Palavras ao vento

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A facilidade de aprender um idioma é um dom, como ter boa voz ou tocar um instrumento musical. E ganhar a vida como tradutor/a de textos, um meio de vida lucrativo, principalmente quando são muitas palavras. Mas não tem que ser gênio para traduzir textos. Na minha infância tinha uma cantiga de roda que perguntava, Que ofício darás a ela? Ela, no caso, era a pessoa dentro da roda. Os ofícios naquele tempo não variavam muito, e ninguém lembrou de me dar o ofício de tradutora.

 

Quem ainda se lembra das cantigas de roda dos idos tempos sem televisão e computadores? Parece filme de terror, mas esse tempo existiu de fato, e não era nada ruim. Trabalhar como tradutora também não. Mas como em qualquer ofício, existem tradutores e Tradutores, e nem todos têm a  sorte de traduzir Harry Potter. Mas qual a diferença? Se um livro vende dez milhões de exemplares ou encalha e só a família compra, o preço é o mesmo?

 

Embora trabalhe há anos como tradutora, nunca traduzi obras para editoras, então só me resta imaginar como deve ter sido. Chegou aqui um livrinho infantil, quer traduzir? pergunta o editor. Livro infantil paga pouco… poucas páginas, reclama a desanimada tradutora. Não tem nada mais volumoso? O editor acha que os tradutores estão muito seletivos,  Livro infantil traduz rápido e criança nunca reclama de tradução incorreta. E quem pega um ganha as possíveis sequências. Livro infantil tem sequência? Ela pergunta, Ainda não dei a sorte de pegar nenhum.

 

Mesmo assim a tradutora aceita, não quer perder o emprego. E acertou no milhar, que era o modo de dizer que ganhou no bicho. Para variar, o nome dela é Etelvina, a mesma daquele sambinha, alguém conhece? “Etelvina, acertei no milhar / Ganhei duzentos contos, não vou mais trabalhar”. O primeiro livro do Harry Potter tinha 76.944 palavras, um tamanho razoável. As páginas foram crescendo à proporção que crescia o sucesso do mago, e o volume mais gordinho tem 257.095 palavras. Se você leu os sete livros da série, devorou mais de um milhão de palavras. E os fãs ainda acham pouco.

 

Esse ano a conta bancária da J. K. Rowling atingiu a casa do bilhão, portanto, ela ganhou mil dólares por cada palavrinha que escreveu. Quanto à desiludida Etelvina, pra traduzir os sete livros ganhou 0.15 centavos de dólar por palavra. Ou menos, pois provavelmente os editores pagam por livro e não por palavras. Não ficou bilionária, mas fez seu pé de meia. Outro gigante das palavras, Guerra e Paz, tinha 1.238 páginas, num tempo sem  máquinas de escrever, computadores e impressoras. Nem tinham inventado os líquidos corretivos e corretores automáticos, menos ainda contadores de palavras – com ou sem espaço.

 

Donde se conclui que a modernidade atrapalha. Se pudesse ter contado as palavras Tolstoi teria sido mais  comedido? Em tendo que pagar os tradutores por palavra traduzida, muitos autores encolhem a obra – e a imaginação. As restrições do mercado também não deixam as ideias fluírem livremente: para autores novatos, as editoras só aceitam livros magrinhos, como o primeiro livro da Rowling. Até ficar famosa e passer a ditar as regras. Sendo Guerra e Paz um dos livros mais famosos e mais lidos do mundo, quanto teria ganho Tolstoi nos dias de hoje?

 

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