Yes, nós também!

chuva

Com o  aguaceiro que desabou sobre o Rio na quinta-feira, precisamos admitir que o Brasil já tem até furacão. Yes, nós também! Afinal, sempre gostamos de imitar todo mundo. Imagina se fosse na terça-feira gorda, plena euforia carnavalesca, cidade lotada de turistas. Cadê o prefeito? Parece até que foi encomenda da oposição. Cidade alagada, falta de energia elétrica, trânsito interrompido, caos generalizado. Vamos em frente que domingo tem futebol.

 

Dia seguinte, pelo menos metade da cidade restabelecida em seus direitos inalienáveis de brilhar com luz artificial, mano JC resolve cortar o cabelo. Morador da velha Tijuca e carioca por adoção e coração, por favor não falem mal do Rio perto dele. A barbearia de sua total fidelidade fica na Praça Cruz Vermelha, onde ele vai a pé há exatamente 40 anos para essa obrigação estética mensal. Por sorte, com todo esse tempo corrido, JC ainda tem o que cortar na cabeça. Mais sorte ainda, em lá chegando ele percebe que apesar de todo o bairro ainda estar sem luz, a barbearia é o único estabelecimento comercial aberto na área.

 

São sete da noite e embora na rua ainda esteja claro, dentro já está um pouco escuro. JC resolve desistir do corte e voltar para casa, mas o barbeiro, um senhor de 90 anos completados no último carnaval, vê o cliente e não vai deixar escapar, Vamos entre, dá pra cortar, não vá embora. Sem água e luz, quase nenhum cliente hoje. Mesmo nessa vetusta idade, o simpático senhor abre a barbearia de 7 da matina às 9 da noite, de segunda a sábado. JC fica meio preocupado, mas como recusar? Entra e o barbeiro começa a afiar a navalha, devagar se tem o melhor corte. Depois escolhe e arruma as tesouras por ordem de tamanho…

 

O salão vai ficando cada vez mais escuro e o barbeiro sem pressa nenhuma. Quando o corte começa JC só vê um avental branco se movendo em volta dele. Espelho? Tudo preto. O que o barbeiro está vendo ele não sabe nem pergunta, mas com 70 anos de ofício e cortando seu cabelo há 40, não precisava de muita luz – conhece de cor o cabelo e o cliente. Quando finalmente ele chega no arremate o salão já está completamente escuro e JC sente calafrios com a navalha afiadíssima desfilando tranquila em sua  nuca. Na maior escuridão, nem vela o homem tinha.

 

O resultado final? Já se passaram vários dias e ele ainda não olhou no espelho para verificar. E como gosta de usar boné, não sai mais de casa sem ele. Mas cortar cabelo é como podar uma planta, por pior que fique, vai crescer de novo. Demora mas volta ao que era antes, principalmente para quem não está antenado nos modismos que se vê nas ruas. Fui com a filha cortar o cabelo do neto num vasto salão masculino com 20 cadeiras na ativa, e mais gente esperando a vez,  e o neto era o único cabelo loiro – tudo cabelo preto e no mesmo corte: máquina zero em volta deixando no alto um farto topete, que alguns pintam de cores berrantes.

 

Acho que chama crista de galo, sei não. Pelo menos parece. E me pergunto, estamos na América ou Miami se mudou pra Cuba?  De acordo com o último senso, 70% da população de Miami é latina, e destes 54% são cubanos. E continuamos crescendo. Quanto ao Rio, sugiro que os próximos candidatos a cargos políticos sejam mais específicos em suas qualificações: “Votem no Amaral, que gosta de carnaval”.

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