Rainha de copas

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A rainha se cansou de tudo e partiu sem levar bagagem. A única mensagem – Só quero que me esqueçam, nada tem de novo, outros já a disseram, embora nem todos fossem sinceros. Para onde vai? perguntaram, Do alto da Torre Eiffel quero ver o mar, ela responde. Mas é possível ver o mar do alto da torre? Alguém se espanta. Não sei, tenho medo de altura e nunca fui lá. Mas sou rainha e ponho o mar onde quiser. Do alto da torre vê-se o mundo todo –  real, imaginário ou debruçado nas nuvens, que nem anjinhos. Tudo que se quiser ver a torre alcança. Paris não é o centro do mundo, cogita outro, provocando um olhar de viés. O centro do mundo está  no coração de cada um, ela diz.

 

Coração é assunto complicado, disse Shakespeare, que dele entendia bem. O termo, porém, é dúbio, podendo indicar um órgão feito especificamente para bombear um líquido  viscoso, fazendo-o  circular continuamente pelo corpo: sai limpo volta sujo, passa pela lavanderia automática, sai limpo e volta sujo… Quando parar, paramos. Ou não, que as mágicas da medicina alteraram os circuitos, e já não se morre do coração como antigamente, com transplantes e cateterismos, marca-passo e pílulas milagrosas, dietas e vitaminas, e aspirina 81 gramas, nem mais nem menos.

 

Quanto ao líquido viscoso nem sempre é vermelho, podendo ser branco ou azul, esse o mais nobre, embora imperceptível aos olhos plebeus. Se a Rainha Elizabeth cortar o dedo, o sangue vai sair tão vermelho quanto o meu. A diferença é que, nas paredes dos corredores de sua residência – sua não, da rainha – velhos quadros de reis e rainhas com o mesmo DNA (supunham), e o mesmíssimo sangue azul a espreitam com ar de censura, Foi por essa aí que perdi a cabeça? lamenta um, Matei tanta gente e foi o que sobrou? se arrepende outro. Pois os reis nascem com essa missão assaz difícil de manter o trono que herdaram de parentes que não conheceram para futuros herdeiros que não conhecerão. Se algum falhar e interromper o ciclo, estará amaldiçoado por todo o sempre.

 
Propaganda enganosa. O coração que carregamos e nos carrega, irrigando continuamente todos os caminhos e cantinhos, vias, desvios, ruelas e atalhos é marrom, e não vermelho, feio, sisudo, e não tem nada de charmoso. Com dupla personalidade, há um outro coração,  vermelho flamante, bombeando sentimentos e emoções, afetos e desafetos, prazeres e ilusões, controlando as decisões mais importantes: do que gostamos, a quem  amamos, onde queremos ir e estar, as aptdidões e qualificações que podem determinar uma vida, e com  milhares de desdobramentos a partir daí.

 

Pois foi esse lado sentimental do coração da rainha que a levou a cruzar o Canal da Mancha e chegar à cidade luz. A soberana da Europa, dizem os franceses. Mas não a nado como foi amplamente divulgado pela mídia, e sim pelo Eurotúnel. Fato é que sempre existirá uma rivalidade entre francos e britânicos. E quem foi Europa senão uma bela princesa raptada por Júpiter fantasiado de touro, e dele teve um filho chamado Minos?  Haja coração!

(Imagem Google)

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