A dívida

 

cartoes de credito

Diva tinha uma dívida. Parece lição de escola primária, mas infelizmente para Diva a dívida é real, constando dos anais dos guardiães do dinheiro alheio, insensíveis controladores da moeda corrente, como se diz no mercado paralelo. Nem tão corrente assim, pensa Diva, quando consegue não pensar em como se livrar da nefasta obrigação financeira, lembrando o velho lema dos cartões de crédito: Penso que devo, estou pagando, penso que pago, estou devendo. Disse Camões.

 

Ora direis, quem não pode pagar não deve gastar. Mas Diva teve seus motivos e tem suas filosofias. Os motivos remontam ao casamento da filha única, razão da dívida. Ora, apenas uma filha, e se casando com um rapaz acomodado em emprego bem pago, e de  tradicional  família americana, embora democratas convictos. Diva não ia deixar por menos, a festa teria que acompanhar o nível social e político da futura família da filha.

 

No quesito filosofia de mãe, Diva entendeu que uma dívida a gente rola como pode, mas um vexame não se salda nunca. E a culpa não é de quem assume o compromisso, mas de quem empresta sem perguntar a quem. Ou seja, os donos dos cartões de crédito, que embora denominados crédito, na verdade são criados para não serem pagos, que o lucro está de tocaia nos juros. O devedor ideal paga o mínimo a vida toda.

 

Diva trabalha de 9 às 5, descontando a hora do almoço. De 6 às 10 arranjou uma faxina na empresa no final do corredor, assim não precisa deixar o prédio e pegar condução. Não está dando nem pra pagar o juro do cartão. Portanto, pegou outra faxina na loja de móveis perto de casa, onde também não precisa pegar condução. Mesmo assim não está dando, e Diva arranjou outro bico para os sábados e domingos, fazendo mani-pedi, como chamam aqui manicure e pedicure, e por incrível que pareça, com isso está conseguindo pagar o mínimo.

 

Em troca adquiriu um esgotamento nervoso, porque não sobra tempo para lazer, diversão, distração, tempo útil, descanso remunerado ou não-compensado, ou que nome mais lhe dão. Nem sequer consegue curtir o neto, menos ainda a vida familiar e o convívio social. O prazer de comer em um restaurante? Há séculos não entra nem no Taco Bell, e não compra roupa nova nem no Goodwill (chamar de nova é vício de linguagem).

 

Pois é nesse estado de calamidade financeira que a filha bate na porta, com filho, mamadeiras e bolsa de fraldas a tiracolo, informando que se separou do gringo.  Sem direito a pensão alimentícia porque o ex descobriu que o filho não é dele. E agora, filha? Bota água no feijão que eu tô voltando, avisou o Chico. Diva deixou a dívida rolar ladeira abaixo, largou os empregos, horas extras e bicos, e foi ser babysitter do neto. Cortou o telefone porque não aguentava mais cobrador ligando o dia todo.

 

Essa história baseada em fatos reais pretende ilustrar que não importa o hemisfério (norte), a posição geográfica (extremo sul dos Estados Unidos), a ideologia política (adora o Trump) ou o status migratório (green card, sem dinheiro para a cidadania), dívida todo mundo tem, mas só paga quem pode.  

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *