Para, relógio

relogio

Temos uma interação de amor e ódio com os relógios. Digo amor porque estamos sempre procurando por eles, portanto só pode ser amor. Digo ódio porque eles sempre contam o tempo ao contrário – quando precisamos de tempo eles correm mais que nós, e quando não precisamos eles não andam. Os relógios foram inventados para nos servir e facilitar a vida – o tempo dividido em fatias mínimas e máximas. Aos poucos a situação foi se invertendo e hoje somos os escravos e eles nossos algozes.  A pergunta mais repetida no mundo: Que horas são? Padre Nosso e Ave Maria.

 

Ao nascer somos condicionados a esses retalhos de tempo: horas certas para as mamadas e as sonecas, refeições controladas pelo bater das horas. Depois vem a escola, o lazer, o trabalho… e como um feitor de chicote na mão, o relógio dita as regras. Claro que tentamos escapar, mas na maioria das vezes, ele vence. Fernando Pessoa foi um dos que se rebelaram: “Relógio, morre — Momentos vão. Nada já ocorre – ao coração.” Em vão, claro.

 

Já que nos preocupamos tanto com as horas, por que não nos adaptamos a elas? As frases mais ouvidas em qualquer momento ou lugar: Estou atrasada/o, Agora não tenho tempo, Perdi a hora, O tempo não para, Cadê tempo? Tempo é dinheiro. Perdi meu tempo…  nesse projeto, nesse relacionamento, nessa viagem, nesse emprego. “O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família,” disse Mário Quintana.

 

Marília olha para seus 145 relógios, todos de marcas famosas, arrumados na gaveta como se estivessem na vitrine de uma loja fina. Mesmo assim está sempre atrasada para tudo. Quando era pobre tinha apenas um relógio, baratinho, baratinho, mas sempre certinho. Marília tinha tempo para tudo, portanto, quanto mais relógios uma pessoa tem, menos tempo lhe sobra. Donde se conclui que os relógios são sinistros devoradores de  nosso tempo.

 

A vingança tarda mas não falha: a  nova tecnologia está acabando com os relógios. Teremos, portanto, todo o tempo do mundo? Nem pensar, que pensar gasta muito tempo. Os relógios concretos, sejam de pulso ou de parede, estão sendo desbancados pelo relógios abstratos, embutidos nos celulares e computadores. A guerra foi declarada, e os relojoeiros revidam criando modelos e marcas cada vez mais elegantes e sofisticadas – o relógio deixa de ser um objeto de contar o tempo para se tornar joia, símbolo de sofisticação e estatus.  

 

Minha casa está infestada de relógios virtuais – no fogão, no microondas, na televisão, no computador, no laptop, no telefone fixo ou no virtual… para onde olho, um marcador de tempo me espia, vigia, controla. Lutar contra essa ansiedade horária é perda de tempo, e quem perde tempo é otário ou chega atrasado. E já estou atrasada com esse texto que francamente, é uma perda de tempo.

 

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