Entre a salada e o vinho

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Poster na pizzaria:  ‘Comece com um bom vinho, porque nenhum grande romance começou com a salada’. No entanto, a salada é o começo, porque nenhum jantar termina com um vistoso prato de alfaces. Combinadas com tomates, elas criam a salada mais popular do mundo, a Caesar ou César,  que nada tem a ver com Júlio César, eternizado em carta de baralho, cesariana, os doze Césares. O nome czar da Rússia também veio de César.

 

Lurdinha estava no auge da dieta só-salada quando recebe um inesperado convite para um jantar. Para lembrar os velhos tempos, ele explica. Romântico? Talvez. César Augusto é um ex-amor que se casou com outra e reaparece viúvo e disponível. Lurdinha passa algumas noites insone, tramando a vingança, que é doce mas sempre deixa sequelas. A falecida era a melhor amiga e os dois a apunhalaram pelas costas. Há dez anos, mas por que esquecer?

 

Começamos com um bom vinho? ele pergunta. Sim, mas vou pedir apenas uma salada césar. Ele estranha, Numa churrascaria? Segundo o pai dos burros, o Google, a popular salada foi criada pelo chef Cesare Cardini, italiano americano radicado no México. Cardini participou de um concurso culinário na Bahia, e a salada foi premiada. Mas há outra versão, e ela teria  sido criada por outro italiano, Livio Santini, que era chef do Hotel Caesar’s, de Cesare Cardini. Que a registrou em seu nome. Outro traidor.

 

Para encerrar um jantar e começar um romance, nada como um cálice de Porto. Um vinho com personalidade própria, que apesar do nome, não é da cidade do Porto, que também não se chama Porto. Diziam antigamente que, mais antigamente ainda, as mamães cansadas das noites indormidas, punham umas gotinhas de vinho do Porto na mamadeira noturna. Os rebentos dormiam como anjinhos. Talvez seja bom para cólicas, ou talvez a mãe tomasse umas gotinhas também é não ouvia a choradeira.

 

Talvez pelos efeitos etílicos do porto, depois do segundo cálice Lurdinha já estava saboreando a picanha envolta em delicadas fatias de bacon, e Cesar Augusto comendo salada e confessando seu amor eterno e profundo arrependimento. Me deixei envolver, a mente obliterada pela cerveja. Devia tomado vinho naquele jantar… Alguma vez pensou em mim nesses dez anos? Ela pergunta.  Nunca parei de pensar em você, ele confessa. Lurdinha sabe que ele mente, mas acena para o garçom e pede uma cerveja.

O segredo

 

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As flores começaram a chegar em janeiro. Toda semana um buquê envolto em papel colorido. Lindos arranjos, mas nunca as mesmas flores. Daise investiga, pergunta a uns e outros, descobre qual é a floricultura… e fica nisso. Nada lhe é revelado. Em fevereiro as misteriosas remessas viram assunto entre os colegas de trabalho, todos dando palpites, sugestões, dicas de como descobrir o remetente. Ou a remetende, sabe-se lá, uma vez que se mantém anônimo ou anônima.

 

E as flores chegando. Daise é de poucos amigos, quase não sai de casa, o que torna as remessas ainda mais instigantes. Também não está interessada em admiradores, que com certeza não tem. Março aparece no calendário e as flores chegando. Ninguém veio informar que houve um engano, a gentileza é para a bonitona do segundo andar, bateram em sua porta por equívoco. Ou para a dondoca da cobertura, que todo mundo sabe,  recebe flores de todo mundo, menos do marido. Depois que o noivo a deixou a ver navios, Daise não recebia flores de ninguém.

 

A vida passa rápido mas os meses escorrem lentos. Em abril os buquês chegam duas vezes por semana, mesmo assim variando em estilo e tipo de flores. Nem sabia que existem tantas nos jardins da cidade. Tentando desvendar o florido mistério, em maio Daise resolve aderir à turma do escritório que frequenta o barzinho do sábado à noite – nenhuma pista. Em junho Daise aceita os convites da turma que vai a la praya aos domingos e dias santificados, seja por santos ou herois nacionais. Nada descobre, além do fato de que a turma é bem animada.

 

Em julho Daise está em desespero de causa, e adere à turma do prédio que frequenta a academia da esquina… Em agosto aceita o convite das primas para ir ao cinema. Setembro traz uma alteração – um cartão com um coração desenhado a mão. Rima demais, convenhamos, e mesmo assim infrutífera. Como também as idas constantes à floricultura. O dono é muito atencioso mas explica que existe um código de ética a ser respeitado, segredos do ofício a serem mantidos. Ou seja, em setembro Daise continua no mesmo estágio de janeiro – nada sabe e não desconfia de ninguém.

 

Mas reconhece que a vida melhorou e já nem se lembra do ex-noivo. Em outubro Daise muda o corte e cor do cabelo. Em novembro Ricardo, o dono da floricultura a convida para uma pizza.  Dezembro chega cheio de promessas e surpresas. Ricardo confessa que mandava as flores e tira do bolso as alianças. Mas antes avisou ao anônimo remetente semanal que a moça ficou noiva e ele não ia mais entregar os buquês. Perdeu um bom cliente, mas está feliz.

 

 

O que aconteceu com maio?

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Após uma noite insone mas bem dormida, deperto e – mais pelo hábito – confiro a hora no guardião inseparável: o celular, amigo das horas certas ou atrasadas. E levo um susto – o mostrador exibe sem dó nem pena, 06/01/18.  O que aconteceu com maio? Sumiu do mapa sem dar explicações ou deixar recado, tipo, Volto daqui a 11 meses. Há esperas piores, dirão os elefantes, cuja gestação dura 2 anos. Mesmo assim, doeu.

Aurora liga para a polícia, e sua voz mostra desespero: Tem algo misterioso acontecendo com meu grupo de amigas. De repente, todas estão morrendo. Sou a última, portanto estou correndo sério risco de vida. A voz do outro lado da linha quer saber quantas amigas. Mortas ou vivas? Você disse que todas morreram, menos você. Ah, tá certo, fora eu somos sete. Desculpa, éramos sete. Que tipo de morte, minha senhora? Como foi que morreram?

A Luzia foi de pneumonia, coitada. Uma gripezinha à toa. A Carlinha foi ataque cardíaco fulminante. Tava bem de saúde, nunca teve problema de coração.… parecia que era a mais saudável. Pensa que o filho voltou da Europa pra ver o enterro? Nem mandou flores… A voz do outro lado da linha a interrompe.  Toma um tylenol e vai dormir, Dona Aurora. Vê se não liga mais hoje. Se a senhora morrer durante a noite, pode deixar que a gente manda flores. Aurora vai dormir aliviada – sobreviveu a mais um maio.

Ainda nem é  verão e o calor nos assalta. Ainda nem chegou a temporada de furacões e já  tivemos duas semanas de chuvas por causa de um furacão. A filha da Aurora saiu de férias e esqueceu de voltar. Deixou a mãe sozinha, mesmo sabendo que a  octogenária  está perdendo todas as amigas – cada dia morre uma. A empregada se mandou, coisa de briga com o marido. A faxineira ia substituir mas foi pega pelo esquadrão Trump e sumariamente deportada. E olha que a filha dela votou  no homem.

Aurora deu a volta por cima – arranjou um namorado, que gentilmente retira o dinheiro no banco e faz o supermercado, cozinha, limpa a casa e anda o cachorro. Estranha expressão, anda o cachorro, uma vez que o mesmo anda sozinho. Embora você esteja pensando que o Jason vai dar o golpe do baú, ou pior, sumir com o dinheiro da Aurora, nada disso vai acontecer nessa história, porque o rapaz é esperto e não pretende matar sua pombinha dos ovos de ouro. O que acontceu com maio? Virou junho.