Sem poluição não tem salvação

Polution

Ilustração: Victor Frizzera, 11 anos. O cartaz garante: Não tem poluição

 

Carmem, futura candidata ao Nobel da limpeza, resolveu despoluir a casa. Convocou o marido, os filhos, e partiu pra guerra contra os excessos, Hoje só almoça quem me trouxer uma sacola cheia. Ninguém  reclamou, achando a ideia interessante, genial na verdade, e cada um pegou uma sacolinha do Walmart no depósito de sacolinhas vazias do Walmart. Nada disto, Carmem protesta, determinada a ir fundo no problema, e distribui sacolões de plástico preto onde caberia até o sofá da sala.

 

O marido protesta contra o desperdício, uma vez que sacolões de lixo são comprados e as sacolinhas  do Walmart são gratuitas. Ainda não estão cobrando, que eu saiba. De acordo com as estatísticas, uma família de quatro integrantes vai a um supermercado quatro vezes por semana. Em média, quer dizer, tem semana que vão mais, embora nas semanas que vão menos comprem dobrado. O debate sobre qual sacola usar durou meia hora, mas Carmem venceu, Comprei no Frisco e não vou devolver.

 

A América está cada vez mais pobre: depois da gloriosa invasão das lojas de um dólar, sempre lotadas, agora chegou a vez dos supermercados econômicos, onde não embalam e vendem mercadorias tipo genérico, marcas desconhecidas em embalagens mais simples, poucas variedades, poucos atendentes, sem sofisticação e sem música ambiente latina.  Tá dando certo – vivem cheios e Carmem até diminuiu as idas ao Walmart. Embora o sucesso do Walmart já tenha sido também um reflexo da decaída no poder aquisitivo da população, como dizem os economistas.


Mas ainda é cedo para desesperar, uma vez que o Trump está tornando a América rica outra vez. Se não os americanos, pelo menos ele. Disse alguém: Mora numa torre dourada, tem um helicóptero esperando no telhado, e casou com uma modelo 30 anos mais jovem, por que não votaríamos nele? E para não esquecer que o assunto da coluna é a poluição, voltamos à casa da Carmem, onde ocorre intenso combate à poluição doméstica, responsável por 40% da ambiental.

 

Cada um com sua sacola e seus excessos, e o relógio correndo atrás – meio dia e ninguém conseguiu encher sequer 2% do buraco negro, ou seja, o sacolão. Reclamações generalizadas, Podem comer uma banana, Carmem autoriza. Duas horas: Coca-cola para todos. Os dois filhos aproveitam uma distração da mãe e atacam o macarrão de ontem na geladeira. Frio, porque se usarem o microondas ela ouve. Estranho como ainda não inventaram um microondas cuja porta não faz barulho ao fechar. Os vizinhos contam quantas vezes o microondas é usado na casa da Carmem.

 

Desnecessário mencionar que o ataque aos excessos familiares ocorreu no sábado, e os celulares começam a receber estranhas mensagens cifradas – E o cinema que combinamos? (namorada do filho) A gente não vai ao boliche? (namorado da filha), O jogo já começou, estamos assistindo no Hooter (amigas da Carmem), Reunião mensal do clube do livro, 15 minutos atrasado (lembrete automático no celular do marido).

 

Não dá mais pra suportar, explode coração. Carmem dá a faxina por encerrada e as quatro sacolas que não conseguem ficar em pé, totalmente desnutridas,  vão para a lixeira, poluindo ainda mais o meio ambiente. Vão todos para o mesmo shopping, cada um no seu carro, onde os eventos mencionados acima já estão ocorrendo.  E o mundo não vai acabar por causa disto. Humm, sei não.

 

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