vamos vivendo a era do desperdício, adquirindo o modelo mais novo, o carro do ano, a roupa da moda. Ter o que há de melhor. Mas se todos decidissem não comprar porque está caro, será que os preços cairiam?

 

E os índios, como ficam? Se no Brasil índio depende da boa vontade dos governos para sobreviver, a tribo dos Seminoles na Flórida está na lista das empresas mais ricas do mundo. As rígidas leis do estado contra o jogo ironicamente ajudaram a criar um dos maiores complexos de hotéis e jogos de azar do mundo – o Hard Rock Hotel e Cassino da tribo Seminoles, que está investindo 1.5 bilhões de dólares em um ousado projeto de expansão. O ponto alto – nos dois sentidos  –  é o novo prédio de 140 metros de altura em formato de guitarra, que promete se tornar ponto de referência do estado.

 

Também teremos em breve mais um gigantesco shopping center para superar o Dolphin Mall e o Sawgrass Mill, os gigantes da Flórida. Mas não andam apregoando que os shoppings estão agonizando, superados pelas vendas online? Uma novidade superando a anterior é disputa antiga, desde que Gutemberg inventou a imprensa e os datilógrafos acharam que perderiam seus empregos. Essa função existe ainda hoje, o que mudou foram as máquinas de datilografar. O primeiro livro publicado por Gutemberg, a Bíblia, tinha apenas 42 linhas em cada página, sem pontuação e parágrafos.

 

Conversa de avó no celular  – Siri, liga pro Lulu, meu netinho. Desculpe, não consigo entender sua solicitação. O Lulu, menina, tá fazendo faculdade em Miami. Desculpe, nome não encontrado. Favor fornecer detalhes mais específicos. Vovó fala bem devagar, Lu – lu – meu – ne – to – de – Mi – a – mi. Desculpe, registro não encontrado. Essa tal Siri é burra mesmo!

Otimista, eu?

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O telefone  tocou cedo, acordou assustada. Voz impessoal e bem treinada, altamente profissional, “Sua aplicação para o cargo em aberto foi aceita, parabéns. Favor se apresentar na segunda-feira, Setor de Recursos Humanos, com documentação atualizada e foto 3×4 recente.” Segunda-feira? É sábado, serão dois dias de ansiedade e expectativa, mas tudo bem, que tudo vai se acabar na segunda-feira. Liga pra Carminha, melhor amiga, pra contar a novidade. Praia cancelada, amiga.

 

A amiga se entusiasma, regozija, bate palmas, que boas amigas são pra essas horas. Vamos pro shopping, então. Uma roupinha nova levanta a moral e dá boa impressão. Mostra que você valoriza o cargo e a empresa. Fazer unha e cabelo, também ajuda. Ah, mas tô tão nervosa… Ora, você já venceu a parte pior, entrevista de emprego é barra, né? Teve entrevista não. Então vai ter, ninguém emprega sem entrevistar antes. Isso já foi superado, a gente manda o currículo, o que conta são as boas qualificações, a experiência para a posição.

 

A amiga quer saber qual posição, curiosa demais. Como saber, apliquei para tantas, qualquer uma será bem-vinda, tô muito precisada. Quem num tá? Combinam o encontro no shopping, Beijim, Beijim. Desligo. Gina dança escovando os dentes, canta no chuveiro, põe uma flor na bandeja do café da manhã e vai tomar na varanda. E então lhe ocorre uma dúvida atroz, Qual empresa? O telefonema não informou, e se aplicou para muitas posições, idem, idem para muitas empresas. Qual ligou? Em qual delas deve estar na manhã da segunda-feira, devidamente documentada para começar uma nova e maravilhosa vida?

 

Gina volta ao telefone para localizar chamada e chamador – Caller ID, que o telefone foi comprado no Paraguai. E para seu espanto lá está: 555-7555. Não acredita, checa a mensagem,  checa o número. Trote às seis da manhã no sábado? Gina veste o biquini e vai pra praia sozinha, e não atende as 20 chamadas da futura ex-amiga no celular. Na número 21, seis da tarde, ela aperta a  bolinha verde, Cadê você, amiga, q’qui aconteceu? Passei o dia no shopping te esperando, tô aqui no desespero. Aconteceu nada não, resolvi vir pra praia. Não ia perder o dia de sol por causa de um empreguinho, né? A falsa amiga entende, Desligo.

 

Amizade de longa data supera crises e desafios, e no domingo Carminha bate na casa da amiga, biquini na bolsa, pedindo desculpas pela brincadeira de mal gosto. Não fiz por mal, ia te contar no shopping. Não vamos estragar uma amizade que remonta ao jardim de infância, né? Gina diz tudo bem, pega um copo na pia e põe água pela metade, O que você vê nesse copo?  Um copo vazio pela metade. Carlinha a corrige, Não, um copo cheio pela metade. Ontem passei a metade do dia feliz, portanto valeu. Com quem mais vai à praia?